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Devagar, mas vai
O país deverá retomar o
crescimento no ano 2000, mas
não pense que haja milagres econômicos no horizonte
César Nogueira
Antonio Milena
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| Consumo: pode crescer com moderação
se não provocar pressão sobre os preços |
Para um país eternamente descrito como do futuro,
a chegada do ano 2000 deveria ter um significado mais profundo.
A data mágica vai chegar e, mais uma vez, os brasileiros
estarão esperando dias melhores. O Brasil atravessou
a última semana mergulhado, mais uma vez, na antiga
opressão de uma inflação ascendente,
projetando um grande ponto de interrogação
no futuro do país. Mas, visto no médio prazo,
o panorama é outro. A perspectiva é de um
ano produtivo. Estimativas feitas a pedido de VEJA por especialistas
indicam que no primeiro ano do milênio a produção
no país vai crescer, a inflação ficará
dentro do previsto pelo Banco Central e os juros vão
até cair um pouco. Em suma, o país deve melhorar
em relação a 1999. Como sempre, o governo
é o mais otimista. Prevê para o ano 2000 crescimento
de 4% no produto interno bruto, PIB. "É otimismo
demais", diz o diretor da Goldman Sachs, Paulo Leme. As
apostas do mercado são mais contidas. Na média,
ficam pouco acima de 3%, partindo do princípio de
que não haverá surpresas desagradáveis
na cena econômica, dentro e fora do país.
Claudio Rossi
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Mercado:
olho nas
reformas estruturais
e dúvidas
sobre o controle
da inflação
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Não há garantia de que os obstáculos
não apareçam. Nas últimas semanas,
alguns dos fantasmas que poderão assombrar o ano
2000 andaram dando as caras. O câmbio, por exemplo,
insistia em subir, contrariando as expectativas do governo.
Na quarta-feira, o Banco Central foi obrigado a intervir
no mercado para impedir que a cotação do dólar
batesse em 1,94 real. Essa é uma briga que volta
e meia se repete, e há motivos para isso. Teme-se
que o câmbio detone uma subida descontrolada dos preços
da economia. "Se a desvalorização continuar,
não há como evitar o crescimento da inflação",
diz o ex-ministro da Fazenda Mailson da Nóbrega.
O dólar está experimentando esse empuxo em
parte porque o governo não conseguiu dissipar todas
as dúvidas quanto a sua capacidade de pagamento dos
compromissos externos. Também não mostrou
inequivocamente que pode fazer num prazo hábil as
reformas esperadas para diminuir o poder de endividamento
do Estado. "As reformas seriam um garantia contra a volta
da inflação", diz o economista Paulo Guedes,
diretor do Instituto Brasileiro do Mercado de Capitais,
Ibmec. Os índices mensais de inflação
não têm se comportado exatamente como pretendia
o governo. Estão variando entre 0,8% e 1,1%, quando
o previsto era que estacionariam em 0,5% e isso é
gasolina para os especuladores. Por causa do mau comportamento
da inflação, também, o BC deu uma freada
no ritmo de redução dos juros e o presidente
Fernando Henrique Cardoso chegou a fazer um apelo às
empresas para que não aumentassem os preços.
Esses eram os fantasmas nacionais em ação.
No front externo, viu-se o preço do petróleo
subindo novamente e o Federal Reserve, o banco central americano,
aumentando as taxas de juros nos Estados Unidos. São
acontecimentos que têm tudo para ficar na categoria
de incidentes passageiros. Mas são um exemplo do
tipo de formação que, num instante de crise,
pode nublar a economia nacional. "O país está
se preparando para decolar, mas o céu não
é de brigadeiro", diz o consultor Cláudio
Porto, da Macroplan.
As combinações adversas, se ocorrerem ao
mesmo tempo, resultam naquele estado catatônico tristemente
familiar aos brasileiros. É bom torcer para que não
aconteçam. Se a inflação disparar,
o Banco Central, em última instância, será
obrigado a elevar os juros. Isso tornaria o crédito
mais caro, seguraria o consumo, desestimularia os investimentos
das empresas, esfriando o já pouco vigoroso processo
de recuperação. Outra possibilidade, mais
remota, é uma desaceleração abrupta
da economia americana. Isso prejudicaria as exportações
brasileiras e diminuiria o internamento de capitais estrangeiros
no Brasil. O resultado seria o mesmo, esfriamento econômico
no Brasil e mais dificuldades para saldar compromissos em
dólar.
Renato de
Souza
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Raul Junior
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Comércio exterior:
a recuperação dos preços
das commodities e o
reaquecimento do mercado
internacional devem tornar
2000 um bom ano para
as exportações brasileiras
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Bem, basta de mau agouro. Felizmente, para o país,
os indicadores favoráveis no horizonte superam em
muito os adversos. Muitos dos enroscos que seguraram a economia
brasileira em 1999 tendem a se dissolver. As exportações
são o caso mais interessante. O real sofreu neste
ano uma desvalorização da ordem de 50% em
relação ao dólar, depois que o governo
liberou o câmbio em janeiro. Esperava-se que, com
isso, houvesse um impulso fenomenal no comércio exterior.
Tanto assim que o governo chegou a prever que as exportações
superariam as importações em cerca de 11 bilhões
de dólares no ano. O resultado ficará muito
longe disso. O Brasil vai terminar 1999 com um saldo negativo
de cerca de 1 bilhão de dólares. O que houve?
Dois azares combinados. Primeiro, o fato de que muitos compradores
de produtos brasileiros mergulharam na recessão.
As vendas para a Argentina caíram 30%. A recessão
também afetou as compras dos países asiáticos,
entre eles o Japão e a Coréia do Sul. Resultado:
o Brasil tinha produtos com bons preços para vender,
mas faltaram compradores. Em segundo lugar, os preços
das commodities produtos como açúcar, café,
soja, aço, que respondem por quase metade das exportações
nacionais desabaram em média 20%. Ou seja, além
de o país não conseguir vender tudo o que
queria, ainda recebeu menos do que esperava. "Se os preços
se mantivessem iguais aos de 1998, o Brasil teria tido um
saldo positivo de 6 bilhões de dólares", calcula
Lytha Spíndola, secretária de Comércio
Exterior do Ministério do Desenvolvimento.
Para o ano que vem, o quadro vai melhorar muito. Tanto
os países asiáticos como os latino-americanos
estão saindo do buraco, o que deve aquecer as compras
internacionais. Um dos sinais desse movimento são
os preços das commodities, que começam a reagir.
As cotações do açúcar e do café
já estão subindo até 6%. Há
sinais de aumento dos preços internacionais também
nos mercados de soja, cacau, algodão e aço.
São boas notícias para o Brasil. Se esse panorama
se firmar, as exportações podem dar um bom
salto no próximo ano. "Elas podem aumentar até
11%, dando sustentação ao crescimento do país",
diz Eustáquio Reis, diretor de estudos macroeconômicos
do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, Ipea.
Régis Filho
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Produção:
crescimento
no próximo
ano ficará abaixo dos 4% previstos
pelo governo
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A retomada do crescimento, venha com 3% ou 4% de aumento
no PIB, não produzirá uma alteração
imediata na fisionomia do Brasil. O desemprego vai diminuir,
mas deverá continuar entre os 6% e 7,5%. Nessa área,
os trabalhadores só sentem melhora expressiva depois
de alguns anos seguidos de crescimento da economia. Os juros
devem cair, mas ainda assim permanecerão altos na
ponta do varejo, aquela que mais cutuca o bolso dos brasileiros.
Esse horizonte de feijão com arroz fica mais claro
ainda quando se estende o olhar para os próximos
três anos. Ao final do mandato do presidente Fernando
Henrique, em dezembro de 2002, segundo os números
do Ipea, o Brasil terá um PIB 9% maior que o atual.
O índice de desemprego será quase o mesmo,
o dólar valerá 2,10 reais e os investimentos
na economia continuarão representando cerca de 20%
do PIB quando o mínimo para alavancar a máquina
econômica morro acima no crescimento é 24%.
Moral da história: ao ouvir falar em volta do crescimento,
não pense em algo extraordinário se desenrolando
diante de seus olhos nas ruas e nos distritos industriais.
Situações como a que o país viveu durante
o milagre econômico dos anos 70, com taxas de crescimento
de 10% ao ano e uma festa de consumo, dificilmente vão
repetir-se. "O Brasil já tem uma economia muito grande.
Não dá mais para pensar em crescer naquele
ritmo", diz Maurizio Mauro, presidente da Booz-Allen &
Hamilton do Brasil.
Antonio Milena
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| Desemprego:
mesmo com crescimento econômico, os índices
se manterão muito próximos dos atuais
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Ajustar as expectativas em relação ao futuro
significa entender as mudanças ocorridas nos últimos
anos no país. O Brasil do milagre econômico
do regime militar tinha uma população que
aumentava quase 3% ao ano. Só para abrir vagas para
a gente nova que chegava ao mercado de trabalho, a economia
precisava avançar 7% ao ano. Hoje o índice
de fertilidade do país é bem menor 1,3%
e isso reduz a pressa. Em condições normais,
com a metade daquele crescimento seria possível acomodar
o aumento da mão-de-obra. O problema no momento é
que os últimos anos de retranca na economia geraram
um estoque de desempregados que custará a ser absorvido
nessa velocidade. "No médio prazo, o Brasil ficará
patinando no campo do trabalho, mas as mudanças poderão
começar a ser sentidas dentro de cinco anos", diz
o economista José Pastore.
Esse novo perfil demográfico aponta para outras
mudanças profundas no futuro, que o país terá
de enfrentar se quiser continuar crescendo. A população
tenderá a ficar mais velha e aumentará a proporção
de aposentados em relação aos trabalhadores
da ativa. É uma bomba-relógio numa área
que já é complicadíssima a da Previdência
Social , pois é da contribuição dos
empregados que deveriam sair os recursos para sustentar
as pensões e aposentadorias. Essa conta já
não fecha hoje e o governo tem de bancar a diferença,
com recursos que de outra forma poderiam estar sendo investidos
na economia. Para se ter uma idéia do tamanho desse
rombo, no ano 2000 os gastos do governo federal para cobrir
o déficit da Previdência da União e
da conta dos inativos do setor público serão
de 27 bilhões de reais. É o equivalente ao
dobro do que se investirá em saúde no país
e cinco vezes o que se gastará em educação.
"É preciso parar de olhar para a ponta do nariz
e planejar o crescimento de longo prazo, se não quisermos
nos contentar com migalhas", diz Amaury de Souza, da Techné,
consultoria especializada no estudo de cenários macroeconômicos.
Isso significa olhar com atenção os números
da economia e, mais do que isso, atentar para a qualidade
deles. Em 1999, por exemplo, foram criados 1,3 milhão
de empregos. No ano 2000 serão mais 1,5 milhão.
Não são números desprezíveis.
Mas, vistos de perto, mostram que não passam de uma
meia-sola no problema do desemprego. Atualmente, segundo
José Pastore, de cada 100 postos de trabalho que
se criam, oitenta são plantados no mercado informal.
É um disparate que se produz por causa da inflexibilidade
da legislação trabalhista brasileira. Como
custa muito caro manter um trabalhador com carteira assinada,
por causa do excesso de encargos, surge uma categoria de
semitrabalhadores que não gozam de direitos trabalhistas.
Deixa-se para o futuro um problema tão grande quanto
o do desemprego, porque os informais não pagam as
contribuições previdenciárias que garantiriam
sua aposentadoria no futuro.
Durante muito tempo, sob pressão das crises econômicas,
o país se acostumou a acompanhar indicadores como
câmbio, inflação, juros e crescimento
como quem olha os aparelhos de um doente na UTI. Olhando
os problemas que estão colocados, fica claro que
não convém voltar as costas para esses dados.
Mas com a relativa estabilidade que a economia alcançou
criam-se condições para atentar mais para
a qualidade dos números que o país gera. As
grandes mudanças, que podem alterar a posição
do país no tabuleiro mundial, exigem tempo para produzir
resultados. Hoje, a média de escolaridade dos trabalhadores
brasileiros é de quatro anos. É muito pouco
num mundo onde os competidores têm mais do que o dobro.
"Não há solução rápida
para o problema da educação", diz o consultor
Michal Gartenkraut, da Rosenberg & Associados. Problemas
desse tipo exigem dinheiro e tempo para ser equacionados.
Olhando para o futuro, se vê que o Brasil, nesse quesito,
vai andar muito lentamente se não arrumar as prateleiras
das contas públicas. A janela para que isso possa
ser feito está aberta. Mas pode se fechar logo. "Chegaremos
ao final do ano 2000 com o país respirando, mas a
partir daí faltarão apenas dois anos para
as próximas eleições presidenciais",
raciocina o economista Odair Abate, do Lloyds Bank. "As
reformas terão de ser feitas rapidamente, porque
as dificuldades políticas tendem a aumentar."
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