Edição 1 625 - 24/11/1999

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Devagar, mas vai

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O que é o PIB

O país deverá retomar o
crescimento no ano 2000, mas
não pense que haja milagres econômicos no horizonte

César Nogueira


Antonio Milena
Consumo: pode crescer com moderação se não provocar pressão sobre os preços


Para um país eternamente descrito como do futuro, a chegada do ano 2000 deveria ter um significado mais profundo. A data mágica vai chegar e, mais uma vez, os brasileiros estarão esperando dias melhores. O Brasil atravessou a última semana mergulhado, mais uma vez, na antiga opressão de uma inflação ascendente, projetando um grande ponto de interrogação no futuro do país. Mas, visto no médio prazo, o panorama é outro. A perspectiva é de um ano produtivo. Estimativas feitas a pedido de VEJA por especialistas indicam que no primeiro ano do milênio a produção no país vai crescer, a inflação ficará dentro do previsto pelo Banco Central e os juros vão até cair um pouco. Em suma, o país deve melhorar em relação a 1999. Como sempre, o governo é o mais otimista. Prevê para o ano 2000 crescimento de 4% no produto interno bruto, PIB. "É otimismo demais", diz o diretor da Goldman Sachs, Paulo Leme. As apostas do mercado são mais contidas. Na média, ficam pouco acima de 3%, partindo do princípio de que não haverá surpresas desagradáveis na cena econômica, dentro e fora do país.


Claudio Rossi
Mercado: olho nas reformas estruturais e dúvidas sobre o controle da inflação


Não há garantia de que os obstáculos não apareçam. Nas últimas semanas, alguns dos fantasmas que poderão assombrar o ano 2000 andaram dando as caras. O câmbio, por exemplo, insistia em subir, contrariando as expectativas do governo. Na quarta-feira, o Banco Central foi obrigado a intervir no mercado para impedir que a cotação do dólar batesse em 1,94 real. Essa é uma briga que volta e meia se repete, e há motivos para isso. Teme-se que o câmbio detone uma subida descontrolada dos preços da economia. "Se a desvalorização continuar, não há como evitar o crescimento da inflação", diz o ex-ministro da Fazenda Mailson da Nóbrega.

O dólar está experimentando esse empuxo em parte porque o governo não conseguiu dissipar todas as dúvidas quanto a sua capacidade de pagamento dos compromissos externos. Também não mostrou inequivocamente que pode fazer num prazo hábil as reformas esperadas para diminuir o poder de endividamento do Estado. "As reformas seriam um garantia contra a volta da inflação", diz o economista Paulo Guedes, diretor do Instituto Brasileiro do Mercado de Capitais, Ibmec. Os índices mensais de inflação não têm se comportado exatamente como pretendia o governo. Estão variando entre 0,8% e 1,1%, quando o previsto era que estacionariam em 0,5% – e isso é gasolina para os especuladores. Por causa do mau comportamento da inflação, também, o BC deu uma freada no ritmo de redução dos juros e o presidente Fernando Henrique Cardoso chegou a fazer um apelo às empresas para que não aumentassem os preços.

Esses eram os fantasmas nacionais em ação. No front externo, viu-se o preço do petróleo subindo novamente e o Federal Reserve, o banco central americano, aumentando as taxas de juros nos Estados Unidos. São acontecimentos que têm tudo para ficar na categoria de incidentes passageiros. Mas são um exemplo do tipo de formação que, num instante de crise, pode nublar a economia nacional. "O país está se preparando para decolar, mas o céu não é de brigadeiro", diz o consultor Cláudio Porto, da Macroplan.

As combinações adversas, se ocorrerem ao mesmo tempo, resultam naquele estado catatônico tristemente familiar aos brasileiros. É bom torcer para que não aconteçam. Se a inflação disparar, o Banco Central, em última instância, será obrigado a elevar os juros. Isso tornaria o crédito mais caro, seguraria o consumo, desestimularia os investimentos das empresas, esfriando o já pouco vigoroso processo de recuperação. Outra possibilidade, mais remota, é uma desaceleração abrupta da economia americana. Isso prejudicaria as exportações brasileiras e diminuiria o internamento de capitais estrangeiros no Brasil. O resultado seria o mesmo, esfriamento econômico no Brasil e mais dificuldades para saldar compromissos em dólar.


Renato de Souza
Raul Junior
Comércio exterior:
a recuperação dos preços
das commodities
e o
reaquecimento do mercado
internacional devem tornar
2000 um bom ano para
as exportações brasileiras
 


Bem, basta de mau agouro. Felizmente, para o país, os indicadores favoráveis no horizonte superam em muito os adversos. Muitos dos enroscos que seguraram a economia brasileira em 1999 tendem a se dissolver. As exportações são o caso mais interessante. O real sofreu neste ano uma desvalorização da ordem de 50% em relação ao dólar, depois que o governo liberou o câmbio em janeiro. Esperava-se que, com isso, houvesse um impulso fenomenal no comércio exterior. Tanto assim que o governo chegou a prever que as exportações superariam as importações em cerca de 11 bilhões de dólares no ano. O resultado ficará muito longe disso. O Brasil vai terminar 1999 com um saldo negativo de cerca de 1 bilhão de dólares. O que houve? Dois azares combinados. Primeiro, o fato de que muitos compradores de produtos brasileiros mergulharam na recessão. As vendas para a Argentina caíram 30%. A recessão também afetou as compras dos países asiáticos, entre eles o Japão e a Coréia do Sul. Resultado: o Brasil tinha produtos com bons preços para vender, mas faltaram compradores. Em segundo lugar, os preços das commodities – produtos como açúcar, café, soja, aço, que respondem por quase metade das exportações nacionais – desabaram em média 20%. Ou seja, além de o país não conseguir vender tudo o que queria, ainda recebeu menos do que esperava. "Se os preços se mantivessem iguais aos de 1998, o Brasil teria tido um saldo positivo de 6 bilhões de dólares", calcula Lytha Spíndola, secretária de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento.

Para o ano que vem, o quadro vai melhorar muito. Tanto os países asiáticos como os latino-americanos estão saindo do buraco, o que deve aquecer as compras internacionais. Um dos sinais desse movimento são os preços das commodities, que começam a reagir. As cotações do açúcar e do café já estão subindo até 6%. Há sinais de aumento dos preços internacionais também nos mercados de soja, cacau, algodão e aço. São boas notícias para o Brasil. Se esse panorama se firmar, as exportações podem dar um bom salto no próximo ano. "Elas podem aumentar até 11%, dando sustentação ao crescimento do país", diz Eustáquio Reis, diretor de estudos macroeconômicos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, Ipea.


Régis Filho
Produção: crescimento no próximo ano ficará abaixo dos 4% previstos pelo governo


A retomada do crescimento, venha com 3% ou 4% de aumento no PIB, não produzirá uma alteração imediata na fisionomia do Brasil. O desemprego vai diminuir, mas deverá continuar entre os 6% e 7,5%. Nessa área, os trabalhadores só sentem melhora expressiva depois de alguns anos seguidos de crescimento da economia. Os juros devem cair, mas ainda assim permanecerão altos na ponta do varejo, aquela que mais cutuca o bolso dos brasileiros. Esse horizonte de feijão com arroz fica mais claro ainda quando se estende o olhar para os próximos três anos. Ao final do mandato do presidente Fernando Henrique, em dezembro de 2002, segundo os números do Ipea, o Brasil terá um PIB 9% maior que o atual. O índice de desemprego será quase o mesmo, o dólar valerá 2,10 reais e os investimentos na economia continuarão representando cerca de 20% do PIB – quando o mínimo para alavancar a máquina econômica morro acima no crescimento é 24%. Moral da história: ao ouvir falar em volta do crescimento, não pense em algo extraordinário se desenrolando diante de seus olhos nas ruas e nos distritos industriais. Situações como a que o país viveu durante o milagre econômico dos anos 70, com taxas de crescimento de 10% ao ano e uma festa de consumo, dificilmente vão repetir-se. "O Brasil já tem uma economia muito grande. Não dá mais para pensar em crescer naquele ritmo", diz Maurizio Mauro, presidente da Booz-Allen & Hamilton do Brasil.


Antonio Milena
Desemprego: mesmo com crescimento econômico, os índices se manterão muito próximos dos atuais


Ajustar as expectativas em relação ao futuro significa entender as mudanças ocorridas nos últimos anos no país. O Brasil do milagre econômico do regime militar tinha uma população que aumentava quase 3% ao ano. Só para abrir vagas para a gente nova que chegava ao mercado de trabalho, a economia precisava avançar 7% ao ano. Hoje o índice de fertilidade do país é bem menor – 1,3% – e isso reduz a pressa. Em condições normais, com a metade daquele crescimento seria possível acomodar o aumento da mão-de-obra. O problema no momento é que os últimos anos de retranca na economia geraram um estoque de desempregados que custará a ser absorvido nessa velocidade. "No médio prazo, o Brasil ficará patinando no campo do trabalho, mas as mudanças poderão começar a ser sentidas dentro de cinco anos", diz o economista José Pastore.

Esse novo perfil demográfico aponta para outras mudanças profundas no futuro, que o país terá de enfrentar se quiser continuar crescendo. A população tenderá a ficar mais velha e aumentará a proporção de aposentados em relação aos trabalhadores da ativa. É uma bomba-relógio numa área que já é complicadíssima – a da Previdência Social –, pois é da contribuição dos empregados que deveriam sair os recursos para sustentar as pensões e aposentadorias. Essa conta já não fecha hoje e o governo tem de bancar a diferença, com recursos que de outra forma poderiam estar sendo investidos na economia. Para se ter uma idéia do tamanho desse rombo, no ano 2000 os gastos do governo federal para cobrir o déficit da Previdência da União e da conta dos inativos do setor público serão de 27 bilhões de reais. É o equivalente ao dobro do que se investirá em saúde no país e cinco vezes o que se gastará em educação.

"É preciso parar de olhar para a ponta do nariz e planejar o crescimento de longo prazo, se não quisermos nos contentar com migalhas", diz Amaury de Souza, da Techné, consultoria especializada no estudo de cenários macroeconômicos. Isso significa olhar com atenção os números da economia e, mais do que isso, atentar para a qualidade deles. Em 1999, por exemplo, foram criados 1,3 milhão de empregos. No ano 2000 serão mais 1,5 milhão. Não são números desprezíveis. Mas, vistos de perto, mostram que não passam de uma meia-sola no problema do desemprego. Atualmente, segundo José Pastore, de cada 100 postos de trabalho que se criam, oitenta são plantados no mercado informal. É um disparate que se produz por causa da inflexibilidade da legislação trabalhista brasileira. Como custa muito caro manter um trabalhador com carteira assinada, por causa do excesso de encargos, surge uma categoria de semitrabalhadores que não gozam de direitos trabalhistas. Deixa-se para o futuro um problema tão grande quanto o do desemprego, porque os informais não pagam as contribuições previdenciárias que garantiriam sua aposentadoria no futuro.

Durante muito tempo, sob pressão das crises econômicas, o país se acostumou a acompanhar indicadores como câmbio, inflação, juros e crescimento como quem olha os aparelhos de um doente na UTI. Olhando os problemas que estão colocados, fica claro que não convém voltar as costas para esses dados. Mas com a relativa estabilidade que a economia alcançou criam-se condições para atentar mais para a qualidade dos números que o país gera. As grandes mudanças, que podem alterar a posição do país no tabuleiro mundial, exigem tempo para produzir resultados. Hoje, a média de escolaridade dos trabalhadores brasileiros é de quatro anos. É muito pouco num mundo onde os competidores têm mais do que o dobro. "Não há solução rápida para o problema da educação", diz o consultor Michal Gartenkraut, da Rosenberg & Associados. Problemas desse tipo exigem dinheiro e tempo para ser equacionados. Olhando para o futuro, se vê que o Brasil, nesse quesito, vai andar muito lentamente se não arrumar as prateleiras das contas públicas. A janela para que isso possa ser feito está aberta. Mas pode se fechar logo. "Chegaremos ao final do ano 2000 com o país respirando, mas a partir daí faltarão apenas dois anos para as próximas eleições presidenciais", raciocina o economista Odair Abate, do Lloyds Bank. "As reformas terão de ser feitas rapidamente, porque as dificuldades políticas tendem a aumentar."

 

 

Com reportagem de Eliana Simonetti, Franco Iacomini e Ronaldo França