Edição 1 625 - 24/11/1999

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Sucesso no cinema

O filme dos Pokémons estréia e
arrasa nas telas dos Estados Unidos.
Será que isso é bom para as crianças?

Aida Veiga

Pikachu Projects
Pokémon, o filme: estréia no Brasil
antecipada
para janeiro

"Vou pegar todos vocês", é o lema de um dos bonequinhos Pokémons, última febre de consumo entre as crianças. Dito e feito. Com um ano de vida nos Estados Unidos e pouco menos no Brasil, a turma do Pokémon, a invenção japonesa que começou como videogame, passou para desenho animado de televisão e hoje também é boneco, chaveiro e filme, pegou mesmo todo mundo. No último dia 10, plena quarta-feira, quando
Pokémon, The First Movie (filme lançado no Japão há mais de um ano) estreou nos Estados Unidos, faturou 10 milhões de dólares. Ao fim da primeira semana, os cinemas haviam arrecadado 56 milhões de dólares com 20 milhões de espectadores, a maior bilheteria de um filme infantil e a quinta de toda a história do cinema em sete dias de exibição.

 

Quando novidades explodem no mundo infantil com essa força de tufão que arrasta tudo, os pais começam a ser assediados pelos filhos para ver o desenho na TV, comprar figurinhas e enfeitar o quarto inteiro com os bonecos que habitam sua imaginação. Torna-se tão forte a fixação infantil, como está acontecendo agora, que os adultos logo retornam à velha dúvida a respeito dos eventuais malefícios daquilo que a indústria do entretenimento mostra a suas crianças. Esse temor, em boa parte, é provocado pela exibição do desenho na televisão, veículo que é objeto de desconfiança por parte de pais e professores em função de todo o discurso vigente contra a violência na TV e o excesso de tempo dispensado pelas crianças diante da programação infantil das emissoras.

Afinal, a fixação pelos Pokémons faz mal às crianças? Na capa que dedicou ao assunto na semana passada, a revista Time coloca a pergunta que tem angustiado os pais americanos, preocupadíssimos, nestes tempos de alta violência infantil e adolescente, com o que os filhos vêem na TV. No caso de Pokémon, a questão tem mais razão de ser porque, em 1997, um episódio do desenho animado efetivamente fez com que 600 meninos e meninas baixassem em hospitais, no Japão, com convulsões e falta de ar depois de assistir a uma cena com grande profusão de luzes e efeitos especiais. O desenho foi remodelado, com menos efeitos e mais história, e a obsessão com os monstrinhos cresce sem parar, apesar – ou por causa – de suas características especiais. No enredo de Pokémon não há exatamente mocinhos e bandidos, só monstros mais ou menos adestrados e uma rivalidade entre treinadores. Ao contrário de desenhos japoneses que em outras épocas também viraram a cabeça da criançada (veja quadro ao lado), ninguém está defendendo a terra de invasores, como os barulhentos Power Rangers, nem combatendo o crime, como as engraçadas Tartarugas Ninja, ou brigando sem parar, como os violentos Cavaleiros do Zodíaco. Além disso, os Pokémons não morrem, só desmaiam, para alívio dos pais que tiveram de consolar pimpolhos nas seguidas mortes (e ressuscitamentos) do Tamagochi, o antecessor do Pokémon no departamento de bonequinhos-fenômeno.
 

Produtos à mão Os especialistas ouvidos pela Time acham que o desenho não traz maiores prejuízos às crianças e até ressaltam que, aos 6 ou 7 anos, elas têm um desejo natural de controle da situação que o jogo supre, sem necessidade de interferência dos pais. O problema maior, segundo eles, está mesmo no estímulo excessivo ao consumo. "Trocar figurinhas favorece a socialização, mas também pode levar a um comportamento obsessivo", analisa Maressa Orzack, fundadora do Serviço de Viciados em Computador do McLean Hospital. Isabel Kahn Marin, professora de psicologia da Pontifícia Universidade Católica, PUC, de São Paulo, aponta outro risco: "O desenho reforça uma idéia de onipotência, já que o garoto quer e pode domar todos os bichinhos e ser o maior treinador do mundo". O tipo de comportamento que às vezes resulta dessa onipotência virtual incomoda até outras crianças. "Tem gente achando que vai ser o maior do mundo só por causa do jogo", comenta o estudante paulista André Vinícius Menegasso, 14 anos, aluno da 8ª série, que gosta de ver o desenho e jogar com os irmãos Felipe, 8, e Igor, 3. "É demais." Mesmo levando muito a sério a brincadeira, ou comprando sem parar, o comportamento das crianças pokemaníacas é normalíssimo para a idade. Cabe aos pais controlar exageros para evitar futura dor de cabeça – e rombos na conta bancária.

 

Fotos Ricardo Benichio
André, Felipe e Igor: o jogo é bom, mas tem quem exagere

A febre dos Pokémons não é mais intensa nem mais contagiosa do que epidemias semelhantes no passado. A diferença está, isso sim, no marketing da turminha. "Quando um desenho ou um bonequinho virava mania, a indústria demorava um tempo para produzir tudo o que poderia vender relacionado a ele", explica Luciana Kikuchi, gerente de marketing no Brasil da Warner Bros., a distribuidora do filme. "Desta vez, como tudo já havia sido lançado no Japão, os produtos estavam à mão e foram chegando na hora certa". Ao desembarcarem no Ocidente, tanto os 151 Pokémons (pocket monsters, ou monstros de bolso em inglês de japonês) quanto a pilha de produtos que inspiraram já existiam há dois anos no Japão, onde foram testados, burilados e aprontados para o consumo. Só faltava caírem no gosto da criançada deste lado do mundo, e caíram. No Brasil, por exemplo, o lançamento do filme estava previsto para abril do ano 2000. Mas alegrem-se, pokemaníacos: tamanha mostrou ser a devoção dos pequenos brasileiros ao brinquedo japonês que a estréia foi antecipada para a primeira semana de janeiro. Além de cativar as crianças (e muitos adultos também), Pokémon vem sendo um negocião para as empresas que exploram os personagens. A Warner investiu 10 milhões de dólares, entre pagamentos de direitos autorais, dublagem e produção de uma trilha sonora para o filme nos Estados Unidos, e recuperou tudo com lucro no primeiro dia de exibição. A marca Pokémon deverá faturar 6 bilhões de dólares em todo o mundo (50 milhões no Brasil), só neste ano. Boa parte vai para a Nintendo, detentora de seus direitos.
 

Tudo em faltaA popularidade dos monstrinhos Pokémons não pára de crescer desde 1996, quando o jogo da Nintendo foi lançado no Japão exclusivamente para Game Boy, o então ultrapassado videogame de mão que os monstrinhos livraram da aposentadoria. O jogo se passa num lugar habitado por Pokémons e humanos. Cada um dos 151 monstrinhos da série tem nome, vive em estado "selvagem" e deve ser adestrado por um treinador. Ash, o treinador principal, anda sempre com Pikachu, monstrinho amarelo de bochechas rosadas, capaz de emitir raios que "nocauteiam" seres iguais a ele. Sim, porque Pokémon que é Pokémon não mata nem fere – só tira o rival de circulação. Quando consegue tal proeza, cada um por meio de sua habilidade própria (música, jato de água, raio), diz-se que ele "evoluiu", ou seja, ficou mais experiente e poderoso. Ash e seus amigos querem domar e adestrar todos os Pokémons que encontram pela frente. O mote da brincadeira é ser "o maior treinador de Pokémons do mundo".

Camila e Caio: monstrinhos na decoração e na lembrança do aniversário

Jogar Pokémon significa ter o Game Boy – de preferência, daqueles feitos especialmente para aficionados. Mas fã de verdade não fica por aí. No Brasil, ele assiste todo dia ao desenho animado, no programa Eliana & Alegria da TV Record, de manhã, e no Cartoon Network, à tarde e à noite. Quer que a mochila, o boné, a agenda e o jogo de cartas sejam decorados com Pokémons, empilhando no quarto produtos importados ou pirateados, já que nada disso ainda é feito aqui. Monta o álbum de figurinhas, compra as revistinhas e coleciona os bonecos de pelúcia e chaveirinhos – todos feitos, sim, no Brasil, mas em falta devido à enorme procura (veja quadro acima). O bolso dos pais padece."Eles não param de pedir", diz a bancária paulistana Sangia Alves, mãe de Camila, 9 anos, e Caio, 4. A pokemania é tão forte na casa dos Alves que, mesmo diante da escassez de material, ela decorou a festa de aniversário dos filhos só com os monstrinhos. Para satisfação geral dos convidados, deu chaveirinhos Pokémon de lembrança.

Saiba mais

Pokemon- site oficial
Pokemon no Cartoon Network (em português)