|
|
Israel
Dedos leves
Pequenos deslizes podem
levar Netanyahu à cadeia
Para os brasileiros,
habituados a assistir às relações incestuosas entre os negócios
públicos e os privados, ou até entre o crime organizado e
a política, o escândalo do momento em Israel pode parecer
coisa de amador. Mesmo assim, o ex-primeiro-ministro Benjamin
Netanyahu está ameaçado de passar uma temporada no xadrez
por causa de umas tantas quinquilharias que levou para casa
depois de deixar o poder, em julho. Foram presentes recebidos
por ele e pela mulher, Sara: pequenos candelabros de prata,
um abridor de cartas de ouro, algumas pinturas e tapetes persas.
A apropriação indevida valeu ao casal a humilhação de ter
a casa vasculhada pela polícia, numa operação registrada por
câmaras de televisão. No último dia 12, Bibi, como é conhecido,
depôs pela quinta vez, por mais de onze horas, tentando explicar
o que aquelas caixas estavam fazendo em seu porão.
Não é de hoje que
Bibi está na mira dos homens da lei. Seu governo, além de
desastroso em política externa e marcado pela insistente
recusa em cumprir os acordos de paz previamente assinados
com a Autoridade Nacional Palestina, também foi o que mais
colecionou suspeitas nos arquivos policiais. Ele esteve
perto de perder o mandato, em 1997, em decorrência da nomeação
de um advogado obscuro para a procuradoria-geral. O problema
é que parecia ser uma manobra para proteger o religioso
Aryeh Deri, acusado de corrupção. Ele era o líder do partido
Shas, pequena mas importante peça na coalizão que sustentava
o governo. O procurador não durou mais que dois dias. No
ano passado, Deri acabou condenado a quatro anos de prisão
por ter aceitado propinas quando ocupou cargos em governos
anteriores, entre eles o de ministro do Interior. Desta
vez também a quantia embolsada parece ninharia para padrões
latino-americanos: 155.000 dólares. Ele apresentou recurso à Justiça
e continua livre, mas renunciou à carreira pública.
Dos dois lados
O juiz
que proferiu a sentença contra Deri ressaltou o ineditismo
do caso: "Ele foi o único ministro a aceitar subornos
na história de Israel". É bem mais provável que tenha
sido o primeiro a ser pego com a mão na massa. Políticos
prontos a cair em tentação são uma praga capaz de vicejar
em qualquer continente, mas pelo menos em Israel a Justiça
mantém a tradição de eficácia e independência. Está aí talvez
a explicação para a relativa modéstia dos gatunos da vida
pública, que não se atrevem a grandes roubalheiras. A vigilância
não faz distinção de cor partidária. O governo de Bibi,
do bloco direitista Likud, empilhou suspeitas, mas, antes
dele, o trabalhista Yitzhak Rabin já havia sido obrigado
a deixar o governo por causa de uma escorregadela da mulher,
Leah. Em 1977, a Justiça descobriu que o casal mantinha
nos Estados Unidos uma conta bancária aberta quando Rabin
era embaixador no país. Pela lei, a conta deveria ter sido
fechada na volta para Israel. O saldo era de pouco mais
de 21.000 dólares, ou menos de 60.000 em valores de hoje. Rabin só voltaria ao
poder em 1992.
|