Edição 1 625 - 24/11/1999

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Israel

Dedos leves

Pequenos deslizes podem
levar Netanyahu à cadeia

Para os brasileiros, habituados a assistir às relações incestuosas entre os negócios públicos e os privados, ou até entre o crime organizado e a política, o escândalo do momento em Israel pode parecer coisa de amador. Mesmo assim, o ex-primeiro-ministro Benjamin Netanyahu está ameaçado de passar uma temporada no xadrez por causa de umas tantas quinquilharias que levou para casa depois de deixar o poder, em julho. Foram presentes recebidos por ele e pela mulher, Sara: pequenos candelabros de prata, um abridor de cartas de ouro, algumas pinturas e tapetes persas. A apropriação indevida valeu ao casal a humilhação de ter a casa vasculhada pela polícia, numa operação registrada por câmaras de televisão. No último dia 12, Bibi, como é conhecido, depôs pela quinta vez, por mais de onze horas, tentando explicar o que aquelas caixas estavam fazendo em seu porão.

Não é de hoje que Bibi está na mira dos homens da lei. Seu governo, além de desastroso em política externa e marcado pela insistente recusa em cumprir os acordos de paz previamente assinados com a Autoridade Nacional Palestina, também foi o que mais colecionou suspeitas nos arquivos policiais. Ele esteve perto de perder o mandato, em 1997, em decorrência da nomeação de um advogado obscuro para a procuradoria-geral. O problema é que parecia ser uma manobra para proteger o religioso Aryeh Deri, acusado de corrupção. Ele era o líder do partido Shas, pequena mas importante peça na coalizão que sustentava o governo. O procurador não durou mais que dois dias. No ano passado, Deri acabou condenado a quatro anos de prisão por ter aceitado propinas quando ocupou cargos em governos anteriores, entre eles o de ministro do Interior. Desta vez também a quantia embolsada parece ninharia para padrões latino-americanos: 155.000 dólares. Ele apresentou recurso à Justiça e continua livre, mas renunciou à carreira pública.

Dos dois lados O juiz que proferiu a sentença contra Deri ressaltou o ineditismo do caso: "Ele foi o único ministro a aceitar subornos na história de Israel". É bem mais provável que tenha sido o primeiro a ser pego com a mão na massa. Políticos prontos a cair em tentação são uma praga capaz de vicejar em qualquer continente, mas pelo menos em Israel a Justiça mantém a tradição de eficácia e independência. Está aí talvez a explicação para a relativa modéstia dos gatunos da vida pública, que não se atrevem a grandes roubalheiras. A vigilância não faz distinção de cor partidária. O governo de Bibi, do bloco direitista Likud, empilhou suspeitas, mas, antes dele, o trabalhista Yitzhak Rabin já havia sido obrigado a deixar o governo por causa de uma escorregadela da mulher, Leah. Em 1977, a Justiça descobriu que o casal mantinha nos Estados Unidos uma conta bancária aberta quando Rabin era embaixador no país. Pela lei, a conta deveria ter sido fechada na volta para Israel. O saldo era de pouco mais de 21.000 dólares, ou menos de 60.000 em valores de hoje. Rabin só voltaria ao poder em 1992.