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De portas
abertas para
o mundo
China
aceita as regras do jogo,
fecha
acordo com os Estados Unidos
e
mergulha no comércio global
Rogério
Simões
Até
as feições de Charlene Barshefsky, a chefe
da área de comércio do governo americano
conhecida pela dureza, se distenderam na última
segunda-feira. Depois de treze anos de negociações,
foram acertados os ponteiros para a esperada abertura
da economia chinesa ao mundo. Com direito a um brinde
com os burocratas e a um encontro formal com o presidente
Jiang Zemin, em Pequim, Charlene celebrou um acordo histórico
que praticamente introduz o gigante asiático na
Organização Mundial do Comércio,
OMC. Isso significa que a China aceita arriar a bandeira
da pirataria e escancarar de vez as portas de sua economia
à globalização. Depois disso, o comércio
internacional nunca mais será o mesmo, com reflexos
na vida de todo mundo, inclusive na dos brasileiros. Os
chineses, que totalizam 1,3 bilhão, ou um quinto
da população mundial, deverão ser
os primeiros a sentir o impacto. Se tudo caminhar de acordo
com as melhores expectativas dos economistas, em breve
a China terá serviços telefônicos
mais eficientes, meios de transporte mais rápidos,
bancos mais confiáveis e alimentos mais baratos.
Ninguém põe em dúvida que o perfil
do país, majoritariamente agrícola e, na
média, paupérrimo, com renda per capita
de 773 dólares por ano um sexto da brasileira
, pode ser revirado de cabeça para baixo.
O único imponderável é se tudo isso
pode ocorrer sem levar de roldão a ditadura comunista
que dá as cartas em Pequim.
O
efeito do acordo para os demais países será
sentido de modo mais lento. Os produtos chineses baratos,
que já inundam as lojas do planeta, ampliarão
sua presença em certos setores, como tecidos e brinquedos.
Mas, sob pressão da concorrência interna, a qualidade
dessas mercadorias deverá melhorar. A grande esperança
por trás das previsões é que empresários
e governos estrangeiros poderão passar a negociar com
seus homólogos chineses sob as regras do comércio
internacional, mais previsíveis do que os humores oscilantes
do todo-poderoso Partido Comunista. A importância do
acordo com os Estados Unidos é comparável à
decisão de Deng Xiaoping, em 1978, de reintroduzir
a propriedade privada na sociedade chinesa. A OMC, um clube
formado por 135 países, exerce o papel de árbitro
nas relações comerciais entre as nações.
Quem quiser tornar-se sócio tem de seguir a cartilha
da globalização. É o que a China se dispôs
a fazer. O país não seria aceito na OMC com
suas exorbitantes taxas de importação ou suas
restrições à entrada do capital estrangeiro.
Aí vieram as longas negociações com os
americanos, que arrancaram um acordo melhor que a encomenda,
conseguindo tudo o que queriam.
A China comprometeu-se
a reduzir a média de suas tarifas sobre os importados
de 22,1% para 17%. A medida foi comemorada pelos americanos.
Milho, trigo, algodão e soja cultivados nos Estados
Unidos chegarão ao mercado chinês mais baratos.
Para os agricultores chineses, claro, não é
boa notícia. Por pouca competitividade, deve haver
uma quebradeira geral, e já se estima que 10 milhões
de camponeses poderão ficar desempregados. Nas telecomunicações,
grupos estrangeiros estarão autorizados a adquirir
metade do capital das empresas. As tarifas de importação
de veículos, que hoje atingem até 100%, cairão
para 25% em 2006. Isso fará dos carrões da
Ford, da DaimlerChrysler e da Volkswagen os novos sonhos
de consumo da elite empresarial chinesa. As mudanças
afetam também a internet, uma área delicada
não só por razões econômicas.
Apavorados com a livre circulação de informações,
os próceres do PC resistiram até o último
momento em abrir a rede a provedores estrangeiros.
Comichão
empresarial A
entrada da China na OMC deverá ser o assunto dominante
da reunião de cúpula de seus países membros,
a partir do dia 30 nos Estados Unidos. Para que a filiação
seja aprovada, o acordo deverá passar pelo Congresso
americano e pela apreciação de outros associados
à OMC. Não se prevê grande resistência
em nenhuma das instâncias, embora a briga no Legislativo
dos Estados Unidos vá ocorrer em momento complicado
meados do ano que vem, auge da campanha presidencial.
Devem entrar em discussão os argumentos contra o favorecimento
comercial a um país que desconhece a noção
de direitos humanos. Mais cedo ou mais tarde, porém,
o acordo chegará à aprovação,
seja por pragmatismo econômico, seja porque se aposta
que atrair a China às regras do comércio internacional
pode ser o primeiro passo para a aceitação de
outros princípios universais, como a democracia e a
liberdade de opinião. Do lado chinês, a inevitabilidade
de conviver com as regras consensuais também falou
mais alto. Sem outra opção, o primeiro-ministro
reformista Zhu Rongji encarou a linha dura para tentar acabar
com a ineficiência da indústria e do sistema
financeiro. A nova ordem poderá levar a China a triplicar,
até 2020, suas importações e exportações
(veja
quadro).
Nessa data, prevê o Banco Mundial, o país será
o segundo maior comerciante do mundo, atrás apenas
dos Estados Unidos.
E
o Brasil, como fica? "Dependerá do próprio Brasil",
responde o economista Michael Hartnett, responsável
pela área internacional do banco Merrill Lynch, em
Nova York. "Se o país continuar se abrindo, será
favorecido." Setores como o agrícola e o automobilístico
torcem para isso. "É um mercado enorme, e a presença
do Brasil é fundamental", diz José Carlos Pinheiro
Neto, presidente da Associação Nacional dos
Fabricantes de Veículos Automotores, Anfavea. Embora
o Brasil seja o maior parceiro comercial da China na América
Latina, as trocas ainda são tímidas. No ano
passado, foram exportados apenas 278 veículos, a maioria
ônibus. Até agosto deste ano, os chineses compraram
441 milhões de dólares e venderam 533 milhões
ao Brasil. O acordo da semana passada é de causar comichão
em qualquer empresário. "Eu sempre disse que não
seríamos uma Organização Mundial do Comércio
até que a China fosse integrada", comemorou, satisfeito,
o diretor-geral Mike Moore.
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