Edição 1 625 - 24/11/1999

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De portas abertas para o mundo

China aceita as regras do jogo,
fecha acordo com os Estados Unidos
e mergulha no comércio global

Rogério Simões

Até as feições de Charlene Barshefsky, a chefe da área de comércio do governo americano conhecida pela dureza, se distenderam na última segunda-feira. Depois de treze anos de negociações, foram acertados os ponteiros para a esperada abertura da economia chinesa ao mundo. Com direito a um brinde com os burocratas e a um encontro formal com o presidente Jiang Zemin, em Pequim, Charlene celebrou um acordo histórico que praticamente introduz o gigante asiático na Organização Mundial do Comércio, OMC. Isso significa que a China aceita arriar a bandeira da pirataria e escancarar de vez as portas de sua economia à globalização. Depois disso, o comércio internacional nunca mais será o mesmo, com reflexos na vida de todo mundo, inclusive na dos brasileiros. Os chineses, que totalizam 1,3 bilhão, ou um quinto da população mundial, deverão ser os primeiros a sentir o impacto. Se tudo caminhar de acordo com as melhores expectativas dos economistas, em breve a China terá serviços telefônicos mais eficientes, meios de transporte mais rápidos, bancos mais confiáveis e alimentos mais baratos. Ninguém põe em dúvida que o perfil do país, majoritariamente agrícola e, na média, paupérrimo, com renda per capita de 773 dólares por ano – um sexto da brasileira –, pode ser revirado de cabeça para baixo. O único imponderável é se tudo isso pode ocorrer sem levar de roldão a ditadura comunista que dá as cartas em Pequim.

O efeito do acordo para os demais países será sentido de modo mais lento. Os produtos chineses baratos, que já inundam as lojas do planeta, ampliarão sua presença em certos setores, como tecidos e brinquedos. Mas, sob pressão da concorrência interna, a qualidade dessas mercadorias deverá melhorar. A grande esperança por trás das previsões é que empresários e governos estrangeiros poderão passar a negociar com seus homólogos chineses sob as regras do comércio internacional, mais previsíveis do que os humores oscilantes do todo-poderoso Partido Comunista. A importância do acordo com os Estados Unidos é comparável à decisão de Deng Xiaoping, em 1978, de reintroduzir a propriedade privada na sociedade chinesa. A OMC, um clube formado por 135 países, exerce o papel de árbitro nas relações comerciais entre as nações. Quem quiser tornar-se sócio tem de seguir a cartilha da globalização. É o que a China se dispôs a fazer. O país não seria aceito na OMC com suas exorbitantes taxas de importação ou suas restrições à entrada do capital estrangeiro. Aí vieram as longas negociações com os americanos, que arrancaram um acordo melhor que a encomenda, conseguindo tudo o que queriam.

 

A China comprometeu-se a reduzir a média de suas tarifas sobre os importados de 22,1% para 17%. A medida foi comemorada pelos americanos. Milho, trigo, algodão e soja cultivados nos Estados Unidos chegarão ao mercado chinês mais baratos. Para os agricultores chineses, claro, não é boa notícia. Por pouca competitividade, deve haver uma quebradeira geral, e já se estima que 10 milhões de camponeses poderão ficar desempregados. Nas telecomunicações, grupos estrangeiros estarão autorizados a adquirir metade do capital das empresas. As tarifas de importação de veículos, que hoje atingem até 100%, cairão para 25% em 2006. Isso fará dos carrões da Ford, da DaimlerChrysler e da Volkswagen os novos sonhos de consumo da elite empresarial chinesa. As mudanças afetam também a internet, uma área delicada não só por razões econômicas. Apavorados com a livre circulação de informações, os próceres do PC resistiram até o último momento em abrir a rede a provedores estrangeiros.

 
Comichão empresarial A entrada da China na OMC deverá ser o assunto dominante da reunião de cúpula de seus países membros, a partir do dia 30 nos Estados Unidos. Para que a filiação seja aprovada, o acordo deverá passar pelo Congresso americano e pela apreciação de outros associados à OMC. Não se prevê grande resistência em nenhuma das instâncias, embora a briga no Legislativo dos Estados Unidos vá ocorrer em momento complicado – meados do ano que vem, auge da campanha presidencial. Devem entrar em discussão os argumentos contra o favorecimento comercial a um país que desconhece a noção de direitos humanos. Mais cedo ou mais tarde, porém, o acordo chegará à aprovação, seja por pragmatismo econômico, seja porque se aposta que atrair a China às regras do comércio internacional pode ser o primeiro passo para a aceitação de outros princípios universais, como a democracia e a liberdade de opinião. Do lado chinês, a inevitabilidade de conviver com as regras consensuais também falou mais alto. Sem outra opção, o primeiro-ministro reformista Zhu Rongji encarou a linha dura para tentar acabar com a ineficiência da indústria e do sistema financeiro. A nova ordem poderá levar a China a triplicar, até 2020, suas importações e exportações (veja quadro). Nessa data, prevê o Banco Mundial, o país será o segundo maior comerciante do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos.
E o Brasil, como fica? "Dependerá do próprio Brasil", responde o economista Michael Hartnett, responsável pela área internacional do banco Merrill Lynch, em Nova York. "Se o país continuar se abrindo, será favorecido." Setores como o agrícola e o automobilístico torcem para isso. "É um mercado enorme, e a presença do Brasil é fundamental", diz José Carlos Pinheiro Neto, presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores, Anfavea. Embora o Brasil seja o maior parceiro comercial da China na América Latina, as trocas ainda são tímidas. No ano passado, foram exportados apenas 278 veículos, a maioria ônibus. Até agosto deste ano, os chineses compraram 441 milhões de dólares e venderam 533 milhões ao Brasil. O acordo da semana passada é de causar comichão em qualquer empresário. "Eu sempre disse que não seríamos uma Organização Mundial do Comércio até que a China fosse integrada", comemorou, satisfeito, o diretor-geral Mike Moore.

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