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Presidência
Como
FHC gosta
Ele se encontra com os grandes do
mundo, longe de CPIs e Buritis
Vladimir
Netto, de Roma
Fotos: Victor
Sokolowicz
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| Palácio Pamphili: sede da embaixada
brasileira na Itália |
Fernando
Henrique Cardoso deixou mais uma vez o Brasil para entrar
no paraíso do circuito internacional. Na semana passada,
ele ficou quatro dias na Cuba de el
comandante trocando
idéias com outros líderes políticos reunidos para a inócua
conferência dos chefes de Estado da América Latina, Portugal
e Espanha. A conferência não significa nada, mas Havana,
nesta época do ano, está linda, Fidel Castro mostrava-se
caloroso e outras personalidades, como o rei Juan Carlos,
da Espanha, sempre aparecem com idéias interessantes para
trocar. Depois, o presidente deu um pulo a Roma para ver
o papa e em seguida a Florença para discutir um tema da
última moda, a terceira via, com os principais governantes
do mundo ocidental. Isso, sim, é que é vida. O Brasil que
FHC deixou para trás continuou no marasmo de sempre. Acompanhou
outra semana de três CPIs. Ouviu os depoimentos de dois
ministros sob suspeita, Rafael Greca, do Esporte e Turismo,
e Eliseu Padilha, dos Transportes, que foram ao Congresso
justificar-se na tentativa de salvar o pescoço. E até em
Buritis, Minas Gerais, onde o presidente tem uma fazenda,
a crise insinuou-se à sombra de bandeiras vermelhas. Na
porta da fazenda presidencial, um grupo de integrantes do
MST ameaçava invadir a propriedade. Ou seja, nada de novo
por aqui.
Foi a
65ª viagem internacional de FHC desde o início de seu
primeiro mandato, em 1995. No novo governo, é sua 11ª
em onze meses. A média, desde o primeiro mandato, é de
mais de uma viagem por mês para fora do Brasil. Fernando
Henrique bate de longe todos os seus antecessores. José
Sarney, em cinco anos, fez 36 viagens. Fernando Collor,
em dois anos e oito meses, 21. Itamar Franco, em dois
anos, apenas catorze. As viagens presidenciais podem ser
mais ou menos importantes ou necessárias, mas nunca deixam
de produzir saldos positivos, entre eles a mudança de
ares para um chefe de Estado como FHC, que não tem descanso
de crises quando está internalizado no próprio território.
FHC foi
o primeiro presidente brasileiro a visitar a ilha governada
por Fidel Castro há quarenta anos. É verdade que o Brasil
poderia ter continuado sem enviar para lá seu atual presidente
e não teria feito a menor diferença. O ponto alto da viagem
consolidou-se num documento assinado pelos chefes de Estado
reunidos no encontro, denominado "Declaração de Havana",
que defendeu as liberdades democráticas e os direitos
humanos num país em que não existe nem uma coisa nem outra.
Não é de estranhar que o que acabou chamando a atenção
foram assuntos paralelos. Se, por exemplo, o rei Juan
Carlos, da Espanha, iria sentar ou não num trono que lhe
foi mostrado num museu. Juan Carlos, homem de bom gosto,
preferiu não sentar para as fotos de um batalhão de fotógrafos
ansiosos. Elegante, posou para fotografias em pé, na frente
do trono. Outro tema paralelo de grande impacto estava
no repúdio aos esforços do juiz espanhol Baltasar Garzón
de obter a extradição do aposentado ditador chileno Augusto
Pinochet, a fim de puni-lo na Espanha pela brutalidade
com que tratou seus adversários políticos nos tempos em
que era o homem forte de seu país. Também ocuparam bastante
espaço na agenda do encontro de Havana as visitas de alguns
chefes de Estado, inclusive um representante do governo
brasileiro, ao líder dissidente cubano Elizardo Sanchez,
que já tinha sido preso cinco vezes. Esses encontros com
Sanchez e outros dissidentes serviram de contraponto crítico
ao lado ameno da conferência de Havana.
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O embaixador Paulo de
Tarso e Lúcia: reformando
a fabulosa sede da
embaixada em Roma |
Em Roma,
além de ver o papa, Fernando Henrique e Ruth Cardoso puderam
verificar a competente restauração de um esplendor arquitetônico,
o Palácio Pamphili, obra do barroco italiano onde fica
a embaixada brasileira na Itália e que está sendo reformada
pelo embaixador Paulo Tarso Flecha de Lima. Localizado
na Piazza Navona, o segundo lugar mais visitado na cidade,
o Palácio Pamphili impressiona por sua suntuosidade. Construído
no século XVII para ser a residência do papa italiano
Inocêncio X, o prédio possui afrescos pintados por reconhecidos
artistas italianos do século XVII e ocupa dois quarteirões
de uma das principais avenidas romanas, grande demais
até para os padrões da terra de Federico Fellini.
O prédio
estava precisando de reformas urgentes, mas faltava dinheiro.
O embaixador Paulo Tarso, que antes de Roma serviu na
embaixada brasileira em Washington, não teve dúvidas.
Foi bater à porta das empresas privadas oferecendo a quem
se dispusesse a ajudar nas reformas o incentivo fiscal
concedido pela Lei Rouanet, aquela que proporciona descontos
no pagamento de impostos aos que investem em cultura.
Paulo Tarso já conseguiu reunir 2 milhões de dólares.
Precisa de mais 1,5 milhão. É uma quantia respeitável
para uma reforma, mas nada que assuste em se tratando
da recuperação de um palácio com o currículo e a suntuosidade
do Pamphili. "Mesmo sendo um tesouro da história
italiana, é um prédio brasileiro e temos de preservá-lo",
diz Paulo Tarso. O palácio foi comprado pelo embaixador
Hugo Gouthier de Oliveira Gondim em novembro de 1960 pelo
equivalente a 1 milhão de dólares, uma pechincha, levando-se
em conta seu valor histórico e cultural. Esse tesouro
já está salvo agora, mas o trabalho de restauração apenas
começou.
O ponto
final da viagem ocorre neste fim de semana em Florença,
onde FHC estará sentado a uma mesma mesa ao lado de chefes
de governo de países ricos, como o americano Bill Clinton,
o inglês Tony Blair, o alemão Gerhard Schroeder, o francês
Lionel Jospin e o anfitrião, o italiano Massimo D'Alema.
Fernando Henrique será o único representante de um país
pobre ao encontro. Depois de don Castro e don D'Alema,
FHC terá de enfrentar mais uma vez aquele distante país
da América do Sul que parece não dar descanso ao bacilo
da crise. Mas, enfim...
FHC sobre a terceira via
O presidente Fernando Henrique Cardoso costuma
lembrar que, durante a fundação do PSDB, há onze
anos, uma pergunta rondava o debate: como criar
uma economia de mercado forte e dinâmica e, ao mesmo
tempo, reduzir a desigualdade social? Nem a direita
com a sua fé irrestrita nas leis de mercado nem
a esquerda com suas idéias e práticas ineficazes
pareciam ter a resposta. Existiria um caminho alternativo?
No decorrer dos últimos anos foram surgindo sinais
de que sim, talvez existisse um caminho alternativo.
Alguns deles: a eleição do democrata Bill Clinton
com sua visão menos radical do livre mercado, a
derrota da conservadora Margaret Thatcher depois
de onze anos no poder, o surgimento de nomes como
Lionel Jospin, na França, e Romano Prodi, na Itália.
Neste final de semana, em Florença, norte da
Itália, alguns desses personagens se reuniram
para discutir o tema, FHC entre eles. "Venho
pelo interesse ideológico, e para que se valide
no Brasil esse debate", disse a VEJA o presidente
na noite de quinta-feira, ainda em Roma, antes
de embarcar para Florença. Fernando Henrique não
gosta, porém, da expressão terceira via. É imprecisa,
a seu ver. Em um mundo globalizado não há apenas
dois ou três caminhos, mas sim um número infinito
deles. O que realmente esses chefes de Estado
estão discutindo é como governar mantendo a estabilidade
e diminuindo a miséria. Para FHC, o debate em
torno desses temas no Brasil é fraco. "Na
prática, todos querem mais Estado e Estado errado,
tanto a esquerda quanto a direita, por razões
diferentes", disse o presidente. A própria
discussão sobre neoliberalismo no Brasil, segundo
ele, é tola. "No Brasil, só conheci dois
neoliberais: Luís Eduardo Magalhães e Roberto
Campos. O resto são pessoas ligadas a grupos."
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