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Doutor
na mira
CPI do Narcotráfico acusa
Badan Palhares de vender laudos e
ter ligações com o crime organizado
Maurício
Lima, de Campinas
Além
da prisão do ex-deputado Hildebrando Pascoal, do Acre, e
do mapeamento de uma quadrilha de drogas com ramificações
em dezesseis Estados, a CPI do Narcotráfico produziu na
semana passada mais uma surpresa. Ela colocou em situação
de total suspeita o nome do legista Fortunato Badan Palhares,
o conhecido professor da Universidade Estadual de Campinas,
Unicamp. A reputação do doutor Badan Palhares estava trincada
desde a contestação, em março deste ano, de seu laudo sobre
a morte de Paulo César Farias, ex-tesoureiro de Fernando
Collor, e de sua namorada, Suzana Marcolino. Mas a CPI multiplicou
as interrogações cabeludas que pesavam sobre o legista.
Em poder dos deputados está um dossiê com 500 páginas só
com erros em laudos cometidos por ele. São dez autópsias
assinadas por Badan entre os anos de 1985 e 1996. Pior:
os erros são apontados por alguns deputados integrantes
da CPI como indícios de que o legista de Campinas fabricava
laudos cadavéricos sob encomenda. Mais impressionante ainda:
um de seus maiores clientes seria justamente a máfia de
narcotraficantes que a CPI vem investigando em todo o Brasil.
Reprodução/Ana Araújo
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A cena do crime: novo laudo
sobre PC Farias e Suzana
contraria o de Badan |
Na semana passada, os deputados estiveram em Campinas,
ouviram doze pessoas, prenderam três e querem colocar
mais cinqüenta atrás das grades. Saíram da cidade aplaudidos
pela população. A passagem por Campinas só não foi mais
proveitosa porque a CPI deixou de ouvir o depoimento de
Badan Palhares. Na última quinta-feira, o professor da
Unicamp alegou cólicas renais e não foi ao fórum da cidade,
onde estava marcada sua participação. Ele teria sofrido
uma cirurgia a laser para desintegrar as pedrinhas nos
rins que o incomodavam. Essa foi a segunda vez que teve
problemas de ordem médica em momentos de stress. A primeira
aconteceu em março deste ano, quando surgiram fotos que
contrariavam sua versão sobre o caso PC Farias. Na ocasião,
o médico teve distúrbios cardíacos. A CPI espera que Badan
Palhares vá depor na quarta-feira desta semana, dia 24,
em Brasília. Ele falará aos deputados já garantido por
um habeas-corpus preventivo, para não sair algemado logo
depois do depoimento. "Os deputados querem prendê-lo
de qualquer maneira e estão cometendo alguns atropelos.
Tínhamos de nos garantir", diz Tereza Doro, advogada
de defesa.
A presença
de um médico renomado como Badan Palhares numa CPI que
investiga o narcotráfico parece, à primeira vista, um
contra-senso. Doutor em medicina legal, o professor fez
mais de 5.000
laudos em duas décadas de carreira. Durante cinco anos,
foi o chefe do departamento de medicina legal da Unicamp,
uma das mais reputadas universidades brasileiras. Nos
últimos treze anos, participou de todas as mais importantes
autópsias da História recente no país. Em 1986, ganhou
fama internacional com a identificação da ossada do carrasco
nazista Josef Mengele. Em 1992, foi o legista dos 111
detentos mortos durante o massacre do Carandiru, em São
Paulo. Quatro anos depois, fez os laudos do massacre dos
sem-terra em Eldorado dos Carajás, no Pará. No mesmo ano,
convocado para elucidar o caso PC Farias, em Maceió, tornou-se
conhecido também fora dos círculos especializados.
Pelo
dossiê da CPI, o prestígio do legista estava alicerçado
em areia. No caso Mengele, ele teria se apropriado indevidamente
do trabalho de uma equipe de dez pessoas. Por essa razão,
está sofrendo um processo em andamento na 32ª Vara Cível
do Rio de Janeiro. No episódio do Carandiru, segundo os
deputados da CPI, Badan Palhares teria montado um relatório
para favorecer os policiais que mataram os detentos. Em
Eldorado dos Carajás, a mesma coisa. Em outro laudo, decretou
o suicídio do vice-governador da Paraíba, Raimundo Asfora,
uma tragédia em 1987. Recentemente, o caso foi reaberto
e dois acusados foram presos. Portanto, não teria havido
suicídio. Em 1991, um corpo de mulher foi encontrado em
Xambioá, no Pará, amarrado a um pára-quedas do Exército.
Suspeitava-se que fosse de uma desaparecida política chamada
Maria Lúcia Petit. Badan Palhares foi chamado e disse
que não era dela porque a dentição do cadáver "não
era comum entre as guerrilheiras". Quatro anos depois,
em outro laudo, o corpo foi identificado como sendo de
Lúcia Petit. "No nosso entender, ele é chamado para
resolver um caso e escolhe o lado de acordo com o interesse
que o guia. Nem sempre é o da moralidade", diz o
deputado Pompeo de Mattos (PDT-RS).
Alan Marques/Folha Imagem
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| O deputado Augusto Farias: acusado de mandar
matar o irmão |
O grande divisor de águas na vida profissional de Badan
Palhares foi a autópsia de PC Farias e de sua namorada,
Suzana Marcolino. Foi ali que começou a surgir a percepção
de que o legista não era o profissional competente e isento
que parecia. No laudo que assinou junto com outros seis
peritos, o legista de Campinas afirmou que Suzana matou
PC e depois se suicidou. A tese estava escorada em dados
que parecem estar errados. Pelo laudo de Badan Palhares,
Suzana media 1,67 metro e PC Farias, 1,63 metro. Essa
relação de altura foi questionada por fotos divulgadas
em março deste ano e, na semana passada, o laudo de Badan
foi jogado no lixo. Os delegados Antônio Carlos Lessa
e Alcides Andrade, da polícia de Alagoas, reabriram o
caso e indiciaram um irmão de PC Farias, o deputado federal
Augusto Farias, como um dos mandantes do crime. Eles reuniram
26 indícios contra o irmão de PC. Entre eles, relacionamento
tumultuado com o irmão, oferta de suborno para não ser
indiciado e envolvimento no desaparecimento de algumas
provas pertinentes ao caso. Além de Augusto, outros oito
suspeitos foram indiciados, sob acusação de duplo homicídio
qualificado e formação de quadrilha: os cabos Reinaldo
Correia de Lima Filho e Adeildo Costa dos Santos, os soldados
Josemar Faustino dos Santos e José Geraldo da Silva, o
casal Leonino Tenório de Carvalho e Marize Vieira de Carvalho
(caseiros de PC), o vigia Manoel Alfredo da Silva e o
garçom Genival da Silva França. Todos estavam na casa
de praia do empresário no dia do crime e são ex-funcionários
de PC. A maioria, hoje, trabalha para o irmão do ex-tesoureiro
de Collor.
Rei
do suicídio Erros
acontecem. Engenheiros erram, dentistas erram, jornalistas
erram muito e os legistas também erram. Mas a CPI
acredita que Badan Palhares erre de propósito e que preste
serviços esporádicos à quadrilha do narcotráfico. A CPI
ainda não apresentou nenhuma prova contundente sobre essa
acusação, mas continua insistindo na tese a partir dos
indícios que colheu. No caso PC Farias, os deputados da
CPI acreditam que o laudo favorável à conclusão de crime
passional tenha sido encomendado por Augusto Farias, suspeito
de fazer parte da quadrilha com ramificações em pelo menos
dezesseis Estados brasileiros. Os deputados fazem ainda
uma ligação entre Badan Palhares e o legista Antônio Francisco
Bastos, ex-diretor do Instituto Médico Legal de Campinas,
de onde sumiram 340 quilos de cocaína neste ano. Bastos
é acusado de facilitar a saída da droga do IML e de ser
um dos integrantes da máfia de Campinas liderada pelo
empresário William Sozza, ainda foragido. O que a CPI
tem de concreto é que Bastos e Badan são muito amigos
e assinaram algumas autópsias juntos. Quando Bastos foi
acusado de ter facilitado o roubo da droga, Badan pagou
espaço em jornais de Campinas para mandar mensagens de
apoio ao amigo. Além da ligação com a máfia das drogas,
a CPI trabalha numa outra frente: a ligação de Badan Palhares
com uma grande seguradora nacional. Os deputados dizem
que o legista é conhecido como o "rei do suicídio".
Pelo menos dois membros da CPI estão convencidos de que
ele fabricaria e venderia laudos de suicídio para que
a seguradora não fosse obrigada a pagar o valor da apólice.
Assassinato precisa ser pago quando há seguro. Suicídio,
não.
O maior erro de Badan
Depois de sete meses de apuração, a polícia alagoana
concluiu na semana passada os trabalhos de investigação
da morte de Paulo César Farias e de sua namorada,
Suzana Marcolino. O crime aconteceu em Maceió
em 1996. Contrariando o laudo do inquérito original
feito por Badan Palhares, o relatório apresentado
agora descarta a versão de crime passional. Segundo
o novo laudo, PC e Suzana foram assassinados.
O deputado federal Augusto Farias (PPB-AL), irmão
de PC, foi indiciado como co-autor das mortes.
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Na Unicamp,
Badan Palhares está sofrendo três processos internos.
Em um deles, foi acusado de ter desviado um microscópio
triocular Nikon, no valor de 50.000 dólares. O aparelho foi um presente
da Comissão Nacional de Energia Nuclear para a Unicamp,
mas foi parar no laboratório particular do qual Badan
Palhares é sócio. Estava lá há onze anos, quando foi devolvido
no início deste ano. Em outro processo, o legista é acusado
de ter-se apropriado de um artigo do professor Ricardo
Molina. Simplesmente somou o artigo de Molina ao próprio
currículo e o enviou a um seminário na Alemanha. O terceiro
processo resulta de um laudo encomendado à Unicamp pelos
Irmãos Maristas, uma congregação religiosa. Os padres
queriam que ele fizesse a reconstituição do rosto do padre
Marcelin Champagnat. A intenção era criar um busto a partir
de um trabalho do legista para que fosse anexado ao processo
de beatificação do padre que tramita em Roma. Palhares
cobrou 14.000 reais dos padres sem a autorização
da universidade e até hoje a Unicamp não viu a cor desse
dinheiro. No Conselho Regional de Medicina, ele está sofrendo
processo por ter comercializado uma fita de vídeo em que
gravou a autópsia de PC Farias.
Um dos
traços de Badan Palhares está em seu afiado oportunismo.
Ofereceu-se para fazer a autópsia de casos esdrúxulos
como o ET de Varginha e de um outro bicho inexistente
que andou assustando o interior de São Paulo, o chupa-cabra.
No seu currículo profissional, faz questão de mencionar
as entrevistas que deu durante a carreira. Cita, por exemplo,
uma entrevista concedida ao jornalista Amaury Jr., da
TV Bandeirantes, como item de qualificação profissional.
Fortunato Badan Palhares, 53 anos, é um homem que se fez
sozinho. Vem de uma família humilde de sete irmãos da
região de Campinas. Só começou a cursar medicina aos 23
anos, ganhando uma bolsa de estudos do governo de Portugal
para estudar em Coimbra. Ficou um ano e meio e voltou
para a Unicamp. Por profissão, lê bastante sobre tanatologia,
o estudo da morte. O tema o fascina. Na videolocadora,
aluga preferencialmente os filmes que têm crime de morte.
Na semana passada, entre sedativos e diuréticos na Santa
Casa de Campinas, o assunto era o oposto. "Quando
isso acabar, largo tudo e vou pescar", disse à sua
advogada.
Com
reportagem de Dina Duarte, de Maceió
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