Edição 1 625 - 24/11/1999

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Doutor na mira

CPI do Narcotráfico acusa
Badan Palhares de vender laudos e
ter ligações com o crime organizado

Maurício Lima, de Campinas

Além da prisão do ex-deputado Hildebrando Pascoal, do Acre, e do mapeamento de uma quadrilha de drogas com ramificações em dezesseis Estados, a CPI do Narcotráfico produziu na semana passada mais uma surpresa. Ela colocou em situação de total suspeita o nome do legista Fortunato Badan Palhares, o conhecido professor da Universidade Estadual de Campinas, Unicamp. A reputação do doutor Badan Palhares estava trincada desde a contestação, em março deste ano, de seu laudo sobre a morte de Paulo César Farias, ex-tesoureiro de Fernando Collor, e de sua namorada, Suzana Marcolino. Mas a CPI multiplicou as interrogações cabeludas que pesavam sobre o legista. Em poder dos deputados está um dossiê com 500 páginas só com erros em laudos cometidos por ele. São dez autópsias assinadas por Badan entre os anos de 1985 e 1996. Pior: os erros são apontados por alguns deputados integrantes da CPI como indícios de que o legista de Campinas fabricava laudos cadavéricos sob encomenda. Mais impressionante ainda: um de seus maiores clientes seria justamente a máfia de narcotraficantes que a CPI vem investigando em todo o Brasil.


Reprodução/Ana Araújo
A cena do crime: novo laudo
sobre PC Farias e Suzana
contraria o de Badan


Na semana passada, os deputados estiveram em Campinas, ouviram doze pessoas, prenderam três e querem colocar mais cinqüenta atrás das grades. Saíram da cidade aplaudidos pela população. A passagem por Campinas só não foi mais proveitosa porque a CPI deixou de ouvir o depoimento de Badan Palhares. Na última quinta-feira, o professor da Unicamp alegou cólicas renais e não foi ao fórum da cidade, onde estava marcada sua participação. Ele teria sofrido uma cirurgia a laser para desintegrar as pedrinhas nos rins que o incomodavam. Essa foi a segunda vez que teve problemas de ordem médica em momentos de stress. A primeira aconteceu em março deste ano, quando surgiram fotos que contrariavam sua versão sobre o caso PC Farias. Na ocasião, o médico teve distúrbios cardíacos. A CPI espera que Badan Palhares vá depor na quarta-feira desta semana, dia 24, em Brasília. Ele falará aos deputados já garantido por um habeas-corpus preventivo, para não sair algemado logo depois do depoimento. "Os deputados querem prendê-lo de qualquer maneira e estão cometendo alguns atropelos. Tínhamos de nos garantir", diz Tereza Doro, advogada de defesa.

A presença de um médico renomado como Badan Palhares numa CPI que investiga o narcotráfico parece, à primeira vista, um contra-senso. Doutor em medicina legal, o professor fez mais de 5.000 laudos em duas décadas de carreira. Durante cinco anos, foi o chefe do departamento de medicina legal da Unicamp, uma das mais reputadas universidades brasileiras. Nos últimos treze anos, participou de todas as mais importantes autópsias da História recente no país. Em 1986, ganhou fama internacional com a identificação da ossada do carrasco nazista Josef Mengele. Em 1992, foi o legista dos 111 detentos mortos durante o massacre do Carandiru, em São Paulo. Quatro anos depois, fez os laudos do massacre dos sem-terra em Eldorado dos Carajás, no Pará. No mesmo ano, convocado para elucidar o caso PC Farias, em Maceió, tornou-se conhecido também fora dos círculos especializados.

Pelo dossiê da CPI, o prestígio do legista estava alicerçado em areia. No caso Mengele, ele teria se apropriado indevidamente do trabalho de uma equipe de dez pessoas. Por essa razão, está sofrendo um processo em andamento na 32ª Vara Cível do Rio de Janeiro. No episódio do Carandiru, segundo os deputados da CPI, Badan Palhares teria montado um relatório para favorecer os policiais que mataram os detentos. Em Eldorado dos Carajás, a mesma coisa. Em outro laudo, decretou o suicídio do vice-governador da Paraíba, Raimundo Asfora, uma tragédia em 1987. Recentemente, o caso foi reaberto e dois acusados foram presos. Portanto, não teria havido suicídio. Em 1991, um corpo de mulher foi encontrado em Xambioá, no Pará, amarrado a um pára-quedas do Exército. Suspeitava-se que fosse de uma desaparecida política chamada Maria Lúcia Petit. Badan Palhares foi chamado e disse que não era dela porque a dentição do cadáver "não era comum entre as guerrilheiras". Quatro anos depois, em outro laudo, o corpo foi identificado como sendo de Lúcia Petit. "No nosso entender, ele é chamado para resolver um caso e escolhe o lado de acordo com o interesse que o guia. Nem sempre é o da moralidade", diz o deputado Pompeo de Mattos (PDT-RS).


Alan Marques/Folha Imagem
O deputado Augusto Farias: acusado de mandar matar o irmão


O grande divisor de águas na vida profissional de Badan Palhares foi a autópsia de PC Farias e de sua namorada, Suzana Marcolino. Foi ali que começou a surgir a percepção de que o legista não era o profissional competente e isento que parecia. No laudo que assinou junto com outros seis peritos, o legista de Campinas afirmou que Suzana matou PC e depois se suicidou. A tese estava escorada em dados que parecem estar errados. Pelo laudo de Badan Palhares, Suzana media 1,67 metro e PC Farias, 1,63 metro. Essa relação de altura foi questionada por fotos divulgadas em março deste ano e, na semana passada, o laudo de Badan foi jogado no lixo. Os delegados Antônio Carlos Lessa e Alcides Andrade, da polícia de Alagoas, reabriram o caso e indiciaram um irmão de PC Farias, o deputado federal Augusto Farias, como um dos mandantes do crime. Eles reuniram 26 indícios contra o irmão de PC. Entre eles, relacionamento tumultuado com o irmão, oferta de suborno para não ser indiciado e envolvimento no desaparecimento de algumas provas pertinentes ao caso. Além de Augusto, outros oito suspeitos foram indiciados, sob acusação de duplo homicídio qualificado e formação de quadrilha: os cabos Reinaldo Correia de Lima Filho e Adeildo Costa dos Santos, os soldados Josemar Faustino dos Santos e José Geraldo da Silva, o casal Leonino Tenório de Carvalho e Marize Vieira de Carvalho (caseiros de PC), o vigia Manoel Alfredo da Silva e o garçom Genival da Silva França. Todos estavam na casa de praia do empresário no dia do crime e são ex-funcionários de PC. A maioria, hoje, trabalha para o irmão do ex-tesoureiro de Collor.

Rei do suicídioErros acontecem. Engenheiros erram, dentistas erram, jornalistas erram muito – e os legistas também erram. Mas a CPI acredita que Badan Palhares erre de propósito e que preste serviços esporádicos à quadrilha do narcotráfico. A CPI ainda não apresentou nenhuma prova contundente sobre essa acusação, mas continua insistindo na tese a partir dos indícios que colheu. No caso PC Farias, os deputados da CPI acreditam que o laudo favorável à conclusão de crime passional tenha sido encomendado por Augusto Farias, suspeito de fazer parte da quadrilha com ramificações em pelo menos dezesseis Estados brasileiros. Os deputados fazem ainda uma ligação entre Badan Palhares e o legista Antônio Francisco Bastos, ex-diretor do Instituto Médico Legal de Campinas, de onde sumiram 340 quilos de cocaína neste ano. Bastos é acusado de facilitar a saída da droga do IML e de ser um dos integrantes da máfia de Campinas liderada pelo empresário William Sozza, ainda foragido. O que a CPI tem de concreto é que Bastos e Badan são muito amigos e assinaram algumas autópsias juntos. Quando Bastos foi acusado de ter facilitado o roubo da droga, Badan pagou espaço em jornais de Campinas para mandar mensagens de apoio ao amigo. Além da ligação com a máfia das drogas, a CPI trabalha numa outra frente: a ligação de Badan Palhares com uma grande seguradora nacional. Os deputados dizem que o legista é conhecido como o "rei do suicídio". Pelo menos dois membros da CPI estão convencidos de que ele fabricaria e venderia laudos de suicídio para que a seguradora não fosse obrigada a pagar o valor da apólice. Assassinato precisa ser pago quando há seguro. Suicídio, não.


O maior erro de Badan

Depois de sete meses de apuração, a polícia alagoana concluiu na semana passada os trabalhos de investigação da morte de Paulo César Farias e de sua namorada, Suzana Marcolino. O crime aconteceu em Maceió em 1996. Contrariando o laudo do inquérito original feito por Badan Palhares, o relatório apresentado agora descarta a versão de crime passional. Segundo o novo laudo, PC e Suzana foram assassinados. O deputado federal Augusto Farias (PPB-AL), irmão de PC, foi indiciado como co-autor das mortes.

Na Unicamp, Badan Palhares está sofrendo três processos internos. Em um deles, foi acusado de ter desviado um microscópio triocular Nikon, no valor de 50.000 dólares. O aparelho foi um presente da Comissão Nacional de Energia Nuclear para a Unicamp, mas foi parar no laboratório particular do qual Badan Palhares é sócio. Estava lá há onze anos, quando foi devolvido no início deste ano. Em outro processo, o legista é acusado de ter-se apropriado de um artigo do professor Ricardo Molina. Simplesmente somou o artigo de Molina ao próprio currículo e o enviou a um seminário na Alemanha. O terceiro processo resulta de um laudo encomendado à Unicamp pelos Irmãos Maristas, uma congregação religiosa. Os padres queriam que ele fizesse a reconstituição do rosto do padre Marcelin Champagnat. A intenção era criar um busto a partir de um trabalho do legista para que fosse anexado ao processo de beatificação do padre que tramita em Roma. Palhares cobrou 14.000 reais dos padres sem a autorização da universidade e até hoje a Unicamp não viu a cor desse dinheiro. No Conselho Regional de Medicina, ele está sofrendo processo por ter comercializado uma fita de vídeo em que gravou a autópsia de PC Farias.

Um dos traços de Badan Palhares está em seu afiado oportunismo. Ofereceu-se para fazer a autópsia de casos esdrúxulos como o ET de Varginha e de um outro bicho inexistente que andou assustando o interior de São Paulo, o chupa-cabra. No seu currículo profissional, faz questão de mencionar as entrevistas que deu durante a carreira. Cita, por exemplo, uma entrevista concedida ao jornalista Amaury Jr., da TV Bandeirantes, como item de qualificação profissional. Fortunato Badan Palhares, 53 anos, é um homem que se fez sozinho. Vem de uma família humilde de sete irmãos da região de Campinas. Só começou a cursar medicina aos 23 anos, ganhando uma bolsa de estudos do governo de Portugal para estudar em Coimbra. Ficou um ano e meio e voltou para a Unicamp. Por profissão, lê bastante sobre tanatologia, o estudo da morte. O tema o fascina. Na videolocadora, aluga preferencialmente os filmes que têm crime de morte. Na semana passada, entre sedativos e diuréticos na Santa Casa de Campinas, o assunto era o oposto. "Quando isso acabar, largo tudo e vou pescar", disse à sua advogada.

Com reportagem de Dina Duarte, de Maceió