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Tubarão
na rede
Relatório da CPI do Judiciário
fisga o senador Luiz Estevão,
do PMDB, nas fraudes da obra
do TRT de São Paulo
Leandra
Peres e Sandra Brasil
O
Congresso Nacional tem 81 senadores. Um deles Luiz
Estevão de Oliveira Neto, 50 anos, do PMDB do Distrito Federal
transformou-se num desafio para o Senado. Se Luiz
Estevão continuar senador, a Casa poderá ter o prestígio
abalado. Na semana passada, a comissão parlamentar de inquérito,
CPI, que apura casos de corrupção no Judiciário divulgou
o relatório final sobre as investigações da escandalosa
obra do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo. Luiz
Estevão é apresentado no relatório como suspeito de enriquecimento
ilícito, atos lesivos ao patrimônio público e falsidade
ideológica. Segundo a CPI, é certo que 169 milhões de reais
foram desviados da obra. Parte desse dinheiro foi parar
em contas pessoais que o juiz Nicolau dos Santos Neto, ex-presidente
do TRT, abriu em bancos nos Estados Unidos, na Suíça e nas
Ilhas Cayman. Outra parte do dinheiro apareceu em Brasília,
mais precisamente nas contas das empresas do grupo OK, cujo
proprietário é o senador Luiz Estevão. Dos 232 milhões de
reais que entraram nos cofres da Ikal, a empreiteira responsável
pela construção do prédio do TRT, o equivalente a 34 milhões
de dólares foram transferidos para as empresas do senador.
A CPI não engoliu as explicações de Estevão para o recebimento
dessa fortuna e o enquadrou em crimes capitulados no Código
Penal. A primeira parte do trabalho foi feita e é estimulante
descobrir que não prevaleceu, entre os senadores, a tendência
ao corporativismo que levaria a uma tentativa de encobrir
o lado escuso dos negócios de um de seus pares. Mas, agora,
resta a expectativa de que o episódio tenha seu curso natural
com a abertura de um processo de cassação do senador. O
PT está entrando com pedido de inquérito por quebra do decoro
parlamentar, enquanto o relator da CPI preferiu recomendar
ao Ministério Público que aprofunde as investigações sobre
o caso. Só no Supremo Tribunal Federal, Estevão é acusado
em onze processos por crimes que vão de estelionato e sonegação
a fraude contra o sistema financeiro.
Quanto vale Luiz Estevão
O senador Luiz Estevão é dono de catorze empresas,
espalhadas por vários Estados brasileiros. Reunidas
sob o nome de grupo OK, elas têm uma atuação variada.
O carro-chefe é a construção civil, mas o senador
também investe em agropecuária, concessionária
de veículos, revenda de pneus e é até dono de
banco. No ano passado, o faturamento de suas empresas
foi estimado em 300 milhões de reais.
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O senador,
mesmo ainda na condição de suspeito, está em sérios apuros.
Ele é um tubarão parlamentar que se enroscou numa rede
atirada para fisgar peixes menores do Judiciário. Estevão
insiste em afirmar que a conexão financeira entre a OK
e a Ikal era resultado de uma relação comercial normal
das duas empresas. Nenhuma ligação com a obra superfaturada
do TRT. A CPI não achou nada normal. Pelo contrário. O
relatório, aprovado por unanimidade pelos senadores, destacou
que havia coincidências demais. A troca de cheques entre
a Ikal e a OK se deu no mesmo período em que o prédio
do TRT estava sendo construído. Os repasses às empresas
do senador seguiam uma cronologia similar à das faturas
pagas à Ikal. Toda vez que a Ikal recebia pela obra que
não estava fazendo, mandava dinheiro para a OK. Tudo poderia
não passar de meras coincidências. O problema é que Estevão
não conseguiu explicá-las. "A CPI não considera aceitáveis
nem convincentes as explicações trazidas sobre a origem
da extensa movimentação financeira entre os grupos Monteiro
de Barros (Ikal) e OK", diz o relatório, que concluiu: "Há uma fortíssima evidência
na direção da participação conjunta na obra". Resumindo:
os senadores da CPI não têm dúvidas de que parte do dinheiro
roubado do TRT foi parar na OK e de que as duas empresas
estavam juntas na tramóia. Apenas disseram isso de maneira
mais serena, para não ferir acordos partidários, qualificando
Estevão como suspeito.
Ana Araújo
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ACM: "A CPI do Judiciário
cumpriu seu papel" |
O relatório do senador Paulo Souto, do PFL da Bahia, que
tem 359 páginas, 97 delas dedicadas apenas ao senador
Estevão, não fala diretamente em cassação, mas deixa uma
avenida livre para quem quiser tentar chegar a esse destino.
Na medida em que sugere que as explicações dadas por Estevão
não são verdadeiras, infere, por conseqüência, que ele
mentiu à CPI, portanto quebrando o decoro. O senador José
Eduardo Dutra, do PT de Sergipe, que também integra a
comissão, já anunciou que pretende ingressar nesta semana
com uma representação pedindo a abertura de processo de
cassação contra Luiz Estevão. O relatório está recheado
de argumentos para isso. Os senadores descobriram que
existem 68 ligações feitas pelo juiz Nicolau dos Santos
Neto para os telefones de Luiz Estevão. Só para o celular
foram 25 chamadas. O senador afirmou também que estava
afastado de suas empresas desde 1994. Documentos e procurações
assinados por ele mostram que isso não é verdade.
Acusado
pela CPI de enriquecimento ilícito, atos lesivos ao patrimônio
público e falsidade ideológica, o senador Luiz Estevão
(PMDB-DF) é o único que parecia não acreditar, na semana
passada, que tinha sido alvejado no peito. "Não há
nenhuma acusação contra mim. O relatório é um belíssimo
atestado de minha completa inocência", diz. Em nenhum
momento alterou seus hábitos. Fez ginástica todos os dias
da semana, jantou fora, foi ao cinema na terça-feira,
véspera da divulgação do relatório assistiu ao
filme O
Sexto Sentido
, e na quinta-feira compareceu com a mulher, Cleucy,
à festa de casamento do filho do senador Jader Barbalho
(PMDB-PA), sempre vestido com um de seus elegantes ternos
azul-marinho.
Esta obra vale 22 milhões
O
deputado Paulo Octávio (à esq.), o ex-deputado
Sérgio Naya (abaixo) e Estevão se associaram
para construir um shopping. Tinham
prazo de trinta meses para concluí-lo. Não cumpriram
e ainda entraram na Justiça pedindo uma indenização
de 22 milhões de reais pelo monumento inacabado
que deixaram no Lago Norte, uma as áreas mais nobres
de Brasília
Fotos: Nélio
Rodrigues e Ricardo Stuckert
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As atitudes
de Estevão lembram muito as de outro político também atingido
por uma CPI, há sete anos. Coincidência ou não, esse político,
que acabou perdendo o mandato, até hoje é um fraterno
amigo de Estevão. Chama-se Fernando Collor de Mello. Durante
o período da CPI, Collor agiu como se nada acontecesse.
Estevão está procedendo da mesma forma. O senador consegue
até achar pontos favoráveis a ele no relatório. "Só
posso estar calmo. A CPI me investigou por oito meses
e, ao final, sem convicção de irregularidades, o relator
só pediu ao MP para aprofundar as investigações, se achar
que é o caso." Ele diz ainda que adorou o resultado
da CPI e elogiou o relator Paulo Souto (PFL-BA). "Eu
tomaria a mesma decisão que ele", diz Estevão. A
verdade é que o senador está com muito mais problemas
do que admite. Além do pedido de cassação de seu mandato
por quebra de decoro parlamentar, que será apresentado
pelo PT, a CPI entregou sua cabeça aos procuradores da
República, aqueles que têm dado muito trabalho a várias
pessoas. Estevão acha que tudo isso que está acontecendo
com ele agora não passa de revanchismo político, principalmente
do PT. Só que a CPI do Judiciário foi criada por outro
partido, o PFL. Só parece zangar-se quando o chamam de
arrogante. "Arrogante? O que é que eu vou fazer?
Andar com a cabeça encostada no joelho?"
Esta obra vale 232 milhões
  O
prédio do TRT de São Paulo consumiu quase
um quarto de bilhão, e ainda assim a
empresa responsável pela obra,
a Ikal, que
pertence a Fábio Monteiro de Barros Filho (acima),
não conseguiu concluí-la. A CPI comprovou que 169
milhões de reais desviaram da rota, uma parte foi
parar nas contas das empresas do senador Luiz Estevão
e outra nas do juiz Nicolau dos Santos Neto (à
direita)
Fotos: Antonio Milena,
Ana Araújo e Claudio Rossi
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Com o
relatório de Paulo Souto, a CPI encerrou suas investigações,
que agora vão prosseguir sob a responsabilidade do Ministério
Público. O procurador-geral da República vai analisar
o trabalho dos senadores e decidir se abre inquérito.
Se isso acontecer, o que é muito provável, o caso será
encaminhado ao Supremo Tribunal Federal, que pede autorização
ao Senado para abrir o processo. Isso, como se sabe, leva
tempo. Até hoje, ainda não foram julgados os anões do
Orçamento aquele grupo de parlamentares apanhados por
uma CPI, em 1993, canalizando recursos públicos para empreiteiras
e entidades fantasmas em troca de propina. É nessa leniência
que o senador Estevão vai apostar suas fichas a partir
de agora.
Claudio Versiani
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Luiz Estevão na posse
do amigo Fernando Collor:
negócios em alta e ajuda
no final |
Se depender da tradição do Senado, Luiz Estevão só perderá
o mandato parlamentar se o Ministério Público federal
conseguir provar que ele cometeu os crimes apontados pela
CPI. Em mais de 170 anos de existência do Senado nenhum
membro da casa foi cassado por iniciativa dos colegas.
O pai da CPI do Judiciário, senador Antonio Carlos Magalhães,
fará um discurso em plenário nesta semana para avaliar
os trabalhos da comissão. Ele promete também enviar a
autoridades e parlamentares três volumes de denúncias
que chegaram à CPI mas não puderam ser investigadas por
dificuldades impostas pelo próprio Judiciário. "O
Judiciário, que se imaginava intocável, e era mesmo, foi
atingido. Ele não é uma exceção e precisa ser investigado
como os outros poderes", diz o senador. Satisfeito
com o resultado da comissão parlamentar de inquérito,
ACM acha que a Justiça no Brasil já está melhorando, a
partir dela.
Nascido
de uma família de classe média, o senador Luiz Estevão
começou a fazer fortuna quando assumiu os negócios do
pai adotivo, uma pequena revendedora de pneus chamada
OK. Queria ser cientista, como Einstein, e chegou a ser
aprovado no vestibular para o curso de física. Piloto
de carros de corrida, deu o grande salto em 1982, quando
seu sogro, que era dono de uma empresa de poupança de
Brasília, a Colméia, quebrou, deixando um rombo de 350
milhões de dólares. Para esconder o patrimônio, passou
tudo para o nome de Estevão, que, em cerca de dez anos,
transformou a loja numa rede e diversificou os negócios,
principalmente no ramo da construção civil. Tem uma mansão
avaliada em 7 milhões de dólares e um jatinho particular.
Até 1989, diante do fenômeno Fernando Collor, era um empresário
bem-sucedido para os padrões brasilienses. Com a eleição
do amigo que conheceu ainda como estudante secundarista
em Brasília, seu raio de ação empresarial se multiplicou
e sua influência também. Ganhou autorização do Banco Central
para criar a própria instituição financeira, o Banco OK,
e passou a executar grandes obras. Em 1992, o então governador
do Distrito Federal, Joaquim Roriz, decidiu construir
um metrô. Grandes empreiteiras, como a Odebrecht, a Camargo
Corrêa e a Andrade Gutierrez, formaram um consórcio para
tocar a obra, orçada inicialmente em 600 milhões de dólares.
Embora não fizessem parte do grupo, as empresas de Luiz
Estevão foram subcontratadas para construir a maioria
das estações. O senador, usando das amizades que tinha
nos governos federal (Collor) e local (Roriz), conseguiu
ser o maior empreiteiro do metrô, apesar de não integrar
oficialmente o consórcio vencedor da licitação. O metrô
até hoje não funciona e já consumiu mais que o dobro do
orçamento inicial.
Ana Araújo
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A mansão do senador
em Brasília: sem os exageros
da Casa da Dinda
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Durante o curto período do governo Collor, Estevão também
fechou excelentes negócios com os fundos de pensão de
empresas estatais. Construía prédios e vendia aos milionários
fundos. Ergueu um enorme centro empresarial numa das áreas
mais valorizadas de Brasília. Um grupo de fundos de pensão
comprou o empreendimento, que acabou ficando dois anos
embargado. A OK fez um prédio diferente do projeto que
havia apresentado. A fiscalização foi conferir e encontrou,
entre outras irregularidades, um andar a mais. Os fundos
entraram na justiça contra o senador e querem receber
uma indenização de 50 milhões de dólares, o equivalente
ao valor do prédio inteiro, apenas pelo atraso na entrega
da obra. Fora isso, como um Midas, tudo em que Estevão
põe a mão acaba gerando lucro para ele. Até em cima
do que não faz. Há duas semanas, o governo de Brasília
queria pagar 13 milhões de reais ao senador por uma obra
que ele deveria ter concluído há quatro anos. Ele era
sócio do ex-deputado Sérgio Naya e do deputado Paulo Octávio,
do PFL do Distrito Federal, na construção de um shopping.
Desistiu da obra e ainda pediu indenização.
Foi nessa
mesma época que o senador tomou gosto pela política. Desconhecido
para a maioria dos brasilienses, criou a Fundação Luiz
Estevão. Distribuía sopa, leite e material escolar para
as crianças da periferia. A caridade, é claro, era deduzida
do imposto de renda. Passou com folga no primeiro teste
eleitoral, embora um grupo de procuradores tenha tentado
cassar sua eleição por abuso de poder econômico. Em 1994,
foi o deputado distrital mais votado. Nesse período se
envolveu com uma questão muito polêmica. Conseguiu aprovar
um projeto em que uma de suas fazendas foi transformada
em área urbana. As terras se valorizaram 300 vezes.
Das catorze
empresas do senador Luiz Estevão, três estão inscritas
no Cadastro de Inadimplentes do governo, o Cadin, que
registra o nome de empresas ou pessoas que têm dívidas
com órgãos públicos. Dever, por si só, não é nenhuma mancha
no currículo de uma pessoa. O problema é que, em se tratando
de Luiz Estevão, não é dívida. É calote mesmo. Juntas,
as três empresas do senador têm contas a ajustar com o
Ministério da Fazenda, Caixa Econômica Federal, Receita
Federal, Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e
Social, o BNDES, e até o Banco Central. O próprio senador
Luiz Estevão constava como inadimplente no Cadin até abril
deste ano. Ao ser informado de que VEJA preparava uma
reportagem sobre parlamentares caloteiros, quitou a dívida
de 56 000 reais com a Receita Federal.
Estevão
chegou ao Senado com uma ficha partidária de bons serviços
prestados. No ano passado, ele coordenou uma bem-sucedida
operação de destruição das pretensões presidenciais do
governador de Minas Gerais, Itamar Franco. Na convenção
do PMDB, na qual o partido decidiu continuar no barco
de Fernando Henrique, abrindo mão de uma candidatura própria
à sucessão presidencial, Itamar Franco, que era contrário
à idéia, foi humilhado. Durante os quinze minutos em que
discursou, o ex-presidente ouviu vaias e xingamentos.
Por trás da claque estava o então deputado distrital Luiz
Estevão. Oito mil "militantes" do partido foram
juntados na periferia de Brasília para defenestrar Itamar
durante a convenção. Resultado: Itamar saiu humilhado
e o PMDB decidiu apoiar FH na reeleição. O resto da história
já é conhecido. O planejamento da missão aconteceu na
casa do amigo Roriz e dele participaram o presidente nacional
do PMDB, Jader Barbalho, e o ministro dos Transportes
Eliseu Padilha. Estevão ganhou fama de bom operador e
trânsito na esfera mais poderosa do partido.
Essas
boas relações lhe renderam algumas facilidades que senadores
de primeiro mandato normalmente não conhecem. Estevão
foi nomeado relator da Lei de Diretrizes Orçamentárias,
um cargo de prestígio normalmente ocupado por parlamentares
mais experientes. Depois, foi indicado um dos relatores
do Plano Plurianual, PPA, do governo, cargo a que renunciou,
depois de muita pressão, na sexta-feira. Em abril, conseguiu
receber 1,5 milhão de reais do Departamento Nacional de
Estradas de Rodagem, DNER. O curioso: o DNER, órgão do
Ministério dos Transportes, liberou às empresas do senador
uma dívida que tinha com a Ikal, a construtora fantasma
de Fábio Monteiro de Barros Filho, o homem do TRT de São
Paulo. Quando os pagamentos começaram, Estevão ainda não
havia sido envolvido no escândalo do TRT.
Prensado
pela CPI, Estevão pediu ajuda ao amigo Fernando Collor.
Foram dois telefonemas do ex-presidente ao senador, Antonio
Carlos Magalhães, um deles em pleno domingo:
Senador,
e o nosso amigo? perguntou Collor.
Que
amigo? O Luiz Estevão? respondeu ACM.
Sim,
é. Como está a situação dele? insistiu Collor.
A resposta
foi um seco "não posso interferir".
Com
reportagem de Valéria Blanc
e
Alexandre Oltramari
As acusações da CPI
Moreira Mariz
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O relatório
da CPI do Judiciário pede ao Ministério Público
que investigue o senador Luiz Estevão por:
1) Enriquecimento
ilícito
Por
não ter conseguido explicar os 34,28 milhões
de dólares que as suas empresas receberam de
contas do grupo Monteiro de Barros entre 1992
e 1998 (esse grupo é aquele envolvido com a
construção do TRT de São Paulo, a maior falcatrua
revelada pela CPI do Judiciário).
2) Atos
lesivos ao patrimônio público
Pelo
desvio de 169 milhões de reais dos 231 milhões
liberados pelo Tesouro Nacional para a construção
do prédio inacabado do TRT de São Paulo, onde
só foram efetivamente gastos cerca de 60 milhões
de reais (o prédio do TRT é aquele do famoso
juiz Nicolau-lau-lau).
3) Falsidade
ideológica
Pela apresentação de documentos
particulares de autenticidade duvidosa para
justificar os "vultosos negócios"
entre os grupos OK e Fábio Monteiro de Barros.
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Uma lista de crimes financeiros
Ana Araújo
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Chico Lopes: a retomada da rotina
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Não se pode dizer que a CPI dos Bancos não tenha
produzido resultados. Criada no final de março com
a bênção do presidente do PMDB, senador Jader Barbalho,
ela nasceu para ofuscar a CPI do Judiciário, patrocinada
pelo seu maior adversário, o presidente do Senado
e principal liderança do PFL, Antonio Carlos Magalhães.
Em oito meses de trabalho e após ter ouvido 41 depoimentos,
a CPI dos Bancos chegou ao fim pedindo ao Ministério
Público o enquadramento do ex-presidente do Banco
Central Francisco Lopes e de toda sua diretoria
numa longa lista de crimes. Entre eles, falsidade
ideológica, peculato (desvio de recursos públicos),
tráfico de influência, falso testemunho e advocacia
administrativa (defesa de interesses de empresas
privadas).
Para
chegar a essas conclusões contra a diretoria do
BC, a CPI se baseou na carta da Bolsa de Mercadorias
& Futuros (BM&F) usada para justificar o
salvamento dos bancos Marka e FonteCindam. Os senadores
concluíram que essa carta não passa de uma desculpa
esfarrapada. Ela foi pedida pelo próprio BC e escrita
depois que a decisão de vender os dólares subsidiados
já estava tomada. Os senadores não se convenceram
de que havia um risco de quebradeira generalizada
dos bancos.
Os
responsáveis pelos bancos Marka, o banqueiro Salvatore
Alberto Cacciola, e FonteCindam, Luis Antônio Gonçalves,
que receberam socorro do BC após a desvalorização
cambial, também não escaparam. Eles foram acusados
de tráfico de influência, crime de gestão temerária
e de dificultar o acesso a informações requisitadas
pela CPI, entre outras irregularidades. A CPI recomendou,
ainda, ao Tribunal de Contas da União que tome medidas
para que os diretores do BC devolvam a montanha
de 1,5 bilhão de reais que o governo gastou nessa
operação de socorro.
O
fim da CPI coincide com a retomada da rotina do
ex-presidente do BC. Lopes voltou ao trabalho em
sua empresa de consultoria, a Macrométrica, e tem
saído cada vez mais do isolamento. Os amigos estão
empenhados em conseguir um emprego para Lopes numa
universidade fora do país. Enquanto isso, o ex-presidente
do BC prepara sua defesa na Justiça. Segundo se
comenta, ele justificaria o depósito de 1,6 milhão
de dólares que mantém no exterior e que nunca foi
declarado ao Fisco como herança recebida do pai,
Lucas Lopes, ex-ministro da Fazenda no governo Kubitschek.
A
CPI dos Bancos gerou frutos. O BC mudou algumas
regras para evitar a repetição dos episódios Marka
e FonteCindam. Limitou o risco de aplicações das
instituições financeiras no câmbio e proibiu que
recursos do Banco Central fossem usados para salvar
fundos em dificuldades. O resultado final da CPI,
entretanto, ficou aquém das expectativas. Ela não
conseguiu avançar nada sobre as denúncias de vazamento
de informações na mudança do câmbio e o grande lucro
de muitos bancos nesse período. "Faltou nessa
CPI um zelador, um motorista, um genro ou uma secretária
que trouxesse fatos mais concretos", explica
o relator da comissão, senador João Alberto.
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