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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
O trato dos artistas
da chuteira
Tornado um centro voltado todo para
a exportação,o futebol brasileiro vive
situação humilhante
Alex foi considerado o melhor jogador do Campeonato
Brasileiro do ano passado. Fez jogadas bonitas, deu passes que os
locutores costumam chamar de açucarados aos companheiros,
marcou ele próprio muitos gols. Foi o maestro que conduziu
seu time, o Cruzeiro, à conquista do título e, graças
a isso, mereceu seguidas convocações para a seleção
brasileira. Ultimamente, Alex anda sumido. Foi jogar na Turquia.
Ainda se fosse para a Espanha ou a Itália, as duas mecas
douradas do futebol... Não: Turquia. Ainda se fosse um jogador
mediano, desses que engrossam o populoso baixo clero do futebol...
Não: era Alex, jogador de seleção. E foi jogar
na Turquia.
Que tem a Turquia que o Brasil não
tem? Tem mais problemas nas fronteiras, isso seguramente. Com uma
ponta, a que se afunda Ásia adentro, ela encosta no Iraque.
Está portanto quase no centro do furacão. Se considerarmos
que o país abriga uma irredenta minoria curda, povo sem Estado,
como os palestinos, que há muito namora com a possibilidade
de reunir-se com os curdos do Iraque, então a Turquia já
nem está perto: está no centro mesmo do furacão.
Pela outra ponta, ela encosta na Europa. Ou melhor, faz parte da
Europa, uma vez que um seu pedaço, ao pular os estreitos
de Bósforo e Dardanelos, se instala no continente europeu.
Mas instala-se mal. A Turquia é vista por quem se considera
membro pleno da Europa como um corpo estranho. Há anos ela
pleiteia o ingresso na União Européia, e há
anos é mantida na geladeira. Um país de maioria muçulmana
requerendo a identidade européia, onde já se viu?
Uma população de raízes fincadas na barbárie
asiática querendo freqüentar o clube... Não.
Do lado social e econômico, a Turquia
perde para o Brasil. Seu PIB é de 200 bilhões de dólares,
contra 500 bilhões de dólares do Brasil. Em matéria
de índice de desenvolvimento humano, que combina indicadores
econômicos e sociais, o Brasil ocupa o 72º lugar, entre
os 177 que figuram na lista deste ano da ONU, e a Turquia o 88º.
A Turquia também não tem Carnaval, nem feijoada, nem
Maracanã e não só Alex, mas uma multidão
de outros profissionais do mesmo ramo preferem a Turquia. Ou, quando
não é a Turquia, é a Ucrânia, e quando
não é a Ucrânia é a Rússia
listada num deprimente 105º lugar, contra um bom 39º para
o Brasil, num ranking da revista The Economist que classificou
os países pela qualidade de vida.
Num artigo sobre Maradona, o escritor inglês
Martin Amis escreveu que os times sul-americanos de futebol funcionam
como "campos de treinamento e recrutamento para os clubes da Europa".
A sentença é dura e real. É a isso que estão
reduzidos os gloriosos Corinthians, Flamengo, Atlético Mineiro
ou Internacional. O que ocorre no universo do futebol é uma
regressão a padrões colonialistas do tipo mais cruel,
aqueles em que a dominação do forte sobre o fraco
se confunde com o "trato dos viventes", como o historiador Luiz
Felipe de Alencastro gentilmente chamou o tráfico de escravos,
no título de seu precioso livro sobre o assunto. De permeio
fica um forte cheiro de negócios escusos. E o futebol sul-americano,
em especial o brasileiro, o maior exportador mundial, é relegado
a uma situação humilhante. Sim, humilhante
será que ninguém percebeu ainda?
Os clubes brasileiros tratam seus estoques
de craques (a linguagem de mercadoria se justifica) como bezerros
para a engorda. Permanecem até ficar no ponto. Às
vezes o ponto chega cedo. Diego, do Santos, despontou aos 17 anos
e aos 19 já tinha ido embora. A produção de
artistas da chuteira para exportação é tão
abundante e contínua quanto a de artigos piratas do Paraguai
para as bancadas dos camelôs e muito menos regulamentada do
que a de geladeiras das fábricas brasileiras para a Argentina.
Mas não são só os clubes que impulsionam as
vendas. Os próprios jogadores mal vestem a primeira camisa
de titular e já ardem de ansiedade para ser exportados. A
cultura que se criou é essa. Bom é sair, e quanto
antes melhor. Nem que seja para gelar na Sibéria ou pegar
fogo nas areias das Arábias. Quem fica morre com o mico na
mão. O resultado é que os clubes não conseguem
manter seus elencos por mais que alguns meses. O Cruzeiro perdeu
Alex e muitos outros e, de campeão no ano passado, caiu para
o medíocre pelotão intermediário, neste ano.
No próprio decorrer do campeonato clubes vão perdendo
pedaços. O campeonato se desmoraliza.
Não pode ser questão só
de dinheiro. Impossível que no Brasil, onde tanto se ama
o futebol, as torcidas são numerosas e a televisão
tem estrutura para bancar campeonatos, não se consigam armar
clubes tão sólidos quanto na Turquia ou na Ucrânia.
Há mais coisas a cultura perversa, o gosto pela desorganização,
a dinheirama que corre por caminhos rápidos e obscuros, a
omissão do poder público. "O jeito é tocar
um tango argentino", cantou o poeta Manuel Bandeira, quando se viu
encurralado por um diagnóstico de tuberculose. O jeito é
acompanhar o campeonato espanhol.
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