Edição 1881 . 24 de novembro de 2004

Índice
Stephen Kanitz
Gustavo Franco
Millôr
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
VEJA on-line
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Entrevista: Tomás Eloy Martínez
"Somos invisíveis"

O escritor argentino diz que o mundo não
enxerga a América Latina e que os países
do continente pecam por não se unirem


Malu Gaspar

 

Fabiano Accorsi

"A política é como o romance. Políticos e escritores são especialistas na arte de mentir"

Aos 70 anos, o escritor argentino Tomás Eloy Martínez se tornou uma celebridade no mundo literário. Seus livros estão traduzidos em 25 línguas e distribuídos em mais de trinta países. No Brasil, ele ficou conhecido do público quando lançou Santa Evita, uma ficção em que o cadáver da mulher de Juan Perón circula pelo mundo insepulto, ao sabor das instabilidades políticas do país. Suas obras são polêmicas e veneradas em seu país natal e não é difícil perceber por quê. Martínez é especialista em misturar ficção com realidade para tratar de temas caros à alma e à história argentina, como os mitos do peronismo, o tango e a eterna decepção com os políticos. Professor de estudos latino-americanos na Universidade Rutgers, em New Jersey, ele divide seu tempo entre o ensino e os romances. Como professor e intelectual, aproveita sua experiência de mais de quarenta anos de jornalismo para analisar a realidade argentina e latino-americana. Nesses artigos, garante que não há um pingo de ficção. Já em seus romances a mistura é tão verossímil que a discussão sobre o que é fato e o que é invenção confunde até os historiadores, provocando polêmicas surreais que ele não se preocupa muito em esclarecer.  

Veja – O mundo não entende a América Latina?
Martínez – Pior: o mundo não enxerga a América Latina. É como se ela não existisse. Quando formei meu programa de estudos latino-americanos na Universidade Rutgers, não havia um programa de estudos brasileiros. Fiz a sugestão a altas autoridades da universidade e a primeira pergunta que me fizeram foi: "Mas por quê?". E eu respondi a eles: "O Brasil é como um gigante que lhes dá as costas. Em algum momento, esse gigante estará na sua frente, e vai ser tão grande que vocês não saberão o que fazer com ele. É melhor que o entendam agora". Temos o programa, mas ainda há muito desconhecimento sobre nossos países nos Estados Unidos.

Veja – Há alguma intenção de passar mensagens políticas nos temas que o senhor escolhe para os romances?
Martínez – Eu não penso nisso. Quando escrevo, só quero narrar. Os temas que escolho são apenas minhas obsessões pessoais. Tanto assim que, em geral, sonho meus romances. Acordo muitas vezes à noite e registro num gravador as histórias que sonho. Falo bem devagar e volto a dormir. Em O Cantor de Tango, um estudante americano se defronta com o caos argentino e não entende nada. É um contraponto ao caos americano com os atentados de 11 de setembro. A Argentina se entrega à solidariedade, à repetição e à esperança. Nos EUA, o que se produz é um isolamento completo do expansionismo imperial.  

Veja – O senhor acha que essa doutrina tem fôlego para continuar nos próximos quatro anos sem obstáculos?
Martínez – Sem dúvida. Se essa cruzada terminar, a razão de ser de Bush se perde. Os objetivos dessa doutrina, de mais guerras, estão muito claros. Primeiro atacarão o Irã, depois a Coréia do Norte. Também devemos esperar um recrudescimento do conflito entre Palestina e Israel. Sem falar na cruzada de exportação da democracia americana, do sentimento antigay e contra o aborto. O americano comum, que conheço bem, está muito bem com isso. Eu disse à auxiliar de meu dentista outro dia que a guerra contra o Iraque era injusta, era só pelo petróleo. E ela me disse: "Bem, se precisamos de petróleo e somos mais fortes, temos de tomá-lo de alguém". É assim que pensa boa parte do povo americano.  

Veja – O que mudou em sua vida nos EUA depois dos ataques de 11 de setembro?
Martínez – Minha editora me manda pacotes com livros do Brasil, e, desde então, todos chegam violados. Fui ao correio reclamar duas vezes. E a atendente me disse que estavam fazendo isso para o meu próprio bem. Que podiam me mandar anthrax ou materiais perigosos e que isso era necessário para me proteger. É obvio que não fiquei satisfeito. Mas costumo dizer que só trabalho nos Estados Unidos. Eu vivo "na Argentina", onde passo três ou quatro meses ao ano.  

Veja – Qual é sua opinião sobre o engajamento político de escritores? Amigos seus, como Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa, tiveram experiências ruins com isso.
Martínez – García Márquez não é politicamente engajado ou ligado a Cuba. Ele é, sim, amigo pessoal de Fidel Castro. E crê que sua ligação com Fidel lhe permitiu que muitos escritores, intelectuais e políticos fossem a Cuba e entrassem na luta contra o isolamento do país. Ele interveio especialmente por isso. Já Vargas Llosa, quando se candidatou à Presidência, fez muito mal. Perdeu as eleições no último momento para um desconhecido Fujimori. Nós, escritores, somos todos utopistas, gente que crê em mundos ideais, que raramente se parecem com o mundo em que vivemos.

Veja – Os políticos em seus livros são patéticos, caricatos, corruptos. Há políticos em que o senhor acredite?
Martínez – Claro que há. Pode haver bons políticos. Mas a política, realmente, nunca me interessou, até que conheci Perón. O mundo da minha infância e adolescência estava impregnado pela figura de Perón, poderosa e odiada em minha família. Quando ele foi para o exílio, converteu-se, para muitas pessoas pobres, num mito. Um dia fui à Espanha fazer uma reportagem sobre os trinta anos do regime de Franco. Foi quando a revolução eclodiu na Argentina e me mandaram procurar Perón, que estava lá. E ele queria falar, mas, como exilado, não podia emitir opiniões políticas. Então fizemos um acordo. Faríamos a entrevista, eu a publicaria e ele me desmentiria. Então, eu mostraria as gravações para as agências de notícias e ficaria tudo por isso mesmo. Deu certo. Foi quando descobri que a política é essencialmente como o romance. Os políticos, como os escritores, são especialistas na arte de mentir.
 

Veja – Foi por isso que Perón o fascinou tanto?
Martínez – Na verdade, decepcionei-me com Perón. Descobri que não era tão talentoso como eu imaginava e que sua cultura era muito pequena. Até ali, ele havia lido apenas alguns tratados militares e algo de história militar. Ele impressionava pelo carisma, pela postura. Isso, sim, me fascinou. Concluí que, se a figura maior da política argentina era tão irrisória, mais curiosos ainda seriam a política e os outros políticos. Passei a me interessar. Os políticos mudam sempre de acordo com o contexto. Eles pensam mais em si mesmos do que no bem-estar da comunidade, porque crêem que um está subordinado ao outro.  

Veja – O senhor conhece o presidente Lula?
Martínez – Eu o conheci em 1993, em Princeton, numa reunião de líderes de esquerda na América Latina. Falamos por uns dez minutos. Estavam também Cárdenas, Vargas Llosa e outros. Eu pensei: "Esse homem nunca poderá ser presidente do Brasil". Ele não me pareceu preparado, na época, para enfrentar toda a complexidade de um país com tantas disparidades regionais, tantas questões difíceis. Mas, também, nenhum dos que estavam ali me parecia preparado. Só Fernando Henrique Cardoso, que conheço desde 1982, e que também estava lá, me parecia digno de governar seu país. Eu achava que ele seria um grande presidente. Depois, me dei conta de que sua figura era tão forte que, no exterior, talvez importasse mais ele que o Brasil.

Veja – Em suas obras, o senhor retrata sempre um ambiente de caos social. Ao mesmo tempo, seu discurso fora dos livros é otimista. Por quê?
Martínez – Se eu não tivesse utopias, não poderia viver. É possível retratar uma realidade horrível e acreditar num mundo melhor. Eu creio, por exemplo, que a América Latina amadurecerá e encontrará uma maneira de se unir e desenvolver suas potencialidades, ainda que não possamos vislumbrar isso agora. Hoje, infelizmente, somos como os partidos de esquerda. Já viu como eles funcionam? Apenas se forma um, logo já são dois. E em seguida se transformam em quatro. A América Latina é um grande partido de esquerda. Precisa aprender a se unir.

Veja – Quase sempre, diante de um novo livro seu, críticos e leitores se empenham em separar o que é verdade do que é mentira. Isso o incomoda?
Martínez – Quando lancei Santa Evita, o Clarín, o maior jornal do país, publicou uma página inteira sobre as peripécias do cadáver de Evita, copiada de meu romance, como se fosse a mais pura verdade. E não era. O mesmo em O Cantor de Tango. Nada daquilo realmente ocorreu, mas as pessoas confundem. Ali, a única coisa real é a destruição de Buenos Aires. O resto é imaginação, ainda que pareça real. Jornalistas como Norman Mailer, Truman Capote e outros desenvolveram técnicas que consistiam em dar aos fatos reais uma aparência de novela. Naqueles livros não há dados falsos, apesar da narrativa romanceada. Eu pensei: vou inverter essa técnica e contar acontecimentos falsos como se fossem fatos reais, como se fosse jornalismo. Então, se digo "entrevistei tal pessoa" ou "estava no documento tal", parece que é real. Quando escrevo colunas jornalísticas, nunca coloco um dado falso. Mas, em meus romances, desconfie de tudo. O romance é um jogo. Se decide agir como se ele fosse real, isso é problema do leitor. Eu sempre advirto que a palavra romance, impressa na capa de um livro, significa fábula. É tudo mentira.
 

Veja – Sobre o que será seu próximo livro?
Martínez – Será sobre o cotidiano dos argentinos na ditadura militar. Um casal, uma mulher de 70 anos e seu marido de 30, vivendo um frenesi amoroso em meio a fatos do cotidiano, sem campos de concentração nem tortura, desaparecidos, nada disso. Nem política ou corrupção, apenas bastante teatro, música, e tudo mais que pensavam os argentinos que viveram durante a ditadura.

Veja – O caos social que se produziu na Argentina em 2001 é o pano de fundo de seu último livro, O Cantor de Tango. Já dá para respirar aliviado?
Martínez – A sensação que se tinha na época era de abismo, de fim de um país. A pergunta que eu me fazia era: será que um país pode acabar, morrer? Havia uma grande anarquia. Tivemos cinco presidentes em doze dias. Uma vez, em 1820, houve três governadores na província de Buenos Aires. Para nós aquilo já foi escandaloso. Cinco presidentes em doze dias era mais assombroso ainda. Havia destruição por toda parte. Os bancos, o governo, a polícia, a moeda, instituições que garantem a existência de um país, tudo estava em ruínas. É muito fácil destruir. Já construir é tarefa bem maior. As coisas estão lentamente se restaurando na Argentina. Temos ainda uma pobreza bastante grave, a saúde sofreu muito, a educação também. Saúde e educação eram valores muito sólidos na Argentina. Tudo isso veio abaixo.

Veja – O governo Kirchner está conduzindo bem o processo?
Martínez – Em termos de crescimento econômico, acho que o país está num bom caminho. Fizemos acordos internacionais que podem aliviar a situação. Descobrimos, com a tragédia, que a solidariedade internacional e sobretudo regional é muito importante. Fortaleceu-se a idéia de alianças com os países da América Latina, o Brasil em especial.

Veja – Os dois países não estão no melhor momento de suas relações. Brigamos agora, no comércio exterior, por causa de geladeiras e fogões.
Martínez – Essas brigas comerciais são problemas de governo, de empresas. Outra coisa é o povo, e nossos povos são muito amigos um do outro. Nas escolas militares, durante a ditadura, quando se discutiam as possibilidades de guerra, o maior inimigo era o Brasil. Brigas por geladeiras e fogões são até reconfortantes.  

Veja – O Mercosul, assim, parece-lhe viável?
Martínez – Acabo de vir da reunião do Fórum Iberoamericano, em Cartagena de Índias, que reúne intelectuais, políticos e homens de negócios de toda a América Latina, Espanha e Portugal. Estiveram lá empresários brasileiros importantes e também o ministro Palocci. O Mercosul foi muito debatido, mas ainda não se encontrou um modo de transformá-lo em algo semelhante à União Européia. Para nós ainda é uma utopia. Mas uma utopia razoável.

Veja – Quando Lula e Kirchner foram eleitos, o senhor escreveu um artigo combatendo a análise corrente nos Estados Unidos que via os dois como líderes populistas. Por quê?
Martínez – Os dois têm projetos de política social e econômica similares. Suas políticas são muito conservadoras e as taxas de juro muito altas. Não têm nada de populistas. Mas, nos EUA, Lula e Kirchner são comparados com o presidente venezuelano Hugo Chávez por setores da imprensa pouco informados. É um erro maiúsculo. Mas, pelo menos, não se crê mais em ameaça comunista, esquerdista, ou coisa assim.

 
 
 
 
topovoltar