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Entrevista:
Tomás Eloy Martínez "Somos
invisíveis" O
escritor argentino diz que
o mundo não enxerga a América Latina e que os países do
continente pecam por não se unirem  Malu
Gaspar
Fabiano Accorsi
 | "A
política é como o romance.
Políticos e escritores
são especialistas na arte
de mentir" | | Aos
70 anos, o escritor argentino Tomás Eloy Martínez se tornou uma
celebridade no mundo literário. Seus livros estão traduzidos em
25 línguas e distribuídos em mais de trinta países. No Brasil,
ele ficou conhecido do público quando lançou Santa Evita,
uma ficção em que o cadáver da mulher de Juan Perón
circula pelo mundo insepulto, ao sabor das instabilidades políticas do
país. Suas obras são polêmicas e veneradas em seu país
natal e não é difícil perceber por quê. Martínez
é especialista em misturar ficção com realidade para tratar
de temas caros à alma e à história argentina, como os mitos
do peronismo, o tango e a eterna decepção com os políticos.
Professor de estudos latino-americanos na Universidade Rutgers, em New Jersey,
ele divide seu tempo entre o ensino e os romances. Como professor e intelectual,
aproveita sua experiência de mais de quarenta anos de jornalismo para analisar
a realidade argentina e latino-americana. Nesses artigos, garante que não
há um pingo de ficção. Já em seus romances a mistura
é tão verossímil que a discussão sobre o que é
fato e o que é invenção confunde até os historiadores,
provocando polêmicas surreais que ele não se preocupa muito em esclarecer.
Veja
O mundo não entende a América Latina? Martínez
Pior: o mundo não enxerga a América Latina. É como
se ela não existisse. Quando formei meu programa de estudos latino-americanos
na Universidade Rutgers, não havia um programa de estudos brasileiros.
Fiz a sugestão a altas autoridades da universidade e a primeira pergunta
que me fizeram foi: "Mas por quê?". E eu respondi a eles: "O Brasil é
como um gigante que lhes dá as costas. Em algum momento, esse gigante estará
na sua frente, e vai ser tão grande que vocês não saberão
o que fazer com ele. É melhor que o entendam agora". Temos o programa,
mas ainda há muito desconhecimento sobre nossos países nos Estados
Unidos. Veja
Há alguma intenção de passar mensagens políticas
nos temas que o senhor escolhe para os romances? Martínez
Eu não penso nisso. Quando escrevo, só quero narrar. Os temas
que escolho são apenas minhas obsessões pessoais. Tanto assim que,
em geral, sonho meus romances. Acordo muitas vezes à noite e registro num
gravador as histórias que sonho. Falo bem devagar e volto a dormir. Em
O Cantor de Tango, um estudante americano se defronta com o caos argentino
e não entende nada. É um contraponto ao caos americano com os atentados
de 11 de setembro. A Argentina se entrega à solidariedade, à repetição
e à esperança. Nos EUA, o que se produz é um isolamento completo
do expansionismo imperial. Veja
O senhor acha que essa doutrina tem fôlego para continuar nos próximos
quatro anos sem obstáculos? Martínez
Sem dúvida. Se essa cruzada terminar, a razão de ser de Bush
se perde. Os objetivos dessa doutrina, de mais guerras, estão muito claros.
Primeiro atacarão o Irã, depois a Coréia do Norte. Também
devemos esperar um recrudescimento do conflito entre Palestina e Israel. Sem falar
na cruzada de exportação da democracia americana, do sentimento
antigay e contra o aborto. O americano comum, que conheço bem, está
muito bem com isso. Eu disse à auxiliar de meu dentista outro dia que a
guerra contra o Iraque era injusta, era só pelo petróleo. E ela
me disse: "Bem, se precisamos de petróleo e somos mais fortes, temos de
tomá-lo de alguém". É assim que pensa boa parte do povo americano.
Veja
O que mudou em sua vida nos EUA depois dos ataques de 11 de setembro?
Martínez Minha editora me manda pacotes
com livros do Brasil, e, desde então, todos chegam violados. Fui ao correio
reclamar duas vezes. E a atendente me disse que estavam fazendo isso para o meu
próprio bem. Que podiam me mandar anthrax ou materiais perigosos e que
isso era necessário para me proteger. É obvio que não fiquei
satisfeito. Mas costumo dizer que só trabalho nos Estados Unidos. Eu vivo
"na Argentina", onde passo três ou quatro meses ao ano.
Veja Qual é sua opinião
sobre o engajamento político de escritores? Amigos seus, como Gabriel García
Márquez e Mario Vargas Llosa, tiveram experiências ruins com isso.
Martínez García Márquez não
é politicamente engajado ou ligado a Cuba. Ele é, sim, amigo pessoal
de Fidel Castro. E crê que sua ligação com Fidel lhe permitiu
que muitos escritores, intelectuais e políticos fossem a Cuba e entrassem
na luta contra o isolamento do país. Ele interveio especialmente por isso.
Já Vargas Llosa, quando se candidatou à Presidência, fez muito
mal. Perdeu as eleições no último momento para um desconhecido
Fujimori. Nós, escritores, somos todos utopistas, gente que crê em
mundos ideais, que raramente se parecem com o mundo em que vivemos.
Veja Os políticos
em seus livros são patéticos, caricatos, corruptos. Há políticos
em que o senhor acredite? Martínez Claro que há.
Pode haver bons políticos. Mas a política, realmente, nunca me interessou,
até que conheci Perón. O mundo da minha infância e adolescência
estava impregnado pela figura de Perón, poderosa e odiada em minha família.
Quando ele foi para o exílio, converteu-se, para muitas pessoas pobres,
num mito. Um dia fui à Espanha fazer uma reportagem sobre os trinta anos
do regime de Franco. Foi quando a revolução eclodiu na Argentina
e me mandaram procurar Perón, que estava lá. E ele queria falar,
mas, como exilado, não podia emitir opiniões políticas. Então
fizemos um acordo. Faríamos a entrevista, eu a publicaria e ele me desmentiria.
Então, eu mostraria as gravações para as agências de
notícias e ficaria tudo por isso mesmo. Deu certo. Foi quando descobri
que a política é essencialmente como o romance. Os políticos,
como os escritores, são especialistas na arte de mentir.
Veja
Foi por isso que Perón o fascinou tanto? Martínez
Na verdade, decepcionei-me com Perón. Descobri que não era
tão talentoso como eu imaginava e que sua cultura era muito pequena. Até
ali, ele havia lido apenas alguns tratados militares e algo de história
militar. Ele impressionava pelo carisma, pela postura. Isso, sim, me fascinou.
Concluí que, se a figura maior da política argentina era tão
irrisória, mais curiosos ainda seriam a política e os outros políticos.
Passei a me interessar. Os políticos mudam sempre de acordo com o contexto.
Eles pensam mais em si mesmos do que no bem-estar da comunidade, porque crêem
que um está subordinado ao outro.
Veja O senhor conhece o
presidente Lula? Martínez Eu o conheci em 1993, em Princeton,
numa reunião de líderes de esquerda na América Latina. Falamos
por uns dez minutos. Estavam também Cárdenas, Vargas Llosa e outros.
Eu pensei: "Esse homem nunca poderá ser presidente do Brasil". Ele não
me pareceu preparado, na época, para enfrentar toda a complexidade de um
país com tantas disparidades regionais, tantas questões difíceis.
Mas, também, nenhum dos que estavam ali me parecia preparado. Só
Fernando Henrique Cardoso, que conheço desde 1982, e que também
estava lá, me parecia digno de governar seu país. Eu achava que
ele seria um grande presidente. Depois, me dei conta de que sua figura era tão
forte que, no exterior, talvez importasse mais ele que o Brasil.
Veja Em suas obras, o senhor
retrata sempre um ambiente de caos social. Ao mesmo tempo, seu discurso fora dos
livros é otimista. Por quê? Martínez Se eu
não tivesse utopias, não poderia viver. É possível
retratar uma realidade horrível e acreditar num mundo melhor. Eu creio,
por exemplo, que a América Latina amadurecerá e encontrará
uma maneira de se unir e desenvolver suas potencialidades, ainda que não
possamos vislumbrar isso agora. Hoje, infelizmente, somos como os partidos de
esquerda. Já viu como eles funcionam? Apenas se forma um, logo já
são dois. E em seguida se transformam em quatro. A América Latina
é um grande partido de esquerda. Precisa aprender a se unir.
Veja Quase sempre, diante
de um novo livro seu, críticos e leitores se empenham em separar o que
é verdade do que é mentira. Isso o incomoda? Martínez
Quando lancei Santa Evita, o Clarín, o maior jornal
do país, publicou uma página inteira sobre as peripécias
do cadáver de Evita, copiada de meu romance, como se fosse a mais pura
verdade. E não era. O mesmo em O Cantor de Tango. Nada daquilo realmente
ocorreu, mas as pessoas confundem. Ali, a única coisa real é a destruição
de Buenos Aires. O resto é imaginação, ainda que pareça
real. Jornalistas como Norman Mailer, Truman Capote e outros desenvolveram técnicas
que consistiam em dar aos fatos reais uma aparência de novela. Naqueles
livros não há dados falsos, apesar da narrativa romanceada. Eu pensei:
vou inverter essa técnica e contar acontecimentos falsos como se fossem
fatos reais, como se fosse jornalismo. Então, se digo "entrevistei tal
pessoa" ou "estava no documento tal", parece que é real. Quando escrevo
colunas jornalísticas, nunca coloco um dado falso. Mas, em meus romances,
desconfie de tudo. O romance é um jogo. Se decide agir como se ele fosse
real, isso é problema do leitor. Eu sempre advirto que a palavra romance,
impressa na capa de um livro, significa fábula. É tudo mentira.
Veja
Sobre o que será seu próximo livro? Martínez
Será sobre o cotidiano dos argentinos na ditadura militar. Um casal,
uma mulher de 70 anos e seu marido de 30, vivendo um frenesi amoroso em meio a
fatos do cotidiano, sem campos de concentração nem tortura, desaparecidos,
nada disso. Nem política ou corrupção, apenas bastante teatro,
música, e tudo mais que pensavam os argentinos que viveram durante a ditadura.
Veja
O caos social que se produziu na Argentina em 2001 é o pano de
fundo de seu último livro, O Cantor de Tango. Já dá
para respirar aliviado? Martínez
A sensação que se tinha na época era de abismo, de
fim de um país. A pergunta que eu me fazia era: será que um país
pode acabar, morrer? Havia uma grande anarquia. Tivemos cinco presidentes em doze
dias. Uma vez, em 1820, houve três governadores na província de Buenos
Aires. Para nós aquilo já foi escandaloso. Cinco presidentes em
doze dias era mais assombroso ainda. Havia destruição por toda parte.
Os bancos, o governo, a polícia, a moeda, instituições que
garantem a existência de um país, tudo estava em ruínas. É
muito fácil destruir. Já construir é tarefa bem maior. As
coisas estão lentamente se restaurando na Argentina. Temos ainda uma pobreza
bastante grave, a saúde sofreu muito, a educação também.
Saúde e educação eram valores muito sólidos na Argentina.
Tudo isso veio abaixo. Veja
O governo Kirchner está conduzindo bem o processo? Martínez
Em termos de crescimento econômico, acho que o país está
num bom caminho. Fizemos acordos internacionais que podem aliviar a situação.
Descobrimos, com a tragédia, que a solidariedade internacional e sobretudo
regional é muito importante. Fortaleceu-se a idéia de alianças
com os países da América Latina, o Brasil em especial.
Veja Os dois países
não estão no melhor momento de suas relações. Brigamos
agora, no comércio exterior, por causa de geladeiras e fogões. Martínez
Essas brigas comerciais são problemas de governo, de empresas. Outra
coisa é o povo, e nossos povos são muito amigos um do outro. Nas
escolas militares, durante a ditadura, quando se discutiam as possibilidades de
guerra, o maior inimigo era o Brasil. Brigas por geladeiras e fogões são
até reconfortantes. Veja
O Mercosul, assim, parece-lhe viável? Martínez
Acabo de vir da reunião do Fórum Iberoamericano, em Cartagena
de Índias, que reúne intelectuais, políticos e homens de
negócios de toda a América Latina, Espanha e Portugal. Estiveram
lá empresários brasileiros importantes e também o ministro
Palocci. O Mercosul foi muito debatido, mas ainda não se encontrou um modo
de transformá-lo em algo semelhante à União Européia.
Para nós ainda é uma utopia. Mas uma utopia razoável.
Veja Quando Lula e Kirchner
foram eleitos, o senhor escreveu um artigo combatendo a análise corrente
nos Estados Unidos que via os dois como líderes populistas. Por quê? Martínez
Os dois têm projetos de política social e econômica similares.
Suas políticas são muito conservadoras e as taxas de juro muito
altas. Não têm nada de populistas. Mas, nos EUA, Lula e Kirchner
são comparados com o presidente venezuelano Hugo Chávez por setores
da imprensa pouco informados. É um erro maiúsculo. Mas, pelo menos,
não se crê mais em ameaça comunista, esquerdista, ou coisa
assim. |