|
|
Carta
ao leitor
O contrato animal
Edison Russo
 |
| A domesticação das espécies
propiciou um salto evolutivo à humanidade |
A reportagem especial de VEJA que começa
na página
114 não pretende retratar a evolução
do mercado de produtos para animais de estimação nem
se aprofundar nos cuidados com que os humanos cercam suas mascotes.
Mais do que discorrer sobre animais, seu objetivo é falar
sobre nós mesmos, humanos, e a ambígua relação
que mantemos com as outras espécies que nos rodeiam
desde o amor, por vezes aparentemente desmedido, despejado sobre
os companheiros de quatro patas até a eficiência produtiva
com que as transformamos em comida.
A relação do homem com os bichos
remonta à aurora dos tempos, e a ambigüidade sempre
foi sua marca. Nossos ancestrais temiam-nos, veneravam-nos, sacrificavam-nos,
pintavam-nos em paredes de cavernas ou na própria pele. A
domesticação de determinadas espécies propiciou
um dos maiores saltos civilizatórios da história humana.
O lugar de cada um nessa relação nunca produziu dúvidas:
o homem era o ser superior, lá bem no alto da pirâmide.
"Que ele domine sobre os peixes do mar, sobre os pássaros
do céu, sobre o gado, sobre toda a terra e sobre todos os
répteis que nela rastejam", diz o Deus do Gênesis.
Hoje, a ciência tem menos certezas. Todas as características
que pareciam distinguir os humanos, da linguagem à fabricação
de ferramentas, são identificadas em outras espécies.
O historiador inglês Felipe Fernández-Armesto diz que
não existe nenhuma justificativa filosófica ou biológica
para o poder que nos atribuímos. Armesto, no entanto, não
é contra o consumo de carne animal, como diz no depoimento
publicado nesta reportagem nem humana, acrescenta, como bom
provocador. Outra estrela do mundo acadêmico, o filósofo
australiano Peter Singer, defende a opinião oposta: nada
justifica o sofrimento infligido aos animais destinados ao consumo
humano. Um embate de idéias que ajuda a entender as crescentes
responsabilidades das pessoas com o mundo natural.
|