Edição 1881 . 24 de novembro de 2004

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O contrato animal


Edison Russo
A domesticação das espécies propiciou um salto evolutivo à humanidade

A reportagem especial de VEJA que começa na página 114 não pretende retratar a evolução do mercado de produtos para animais de estimação nem se aprofundar nos cuidados com que os humanos cercam suas mascotes. Mais do que discorrer sobre animais, seu objetivo é falar sobre nós mesmos, humanos, e a ambígua relação que mantemos com as outras espécies que nos rodeiam – desde o amor, por vezes aparentemente desmedido, despejado sobre os companheiros de quatro patas até a eficiência produtiva com que as transformamos em comida.

A relação do homem com os bichos remonta à aurora dos tempos, e a ambigüidade sempre foi sua marca. Nossos ancestrais temiam-nos, veneravam-nos, sacrificavam-nos, pintavam-nos em paredes de cavernas ou na própria pele. A domesticação de determinadas espécies propiciou um dos maiores saltos civilizatórios da história humana. O lugar de cada um nessa relação nunca produziu dúvidas: o homem era o ser superior, lá bem no alto da pirâmide. "Que ele domine sobre os peixes do mar, sobre os pássaros do céu, sobre o gado, sobre toda a terra e sobre todos os répteis que nela rastejam", diz o Deus do Gênesis. Hoje, a ciência tem menos certezas. Todas as características que pareciam distinguir os humanos, da linguagem à fabricação de ferramentas, são identificadas em outras espécies. O historiador inglês Felipe Fernández-Armesto diz que não existe nenhuma justificativa filosófica ou biológica para o poder que nos atribuímos. Armesto, no entanto, não é contra o consumo de carne animal, como diz no depoimento publicado nesta reportagem – nem humana, acrescenta, como bom provocador. Outra estrela do mundo acadêmico, o filósofo australiano Peter Singer, defende a opinião oposta: nada justifica o sofrimento infligido aos animais destinados ao consumo humano. Um embate de idéias que ajuda a entender as crescentes responsabilidades das pessoas com o mundo natural.

 
 
 
 
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