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André
Petry
Quem é o criminoso?
"O fundamental, no caso das drogas, parece
ser a substituição do enfoque repressivo e
policial por um mais humano e generoso e,
em certo sentido, também mais pragmático"
Outro dia, durante uma conversa despretensiosa,
um dos líderes da Central Única de Favelas (Cufa),
entidade surgida no Rio de Janeiro para representar os favelados
do país, descrevia uma cena que presenciou durante anos a
fio em sua vida: "É o bacana da Zona Sul estacionar seu Mitsubishi
no pé do morro e comprar cocaína de um garotinho de
12 anos". Em seguida, fez uma pergunta perturbadora: "Quem é
o criminoso? O bacana da Zona Sul ou o garoto de 12 anos?". E deu
a resposta: "Para vocês, o garoto de 12 anos tem de ser preso
porque ele é um traficante de drogas. Para nós, tem
de prender o bacana da Zona Sul porque ele está aliciando
menores para o crime". Não resta dúvida de que a situação
retrata um dilema poderoso: de um lado, tem-se uma vítima
do vício induzida ao crime de comprar drogas e, de outro,
tem-se uma vítima da pobreza e da desigualdade induzida ao
crime de vendê-las. Na cegueira legal em que vivemos, a solução
é simples: prendem-se vendedor e comprador.
Começa agora a surgir uma alternativa
mais realista com a intenção do governo federal de
implantar a chamada "política de redução de
danos". Ou seja: em vez de punir os usuários, tratando-os
como criminosos, passa-se a encará-los como doentes e a atendê-los
de modo a reduzir os riscos a que estão expostos como
overdose, aids, hepatite e outras doenças. É mais
realista porque a repressão ao uso de drogas é uma
política bem-intencionada, na qual se pretende a purificação
pela via da punição, mas que tem se mostrado sistematicamente
falha. A idéia brasileira já em uso em outros
países, e não apenas na Holanda é um
pedaço de bom senso e humanidade. Encarar um viciado como
doente é um enfoque justo e generoso.
Além de tratar usuários de drogas
segundo o que realmente são, o governo brasileiro estuda
outras medidas. Uma delas é adotar uma política de
substituição de uma droga pesada por outra menos pesada,
reduzindo assim a agressão à saúde do usuário.
Outra medida em estudo é a criação de locais
especiais em que os dependentes poderiam consumir drogas com segurança,
diminuindo o risco de overdose e colocando-os ao alcance dos serviços
assistenciais. A nova abordagem pode ter impacto semelhante à
revolução promovida no trato do alcoolismo, quando
este passou a ser encarado como uma doença, e não
como o vício de vagabundos que, em vez de trabalhar, preferiam
ficar à mesa de botequins. O fundamental, no caso, parece
ser a substituição do enfoque repressivo e policial
por um mais humano e generoso e, em certo sentido, também
mais pragmático.
É natural que, diante de um assunto
tão grave e complexo, haja um mar de receios e dúvidas.
É natural que apareça o temor de que tal liberalidade
acabe por resultar num convite, num estímulo ao consumo de
drogas. Como regra geral, no entanto, é confortador saber
que a generosidade costuma sempre render mais resultados do que
a força. Mas seria até fácil se, com isso,
o problema estivesse sendo enfrentado em seus múltiplos aspectos.
Infelizmente, não está. Como lembraria um dos líderes
da Cufa, ainda fica faltando olhar para o outro lado do dilema
o garoto que vende a cocaína no pé do morro. O que
fazer com ele?
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