Ensaio:Roberto Pompeu de Toledo O inimigo que nem
o Bope encara
Quando o verdadeiro
problema são
os valores sociais e as leis econômicas,
o traficante é o de menos
A maior novidade,
e o maior mérito, do filme Tropa de Elite é
trazer a figura do consumidor para o centro do problema das
drogas e, por conseqüência, da criminalidade, que
tem na droga sua maior e mais devastadora causa. Não
é só na Zona Sul do Rio de Janeiro que o consumidor
tem sido historicamente tratado como a parte mais fraca (coitado,
é um viciado) ou inocente (coitado, ele só quer
se divertir) do problema. Essa é uma crença
que dá volta ao mundo e tem seu epicentro, como quase
tudo, no lugar onde as coisas são decididas
Washington. Desde que despertaram para o problema das drogas,
sucessivos governos americanos têm dedicado a parte
do leão de seus programas, seu dinheiro e suas energias
a coibir o tráfico, isto é, o lado da oferta.
Ao lado da demanda sobra atenção desprezível,
em comparação. Um dos subprodutos desse modo
de enfrentar a questão foi a entronização,
no imaginário americano, de um estereótipo que
estigmatiza todo o subcontinente latino-americano o
do traficante bigodudo, de tez morena e fala castelhana que
desencaminha os inocentes rapazes e moças do lado bom
das Américas. Não que os traficantes não
sejam bandidos. Os rapazes e moças é que não
são tão inocentes.
No Brasil, a questão
tem seu aspecto mais patético no contraste, muito bem
enfocado em Tropa de Elite, entre a alienação
chique dos consumidores de droga de Ipanema e a matança
nos morros. O filme escancara o óbvio: que existe relação
de causa e efeito entre uma coisa e outra. Outros já
o fizeram antes, mas não num meio como o cinema, e
num filme tão bem-feito e de tanto sucesso. Que sobrou,
como linha de defesa dos consumidores? O próprio diretor
do filme, José Padilha, lhes tem oferecido não
no filme, mas em entrevistas uma tábua de salvação:
o argumento da liberação das drogas. Se as drogas
pudessem ser comercializadas livremente, a violência
seria eliminada. Logo, a culpa é da proibição,
não dos consumidores. Não vale. Na circunstância,
soa como pedido de desculpa de Padilha, por tê-los tratado
tão cruamente. Os consumidores brasileiros, ao violar
a lei, são tão responsáveis pela violência
nos morros quanto os consumidores americanos, muito mais numerosos
e ricos, pelas plantações na Bolívia
(e, no limite, pela eleição de Evo Morales)
e pelo refino e comercialização de cocaína
na Colômbia (e, no limite, pela força das Farc).
No entanto, num outro plano, independente da questão
das responsabilidades pela violência, pergunta-se: haverá
solução para a questão das drogas que
não seja a liberação?
O filme de Padilha
embute um enigma. Se o Bope, a tropa de elite da PM do Rio,
é tão bom como ali é retratado, como
é que o tráfico nas favelas ainda não
foi eliminado? Resposta: o Bope pode até ser melhor
ainda do que no filme; a questão é o inimigo
que tem diante de si. O inimigo não é o traficante.
Ou melhor, só é o traficante na aparência.
Inimigos de verdade são duas entidades muito mais difíceis
de combater: os valores sociais e as leis econômicas.
Em decisivos setores da sociedade ocidental, a brasileira
inclusive, há muito a droga é tão aceita
quanto os bombons. É admitida em ambientes de fino
trato, em que circulam os ricos, os intelectuais e os artistas,
e está fortemente implantada na cultura pop, tão
influente entre os jovens. Se a maior das condenações,
que é a social, vacila, está garantida a formação
de um forte mercado consumidor. Ora, não está
ao alcance do Bope combater os valores vigentes, muito menos
derrotar a lei da oferta e da procura.
Vista desse ângulo,
a questão da droga fica parecendo a questão
palestina. Esgotada a possibilidade de um eliminar o outro,
está mais do que claro que israelenses e palestinos
estão condenados a se entender. Quanto antes o fizerem,
mais sofrimento e mais vidas pouparão. No caso das
drogas também está igualmente claro que, esgotada
a possibilidade de eliminar o inimigo, mais dia, menos dia
se imporá como única e inevitável a solução
de substituir o tráfico pelo comércio à
luz do dia. Muito estudo, muito debate e muita reflexão
indicarão o modo de fazê-lo, mas desde já
um ponto é claro: as decisões terão de
ser obrigatoriamente tomadas em foro e âmbito internacionais.
Não há como adotar tal medida num país
só, muito menos num país periférico como
o Brasil, sob pena de condená-lo à condição
de estado pária.
O caso é
para gente grande, a começar pela maior de todas
os Estados Unidos. Além de não haver questão
internacional que possa ser resolvida sem passar por lá,
o mercado consumidor americano, como em quase tudo, é
o maior do mundo também no item drogas. Ao Brasil,
país do mundo talvez mais castigado, depois da Colômbia,
pela violência e degradação trazidas pela
droga, resta a tarefa de tentar cutucar o mundo. Se sua diplomacia
começasse a se mexer, no sentido de sensibilizar as
nações mais fortes para o problema, abraçaria
uma causa de objetivos mais compreensíveis, e resultados
mais palpáveis, do que uma cadeira no Conselho de Segurança
da ONU.