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24 de outubro de 2007
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Noveleiro e blogueiro

Aguinaldo Silva faz folhetim na TV. E o defende na internet


Marcelo Marthe

 
Márcio de Souza/TV Globo
Fagundes (no centro): favela com milícia

Escrever novelas é um trabalho estafante. A maioria dos autores chega exaurida ao final do processo. Quase todos usam colaboradores. Aguinaldo Silva é um caso à parte. O autor de Duas Caras, que está no ar há três semanas, trabalha sozinho e não descumpre prazos. Não bastasse isso, agora se tornou blogueiro. Todos os dias, dedica algum tempo a alimentar sua página na internet. É uma marca dos noveleiros brasileiros fazer comentários sobre a realidade por meio de suas tramas. Silva foi além: fornece sua visão de ficcionista em Duas Caras e dá seus pitacos como pessoa física no blog. Eis um exemplo: na novela, ele retrata uma favela alto-astral, onde não há tráfico de drogas. No blog, defende sua opção por esse registro ameno. "Chega de mostrar favela onde só tem bandido, freak, cara tocando pandeiro ou mulata balançando o traseirão", escreve.

O blog é um jeito de promover a novela. Mas, aos 63 anos, o autor diz que passou da idade de ser contido nas opiniões. Em seu blog, ele solta a língua. Não perdoa a tolice do pensamento esquerdóide: "A esquerda brasileira acha que os pobres são seres primitivos. Só existe um nome para isso: fascismo". Num comentário sobre o casal inter-racial formado pelo negro favelado Evilásio (Lázaro Ramos) e pela branca riquinha Júlia (Débora Falabella), não perdeu a chance de ironizar de novo essa turma: "O romance mistura racismo e luta de classes, bem ao gosto dos sociólogos petistas e de sua incansável legião de seguidores".

Silva é um livre-atirador que usa a linguagem colorida de quem escreve folhetins. Tome-se sua condenação ao patrulhamento sofrido recentemente pelo apresentador Luciano Huck, ao ser assaltado. "Huck faz parte da 'elite branca' porque trabalha de sol a sol e paga altíssimos impostos, sem os quais a 'elite preta', não muito chegada ao trabalho, não estaria recebendo as benesses do Bolsa Família", escreveu. Denunciou ainda o que considera hipocrisia no debate sobre as milícias de ex-policiais que controlam favelas cariocas – às quais a tal Portelinha, onde o líder Juvenal Antena (Antonio Fagundes) manda e desmanda, faz certa alusão. Embora não confirme, sua matriz é a favela de Rio das Pedras, na Zona Oeste carioca, dominada por milicianos. Muitos vêem semelhança entre o personagem de Fagundes e o líder da favela, o vereador Nadinho de Rio das Pedras. Silva se diz contra as milícias, mas acha que "demonizá-las" também não é o caso. Garante que a abordagem simpática de Juvenal aos poucos será trocada pela crítica à situação.

A metralhadora verbal de Silva foi acionada na fase da "TPE" – a "tensão pré-estréia". Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, ele revelou que uma das inspirações do vilão Marconi Ferraço (Dalton Vigh) é o ex-ministro José Dirceu – que, assim como o personagem, passou por uma plástica para mudar de identidade. Tão logo Duas Caras estreou, Silva também iniciou uma briga com o Ibope. Incomodado com os baixos índices, levantou na internet a hipótese de haver menos gente com TV ligada do que antigamente. Nem o instituto nem a Globo entenderam como ele chegou a essa conclusão. Na quarta passada, a novela atingiu pela primeira vez os 45 pontos de média. A Globo ficou aliviada. Silva, o blogueiro, garante que não vai sossegar.

 
Rafael Campos
Silva: sem estafa


AGUINALDO NO ATAQUE

As opiniões do noveleiro sobre o mundo real – e como isso se traduz em Duas Caras


AMOR INTER-RACIAL

O retrato na novela: o romance entre uma filha de burgueses (Débora Falabella) e um negro favelado (Lázaro Ramos) resiste às diferenças entre ambos e ao preconceito nos meios de onde vêm
A provocação do autor:
"É um romance que mistura racismo e luta de classes, bem ao gosto dos sociólogos petistas e de sua incansável legião de seguidores"

 
Fotos Divulgação


O CASO JOSÉ DIRCEU

O retrato na novela: o vigarista Marconi Ferraço (Dalton Vigh) se casa com a mocinha, dá um golpe nela e faz uma plástica para mudar de identidade
A provocação do autor: "Não posso negar que ele (o ex-ministro José Dirceu) tenha me inspirado. Tenho medo dele. Confesso que, quando ele era chefe da Casa Civil, sempre pensava nisso. Tenho horror"


MILÍCIAS NAS FAVELAS

O retrato na novela: Portelinha é uma favela alto-astral e sem crime. O líder Juvenal Antena (Antonio Fagundes) dita as "leis" e até julga traficantes
A provocação do autor: "Um cidadão que ocupa o lugar do estado é vilão ou bandido? A mídia acha que milicianos e traficantes saíram da mesma cumbuca. Para os moradores de favelas, a milícia pode cobrar impostos, mas traz paz e sossego. Será mesmo?"



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