Aguinaldo Silva faz
folhetim na TV. E o defende na internet
Marcelo Marthe
Márcio de Souza/TV
Globo
Fagundes (no centro):
favela com milícia
Escrever
novelas é um trabalho estafante. A maioria dos autores
chega exaurida ao final do processo. Quase todos usam colaboradores.
Aguinaldo Silva é um caso à parte. O autor de
Duas Caras, que está no ar há três
semanas, trabalha sozinho e não descumpre prazos. Não
bastasse isso, agora se tornou blogueiro. Todos os dias, dedica
algum tempo a alimentar sua página na internet. É
uma marca dos noveleiros brasileiros fazer comentários
sobre a realidade por meio de suas tramas. Silva foi além:
fornece sua visão de ficcionista em Duas Caras e
dá seus pitacos como pessoa física no blog.
Eis um exemplo: na novela, ele retrata uma favela alto-astral,
onde não há tráfico de drogas. No blog,
defende sua opção por esse registro ameno. "Chega
de mostrar favela onde só tem bandido, freak, cara
tocando pandeiro ou mulata balançando o traseirão",
escreve.
O blog é
um jeito de promover a novela. Mas, aos 63 anos, o autor diz
que passou da idade de ser contido nas opiniões. Em
seu blog, ele solta a língua. Não perdoa a tolice
do pensamento esquerdóide: "A esquerda brasileira acha
que os pobres são seres primitivos. Só existe
um nome para isso: fascismo". Num comentário sobre
o casal inter-racial formado pelo negro favelado Evilásio
(Lázaro Ramos) e pela branca riquinha Júlia
(Débora Falabella), não perdeu a chance de ironizar
de novo essa turma: "O romance mistura racismo e luta de classes,
bem ao gosto dos sociólogos petistas e de sua incansável
legião de seguidores".
Silva é
um livre-atirador que usa a linguagem colorida de quem escreve
folhetins. Tome-se sua condenação ao patrulhamento
sofrido recentemente pelo apresentador Luciano Huck, ao ser
assaltado. "Huck faz parte da 'elite branca' porque trabalha
de sol a sol e paga altíssimos impostos, sem os quais
a 'elite preta', não muito chegada ao trabalho, não
estaria recebendo as benesses do Bolsa Família", escreveu.
Denunciou ainda o que considera hipocrisia no debate sobre
as milícias de ex-policiais que controlam favelas cariocas
– às quais a tal Portelinha, onde o líder Juvenal
Antena (Antonio Fagundes) manda e desmanda, faz certa alusão.
Embora não confirme, sua matriz é a favela de
Rio das Pedras, na Zona Oeste carioca, dominada por milicianos.
Muitos vêem semelhança entre o personagem de
Fagundes e o líder da favela, o vereador Nadinho de
Rio das Pedras. Silva se diz contra as milícias, mas
acha que "demonizá-las" também não é
o caso. Garante que a abordagem simpática de Juvenal
aos poucos será trocada pela crítica à
situação.
A metralhadora
verbal de Silva foi acionada na fase da "TPE" – a "tensão
pré-estréia". Em entrevista ao jornal Folha
de S.Paulo, ele revelou que uma das inspirações
do vilão Marconi Ferraço (Dalton Vigh) é
o ex-ministro José Dirceu – que, assim como o personagem,
passou por uma plástica para mudar de identidade. Tão
logo Duas Caras estreou, Silva também iniciou
uma briga com o Ibope. Incomodado com os baixos índices,
levantou na internet a hipótese de haver menos gente
com TV ligada do que antigamente. Nem o instituto nem a Globo
entenderam como ele chegou a essa conclusão. Na quarta
passada, a novela atingiu pela primeira vez os 45 pontos de
média. A Globo ficou aliviada. Silva, o blogueiro,
garante que não vai sossegar.
Rafael
Campos
Silva: sem estafa
AGUINALDO NO ATAQUE
As opiniões
do noveleiro sobre o mundo real e como isso se
traduz em Duas Caras
AMOR INTER-RACIAL
O retrato
na novela: o romance entre uma filha de burgueses
(Débora Falabella) e um negro favelado (Lázaro
Ramos) resiste às diferenças entre ambos
e ao preconceito nos meios de onde vêm A provocação do autor:"É um
romance que mistura racismo e luta de classes, bem ao
gosto dos sociólogos petistas e de sua incansável
legião de seguidores"
Fotos Divulgação
O CASO
JOSÉ DIRCEU
O retrato
na novela: o vigarista Marconi Ferraço (Dalton
Vigh) se casa com a mocinha, dá um golpe nela
e faz uma plástica para mudar de identidade A provocação
do autor: "Não posso negar que ele (o ex-ministro
José Dirceu) tenha me inspirado. Tenho medo
dele. Confesso que, quando ele era chefe da Casa Civil,
sempre pensava nisso. Tenho horror"
MILÍCIAS
NAS FAVELAS
O retrato
na novela: Portelinha é uma favela alto-astral
e sem crime. O líder Juvenal Antena (Antonio
Fagundes) dita as "leis" e até julga traficantes
A provocação
do autor: "Um cidadão que ocupa o lugar do
estado é vilão ou bandido? A mídia
acha que milicianos e traficantes saíram da mesma
cumbuca. Para os moradores de favelas, a milícia
pode cobrar impostos, mas traz paz e sossego. Será
mesmo?"