Um
desenho animado em forma de documentário, sobre pingüins
surfistas. Por causa dessa premissa, que pode soar tanto complicada
quanto desmiolada, a bilheteria americana de Tá
Dando Onda (Surfs Up, Estados Unidos,
2007) estacionou em menos de 60 milhões de dólares,
quantia desapontadora para os padrões do segmento.
Que ela não sirva como medida de qualidade, porém:
a animação que estréia nesta sexta-feira
no país não é apenas a melhor já
realizada pela Sony, como também uma das mais inventivas
a ser lançadas nos últimos anos por qualquer
um dos grandes ateliês. Uma pista de quanto esse desenho
pode ser criativo é que, não fosse seus próprios
personagens mencionarem pingüins que cantam e dançam,
ou que protegem seus ovos em face das mais terríveis
adversidades, provavelmente o espectador nem se lembraria
dos outros filmes que tornaram esses bichos ícones
do cinema.
Cadu Maverick, o
protagonista de Tá Dando Onda, tem 17 anos e
mora na Antártica com o irmão brutamontes e
a mãe resignada sempre vista na cozinha, retalhando
atuns. Desde que seu vilarejo foi visitado pelo campeão
Big Z, agora já falecido, Cadu alimenta o sonho de
se tornar um astro das ondas. Essa opinião inflacionada
de suas habilidades é ajustada quando ele consegue
uma vaga num torneio na ilha tropical de Pingú, onde
encontra um surfista valentão, uma salva-vidas muito
graciosa e um pingüim ripongo que, afora o fato de nunca
chegar perto da água, lembra muito seu ídolo
Big Z.
Tá Dando
Onda tem bem mais a oferecer do que personagens fofos
e vozes excelentes (a cargo de Shia LaBeouf, Zooey Deschanel
e Jeff Bridges). Dirigido por dois animadores com longa experiência
na Disney e na Pixar, o filme é um exemplo de como
o aprimoramento tecnológico da animação
em 3D permite uma liberdade narrativa de que nem sempre os
estúdios se aproveitam. Velhos documentários
em 16 milímetros, imagens típicas de campeonatos
de surfe feitas com teleobjetivas, câmeras "radicais",
daquelas que se prendem ao corpo dos esportistas, cenas de
entrevistas com personagens desacostumados às lentes,
que olham para lugares estranhos nas horas erradas
Tá Dando Onda sabe imitar com perfeição
todo esse repertório de imagens. Mas não o faz
só para demonstrar apuro. O que ele pretende é
multiplicar os pontos de vista e mostrar, com humor, que o
que se diz pode estar bem distante daquilo que se faz. Para
todos os efeitos, o filme é dirigido às crianças.
Mas suas idéias são um bocado adultas.