Três
adolescentes, a duas semanas de terminar o 2º grau, compreensivelmente começam
a se desesperar com a perspectiva de chegar invictos ao fim de seu último
ano letivo. Dois deles têm em vista candidatas com as quais gostariam de
inaugurar sua vida sexual; o terceiro acaba de fazer uma carteira de identidade
falsa. Se ela passar pelo crivo dos balconistas de lojas de conveniência,
eles terão acesso a vodca e cerveja. Tem-se então uma equação
perfeita: se na festa daquela noite (a primeira, em toda a sua carreira escolar,
para a qual foram convidados) eles conseguirem embebedar as meninas, é
possível que, com a visão turvada pelo álcool, elas acabem
na cama com eles. "Mulheres embriagadas erram. Nós podemos ser esse
erro!", sonha o rechonchudo Seth (Jonah Hill), tentando persuadir seu melhor
amigo, o certinho Evan (Michael Cera), a sonhar junto com ele. Seth, Evan e Fogell
que na carteira falsa aparece com o patético nome de McLovin
embarcam, então, naquela saga de tantas outras comédias estudantis
americanas. Como nelas todas, o périplo dos personagens de Superbad
É Hoje (Superbad, Estados Unidos, 2007), desde sexta-feira
em cartaz no país, começa em função do desespero,
e de miragens de bebida e sexo. Mas termina no extremo oposto do habitual no gênero.
Todas
as razões pelas quais Superbad é tão igual e tão
diferente convergem nos seus realizadores Judd Apatow e Seth Rogen, diretor
e ator de Ligeiramente Grávidos, que aqui ocupam as funções
de produtor e co-roteirista. (Rogen, além disso, interpreta um policial
que só conseguiria esse posto em caso de extinção, por doença
ou hecatombe, de todos os homens em idade de recrutamento.) De novo mesclando
obscenidade e meiguice de maneiras improváveis, eles expõem em detalhes
excruciantes o assanhamento de seus personagens. Seth, em especial, é incapaz
de dizer uma única frase ou fazer um único gesto que não
contenha uma baixaria quase sempre são muitas ao mesmo tempo. Mas
Apatow e Rogen são também homens o bastante para assumir sem nenhuma
reserva que, se os hormônios ditam, os sentimentos é que inspiram.
Nenhum dos três protagonistas recusaria um avanço de um espécime
feminino qualquer. Mas trabalham, no limite de seus recursos, para que esse avanço
venha das meninas em que fixaram sua atenção as quais, além
dos atrativos óbvios, têm outros mais intangíveis e decisivos.
Por exemplo, vivacidade, generosidade e perspicácia para compreender que,
embora Seth e Evan às vezes ajam como maníacos, não pode
haver nada de tão errado assim com dois sujeitos que são amigos
tão leais um para com o outro.
Esse,
enfim, é o ponto a que Apatow e Rogen querem chegar. Na primeira cena do
filme, Seth e Evan reviram os olhos e falam grosso para disfarçar seu constrangimento
intenso quando alguém sugere que eles sentirão falta um do outro,
por estarem indo para faculdades diferentes. Na cena final, eles se dão
conta de que, sejam quais forem os ganhos da noite anterior, eles cobrarão
uma perda: a de uma amizade indivisível e incondicional, como só
na adolescência se experimenta. Qualquer pessoa do ramo sabe que não
há negócio mais traiçoeiro do que o humor; de um dia para
outro pode-se passar de rei da comédia a piada de mau gosto e os
irmãos Farrelly, que dominaram o território por anos depois de Quem
Vai Ficar com Mary?, acabam de atestar essa máxima com o fiasco de
Antes Só do que Mal Casado. Não é impossível
que, daqui a dois ou três filmes, Apatow e sua trupe se vejam em situação
semelhante de desfavor. Mas, neste momento, eles estão em completa sintonia
com seu público. Porque são engraçados, sem dúvida.
Mas mais ainda pela clareza e pelo desarme de sua visão.