Quais
as grandes dúvidas da humanidade? Em matéria de etiqueta, não
poderiam ser mais simples. As mulheres querem, acima de tudo, saber o que usar
num casamento. Os homens continuam confusos na hora de escolher a cor das meias.
E todos se atrapalham (sim, até hoje) com a ordem dos talheres e copos
à mesa. Será que é só isso? Gloria Kalil, a especialista
em moda que meio por acaso virou conselheira nacional em assuntos de etiqueta
e comportamento, constata na prática que não. Num mundo em rápida
transformação, as mudanças de valores e de referências
éticas e morais provocam dúvidas que chegam a Gloria por meio do
popular quadro que faz a cada quinze dias no Fantástico, em palestras
e, claro, nas ruas, onde sempre aparece uma perguntazinha. No fundo, as pessoas
querem saber o que é certo e o que é errado. Nem sempre é
possível resolver esse anseio. "Etiqueta é uma resposta a situações
recorrentes. Existem situações novas para as quais ela ainda não
tem resposta. Em breve, vai ter. Dos costumes sai a convenção",
diz Gloria.
Exemplo de situação
dúbia: o hábito dos noivos contemporâneos, em especial a partir
do segundo casamento, quando já moram juntos e têm tudo, de pedir
dinheiro de presente. Do ponto de vista pragmático, nada mais lógico.
Os presenteados não recebem uma montanha de coisas inúteis, os presenteadores
fazem uma transferência eletrônica e, pronto, problema resolvido.
Além do bem-vindo dinheirinho, noivos mais preocupados também gostariam
de encontrar uma maneira elegante de fazer o pedido. "Pelo menos por enquanto,
não existe", diz Gloria, fiel à escola tradicional de bom comportamento.
"A etiqueta vai responder, mas ainda está engasgada com essa novidade."
O materialismo conjugal pode realmente ferir suscetibilidades. A empresária
Regina Vergueiro se sentiu ofendida ao receber, juntamente com o convite para
um suntuoso casamento em São Paulo, um envelope vazio, destinado "à
contribuição aos noivos, de mudança para a Europa, o que
torna inviável o transporte de peças". Regina planejou uma refinada
vendeta: "Fiz de conta que não entendi, comprei uma obra de arte, mandei
entregar com um cartão e não fui ao casamento".
O interesse pelo comportamento adequado, em especial diante dos novos tempos e
novos costumes, é universal. Nos Estados Unidos, colunistas especializadas
viraram estrelas desde a metade do século passado. A coluna Dear Prudence
(que está na terceira titular, Emily Yoffe), inaugurada em 1997 na revista
eletrônica Slate e publicada hoje em mais de 200 jornais, reúne
algumas das perguntas mais engraçadas e instigantes do gênero.
Exemplo: um espírito aflito queria saber como dizer ao irmão que
a mulher dele deveria usar sutiã para não deixar transparecer o
bico dos seios (cale a boca e não se meta, respondeu a colunista). Em outro
dilema de teor familiar, um pai às vésperas do nascimento do primeiro
filho não se conformava com a exigência da mulher de que, além
dele, a mãe dela também assistisse ao parto. "Quero que seja o momento
do começo da nossa família", angustiava-se. Resposta: ceda ao desejo
dela, não ponha mais pressão em quem já vai ter tanto trabalho.
Até Dear Abby, a mais tradicional coluna de etiqueta dos Estados Unidos,
fundada em 1956 e hoje tocada pela filha da autora original (na verdade, Pauline
Phillips), publicada em 1.400 jornais do mundo, recentemente capitulou. Deixou
de lado suas usuais meias palavras sobre a questão e declarou que pessoas
do mesmo sexo podem, sim, se casar.
Adequação aos novos tempos é, justamente, o grosso do texto
do livro que Gloria lança no fim de outubro, Alô, Chics!
Etiqueta Contemporânea, baseado na enxurrada de perguntas que recebia
em um programa de rádio em São Paulo. O que fazer quando, na farmácia,
se encontra um conhecido comprando uma caixa de Viagra? "Nada. Mas nada mesmo",
responde Gloria. "E, quando se encontrarem de novo, aja como se não se
lembrasse." Há perguntas irrespondíveis por pertencerem à
esfera dos valores privados, e não da ética coletiva. Devo ou não
deixar que meus filhos levem namorados e namoradas para dormir em casa? "Pelo
amor de Deus, me deixem fora dessa. Vocês é que sabem quanto isso
vai incomodar", diz Gloria, que não tem filhos nem bichos de estimação.
Estes, aliás, um problema para quem ama os animais mas não acha
graça em tomar banho de baba de cachorro em visita a seus donos. Se a situação
obriga, conforme-se, aconselha ela: chegando à casa dos anfitriões,
faça festa para o bichinho. Aos donos, porém, cabe impor limites
(como se vê, a gentilíssima Gloria entende de bons modos, mas não
de cachorros). A jornalista Ana Paula Padrão já enfrentou a questão
canina num jantar na casa de amigos. "A Dulcinéia, uma buldogue inglesa
mimadíssima, começou a comer o laço do meu sapatinho Prada.
Se fosse qualquer outro, teria ficado quieta. Mas aquele era meu único
Prada e tinha custado uma fortuna. Pedi socorro ao dono e salvei o sapato", conta.
Enquanto surgem situações
novas, outras perdem o sentido, caem em desuso e desaparecem. Gloria considera
em fase terminal um mandamento que parecia gravado nas tábuas da lei: a
proibição de cortar com faca as folhas de alface na salada, regra
de etiqueta que foi ensinada, em clima de espanto, a Bebel, a personagem de Camila
Pitanga na novela Paraíso Tropical. "A regra surgiu quando as facas
eram de ferro e, ao cortar folhas, deixavam-nas com aspecto feio e escuro. Isso
acabou. Portanto, tenho certeza: os dias de dobrar alface em trouxinhas estão
contados." Até no mundo exigente da etiqueta existem boas notícias.