O
Brasil passará a ter oficialmente, nesta semana, três novos beatos.
São os mártires Albertina Berkenbrock, de Santa Catarina, o coroinha
gaúcho Adílio Daronch e o padre espanhol Manuel Gomez Gonzáles.
Os três foram assassinados a serviço da fé católica.
O mesmo ocorreu com a freira Lindalva de Oliveira, da Bahia, que receberá
o título de beata em dezembro. Eles chegam agora ao penúltimo estágio
do processo de santificação. Seu reconhecimento faz parte de uma
clara mudança no posicionamento da Igreja. Entre as medidas que tomou para
conter a evasão de fiéis, o papa João Paulo II incentivou
os processos de canonização. Dos pouco mais de 800 santos oficiais
da Igreja Católica, 483 foram reconhecidos em seu pontificado. No Brasil,
metade dos santos e beatos foi guindada a esse status nos últimos dezesseis
anos. Até o fim da década de 90, havia 35 pleitos brasileiros em
Roma. Hoje, já são 57, um aumento que reflete, também, o
maior empenho das dioceses em promover seus candidatos à santidade.
É enorme o desafio das equipes que se dedicam
à causa dos santos. A formulação de um processo equivale,
em complexidade, à elaboração de uma tese de doutorado. Dependendo
do caso, é preciso reunir uma equipe multidisciplinar, composta de teólogos,
historiadores e médicos. Na Europa, existem escritórios especializados
em canonização. O mantido pelos franciscanos, em Roma, consegue
a declaração oficial de três santos por ano e tem mais de
200 processos em andamento. No Brasil, não há nada semelhante. "Algumas
vezes temos de fazer tudo sozinhos, até mesmo a pesquisa histórica",
diz o monsenhor Francisco de Assis Pereira. De Natal, ele comanda seis casos na
Congregação para as Causas dos Santos, em Roma, que centraliza o
julgamento das causas do mundo inteiro.
O candidato a beato tem de ter biografia exemplar de acordo com os preceitos cristãos.
Depois de morto, uma legião de fiéis deve considerá-lo santo
e, claro, atribuir-lhe milagres. Se for um mártir, o caminho é
facilitado. Basta a demonstração de que sacrificou a própria
vida em nome da fé. Em qualquer outro caso, é necessário
que se prove pelo menos um milagre. Além de reunir evidências materiais,
como exames de ultra-sonografia, por exemplo, é fundamental demonstrar
que não há explicação científica possível
para o fenômeno. Para passar de beato a santo, é preciso ter a comprovação
de um novo feito.
Roberto
Setton
Museu
Frei Galvão: depois da canonização, 43 000 visitas por mês
Um dos casos mais
lamentados pelos brasileiros é o do padre José de Anchieta, o jesuíta
que se destacou na catequização nas primeiras décadas da
história do Brasil. Ele foi beatificado em 1980, com base em curas milagrosas
realizadas no passado. Mas, depois, apenas quinze supostos milagres foram relatados,
nenhum suficientemente comprovado. A equipe que trabalha por sua canonização
gasta 7.000 reais mensais para dar publicidade à sua imagem. São
distribuídos 13 000 santinhos e, para os enfermos, dadas relíquias
do padre, como fragmentos ósseos ou pedaços de roupa, com a esperança
de que curem doentes e isso possa ser considerado um novo milagre.
Os novos beatos brasileiros são conhecidos apenas nos estados onde viveram.
Andam longe da fama de Anchieta ou do Padre Cícero, que, para ser beatificado,
tem de se reabilitar foi afastado da Igreja Católica por práticas
que entraram em choque com o Vaticano. Mas a cada um é atribuído
um tipo de milagre. À freira Lindalva de Oliveira, morta em 1993 por um
morador de rua recolhido ao abrigo onde ela trabalhava, na Bahia, atribuem-se
casos de cura do alcoolismo e graças como emprego e melhora na situação
financeira. Já Albertina Berkenbrock lutou até a morte, aos 12 anos
de idade, com um homem que tentava estuprá-la. Os fiéis afirmam
que ela processa curas. Os dois outros novos beatos, o padre Manuel Gonzáles
e seu coroinha Adílio Daronch, foram assassinados em 1924, a caminho de
uma pregação. Em seu santuário, na pequena cidade gaúcha
de Nonoai, há muletas espalhadas pelo chão.
Agora, o local deverá receber mais visitantes. A declaração
de um santo não é apenas motivo de prestígio para a diocese
e para a equipe que trabalhou, mas, principalmente, um poderoso incentivo ao turismo.
Nova Trento, em Santa Catarina, onde fica o santuário de Madre Paulina,
sentiu de forma direta esse impacto. Depois da canonização, em 2002,
o número de turistas que a cidade recebe mensalmente saltou de 8 000 para
30 000. Em Guaratinguetá, onde fica o Museu Frei Galvão, o efeito
foi semelhante. A cidade passou a receber 43.000 turistas por mês depois
da aprovação do santo. Um milagre incontestável de frei Galvão.