Júlio Lancellotti
anuncia que foi chantageado por
ex-protegido, que conheceu como menor infrator e
o acuava com acusação do pior dos crimes: pedofilia
Marcelo Carneiro
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Fotos Filipe Redondo e
Almeida Rocha/Folha Imagem
Lancellotti, Anderson Batista,
a caminhonete de luxo comprada com dinheiro dado pelo
padre e um dos bilhetes do ex-interno indiciado pela polícia:
proximidade entre acusador e acusados
Anderson Batista,
25 anos, tem um prontuário pesado na polícia
de São Paulo. Foi interno na Febem e, já maior
de idade, acumulou doze boletins de ocorrência por denúncias
que vão de tráfico de drogas a lesão
corporal. Um dos boletins é por homicídio culposo:
atropelou, involuntariamente, o próprio filhinho de
3 anos ao dar ré num carro. O padre Júlio Lancellotti
tem um currículo venerado entre organizações
de defesa de moradores de rua, adolescentes infratores e crianças
flageladas pelo vírus da aids. É capaz de pegar
o telefone, pedir para falar com o presidente Lula e receber
um retorno em poucos minutos. O presidente já passou
quatro vésperas de Natal em obras sociais coordenadas
por ele. Além de prestígio, Lancellotti também
acumulou capacidade de angariar recursos. Organizações
não-governamentais sob sua égide têm convênios
da ordem de 10,6 milhões de reais anuais com a prefeitura
de São Paulo, não obstante os atritos e as acusações
de discriminação, na questão dos moradores
de rua, feitas pelo padre. O dinheiro é usado no atendimento
a 8.000 necessitados. Por que uma pessoa como Lancellotti
cederia à chantagem de um elemento como Batista? Sob
"todo tipo de constrangimento", disse o padre ao jornal O
Estado de S. Paulo na semana passada, quando anunciou
publicamente que, há um mês, havia procurado
a polícia para denunciar as extorsões sofridas
desde 2004 nas mãos de uma quadrilha comandada por
Batista. A coação mais grave envolvia a ameaça
de denunciá-lo pelo terrível crime tristemente
associado à Igreja Católica: abuso sexual de
menores colocados em confiança na esfera de influência
de padres pervertidos.
Segundo a própria
denúncia, Lancellotti pagou no total 56.000 reais aos
extorsionários. Uma parte do dinheiro foi dirigida
ao financiamento de uma caminhonete Mitsubishi Pajero, avaliada
em 65.000 reais. O padre apresentou cartas e gravações
para comprovar a acusação. Nas primeiras, Batista
pede dinheiro em tom de familiaridade, até com uma
certa gentileza. Nas segundas, a barra pesa. Numa das conversas,
Conceição Eletério, mulher de Batista,
intimida: "Vou dizer tudo. O senhor fica mexendo com as crianças
de 3 anos, com meu filho. Meu filho está indo para
a imprensa". Um dos intermediários dos chantagistas
foi preso em um flagrante armado pela polícia e com
o conhecimento do padre no momento em que ia receber 2 000
reais. A Justiça decretou a prisão de Batista,
de Conceição e de um terceiro acusado, todos
foragidos.
Como em qualquer
outro caso do gênero, existem três hipóteses:
1) Lancellotti está dizendo a verdade e foi vítima
de uma armação; 2) não cometeu nenhum
crime, mas cedeu à chantagem porque tinha algo que
preferia não ver revelado; 3) a extorsão se
baseava num fato real. No caso da primeira hipótese,
a reação imediata e natural é o popular
quem não deve não teme. Por que pagou tanto
dinheiro por tanto tempo? Em entrevistas que deu sobre a acusação,
Lancellotti disse que as ameaças só se tornaram
mais graves a partir de setembro deste ano. Antes, acreditava
que conseguiria demover Batista, que conheceu ainda recolhido
na Febem e por quem foi procurado mais tarde, com um pedido
de ajuda. Com o passar do tempo, os pedidos tornaram-se cada
vez mais insistentes. Em um dos doze bilhetes enviados ao
padre, Batista diz que quer 1.500 reais "para ficar lá
na praia". Além de vinte parcelas do financiamento
da caminhonete Pajero, Batista também conseguiu comprar
um terreno e alugar uma casa via extorsão. O advogado
de Batista, Nelson Bernardo da Costa, indica a linha com que
vai defender seu cliente: ele sustenta que o dinheiro foi
dado espontaneamente, "em função da amizade
até íntima" entre ambos.
Lancellotti tornou-se
padre tardiamente, aos 37 anos. Antes, trabalhava na Febem,
da qual continua a ser funcionário, com salário
de 2.480 reais. Na semana passada, VEJA entrevistou funcionários
e ex-funcionários da Febem, além de técnicos
que acompanham o trabalho desenvolvido por Lancellotti em
suas ONGs. Muitos conheciam a proximidade entre Lancellotti
e Batista e comentaram o comportamento sexual do padre, que
só poderá ser objeto de inquirição
se entrar no campo delituoso. Algumas lacunas deixadas pela
denúncia de chantagem podem ser preenchidas se a polícia
encontrar Anderson Batista e confrontá-lo com fatos
bem apurados. "Só o depoimento dele poderá esclarecer
as perguntas que ainda estão sem resposta nessa história
toda", disse o delegado André Luiz Pimentel, que investiga
o caso. Para o padre, para Batista e para qualquer outro cidadão,
valem as mesmas palavras ditas por Lancellotti quando cobrou
providências no caso do assassinato de sete moradores
de rua, em 2006, em São Paulo: "Nós não
vamos nos esquecer. Vamos continuar cobrando até que
a Justiça dê uma resposta".