Produtos chineses
baratos permitiram à economia mundial
resistir à alta do petróleo. Agora os preços
sobem no país
asiático e já forçam reajustes no resto
do planeta
Cíntia Borsato
Jason Lee/Reuters
Restaurante em Pequim: no Ano
do Porco, a carne ficou 50% mais cara e inflou o índice
de preços
O preço de
roupas, brinquedos e eletrônicos fabricados pelos chineses
caiu sem interrupção durante anos a fio. Foi
graças a esse fenômeno, de dimensão econômica
avassaladora, que a alta do petróleo não acelerou
a inflação mundial, mantendo intacto o custo
de vida dos consumidores em praticamente todos os países.
Segundo especialistas, para cada 1 dólar de poder de
compra perdido com o aumento da gasolina, 1,50 dólar
voltou para os consumidores americanos na forma de produtos
chineses mais baratos e competitivos. Mas esse efeito pode
estar com os dias contados. Nos últimos meses, as mercadorias
"made in China" começaram a encarecer. Trata-se do
mais novo efeito do milagre chinês na economia global.
Mais ricos, os chineses elevaram seu padrão de consumo,
o que pressionou os preços internos. Essa alta de custos
foi transferida para o valor das exportações.
Na prática, a China começa a exportar inflação.
Nos Estados Unidos, esse fenômeno só foi percebido
em maio passado, quando o preço médio dos importados
chineses aumentou pela primeira vez (veja
quadro). Essa novidade chamou a atenção
de Alan Greenspan, presidente do Federal Reserve (Fed, o banco
central americano) entre 1987 e 2005. Durante os dezoito anos
em que comandou o Fed, Greenspan contou com a ajuda das importações
baratas para manter a inflação americana sob
controle por isso sua preocupação agora.
Seu receio é que as mercadorias chinesas, em vez de
desinflar, comecem a empurrar para cima os índices
de preços.
O salto inflacionário
chinês deve-se, sobretudo, ao maior consumo de alimentos,
cujos preços acumulam um aumento de 18% nos últimos
doze meses (a carne ficou 50% mais cara). É o tipo
de efeito que ocorre quando uma nação com 1,3
bilhão de pessoas se urbaniza, passa a freqüentar
restaurantes (como o da foto acima, decorado sob a inspiração
da tenebrosa revolução cultural maoísta)
e comprar comidas mais caras. Outra inevitabilidade da riqueza
chinesa é que os salários, até recentemente
irrisórios nas comparações internacionais,
também estão em trajetória de alta. A
nova geração de trabalhadores não se
submete à baixa remuneração que era a
norma desde que a China se abriu ao mundo, há duas
décadas. Até recentemente, um salário
entre 105 a 145 dólares era considerado razoável
para um operário. Hoje, um trabalhador com experiência
exige pelo menos 200 dólares ao mês (o equivalente
ao salário mínimo brasileiro). Tudo isso contribuiu
para despertar o dragão inflacionário na China,
imediatamente embutido no preço dos produtos exportados
pelo país.
Os analistas não
sabem estimar ao certo o impacto que isso terá na inflação
mundial, mas acreditam que esse processo possa estar apenas
no começo. Afirma o economista Fernando Ribeiro, da
Fundação Centro de Estudos do Comércio
Exterior (Funcex): "À medida que a indústria
chinesa migra de produtos de baixo valor para os de maior
tecnologia, é difícil manter preços tão
baixos". Trata-se de um cenário preocupante, especialmente
tendo em vista o poder que os produtos chineses vinham tendo
de anular a escalada nos preços do barril do petróleo.
Na semana passada, a cotação do barril atingiu
90 dólares. O produto não custava tão
caro desde 1980, durante a segunda crise do petróleo
(veja quadro). Naquela ocasião,
as conseqüências globais foram drásticas:
anos seguidos de inflação fora do controle,
acima de 10% ao ano, e recessão. Nada disso ocorreu
recentemente, e boa parte da explicação se deve
ao papel da China como fábrica mundial de mercadorias
a custo baixíssimo. O temor, agora, é que a
China se transforme num gigantesco exportador de inflação.
Os efeitos da remarcação chinesa, ainda tímidos,
já são sentidos em todo o planeta, inclusive
no Brasil. De acordo com dados da Funcex, o preço das
importações chinesas já subiu 4% desde
o começo do ano.
A boa notícia
é que a economia mundial nunca foi tão aberta
e competitiva. Se um fabricante aumenta preços, aparece
logo outro para ocupar seu espaço. Afinal, mais que
a própria China, a globalização é
o grande dínamo da prosperidade mundial nesse início
de novo milênio.