Especial Países
e pessoas agem... ...mas alguns ainda duvidam
A realidade do aquecimento global criou uma preocupação com
o ambiente como nunca se viu: todo mundo quer fazer sua parte para salvar
o planeta. Nesse cenário, vale a pena conhecer a lista de prioridades
dos cientistas céticos, aqueles que desconfiam de previsões
catastrofísticas
Okky
de Souza e Vanessa Vieira
Joe Nishizawa
PREVENÇÃO
JÁ Galeria subterrânea,
com 6 quilômetros de extensão, recém-construída em
Tóquio e destinada a escoar águas de enchentes. Com o "piscinão",
a cidade se prepara para as provações resultantes do aquecimento
global
Em que planeta vivemos? Se for no planeta
Al Gore, estamos em apuros. Um brasileiro que nasça hoje chegará
à idade adulta em um mundo hostil e diferente, no qual restarão
raros ursos-polares fora do zoológico e se poderá navegar pelas
ruas do Recife, submersas pela elevação do nível do mar.
Seus netos viverão num ambiente pestilento, com surtos de malária,
dengue e febre amarela decorrentes do clima mais quente. Na Amazônia, com
temperaturas 8 graus mais altas que as atuais, a floresta se transformaria em
cerrado e estaria sujeita a incêndios de dimensões bíblicas.
O que se chama aqui de planeta Al Gore é aquele que o político americano
descreveu em seu documentário Uma Verdade Inconveniente, cuja dramaticidade
lhe rendeu dois dos prêmios mais cobiçados que existem. O primeiro
foi o Oscar, entregue em fevereiro. O segundo é o Nobel da Paz de 2007,
que ele receberá no dia 10 de dezembro em Oslo, ao lado do indiano Rajendra
Pachauri, presidente do Painel Intergovernamental Sobre Mudanças Climáticas
das Nações Unidas (IPCC). Mas será que a Terra só
tem como futuro se transformar no planeta Al Gore? Talvez não.
Um grupo de cientistas, reduzido em número mas respeitável e influente,
discorda da idéia central de Al Gore e do painel da ONU, que, de resto,
se tornou a maior religião urbana de alcance planetário de que se
tem notícia. Esses dissidentes do clima são chamados genericamente
de "céticos". Uma demonstração de que os terráqueos
ainda não chegaram ao consenso definitivo de que a Terra vai acabar nos
moldes propostos por Al Gore é a enorme repercussão do recém-lançado
Cool It, cujo subtítulo é O Guia do Ambientalista Cético
para o Aquecimento Global. O autor do best-seller, o estatístico dinamarquês
Bjorn Lomborg, foi eleito pela revista Time uma das 100 pessoas mais influentes
do mundo (veja a entrevista com Lomborg).
As divergências entre ambientalistas ortodoxos e céticos podem ser
sumariadas em quatro questões:
A
primeira diz respeito à responsabilidade humana no aquecimento global.
O IPCC afirma que a causa principal é a emissão de dióxido
de carbono (CO2) e outros gases resultantes da queima de combustíveis
fósseis, que, lançados na atmosfera, aumentam o efeito estufa. Os
céticos consideram que só parte do aquecimento global pode ser atribuída
à ação humana. A quantidade de CO2 enviada à
atmosfera pelas florestas em decomposição e pelos oceanos também
contribui. A Terra passou por outros períodos de aquecimento antes da Era
Industrial, e não se conhecem com certeza os agentes que os provocaram.
A segunda versa sobre se é
possível amenizar o aquecimento e como isso deveria ser feito. O IPCC diz
que o primeiro passo é reduzir as emissões de CO2 para
a atmosfera. A seguir, é preciso aumentar a eficiência no uso de
energia para queimar menos combustíveis fósseis. Os céticos
argumentam que não há como frear o processo de aquecimento global
nas próximas décadas. A melhor solução é investir
em pesquisas para baratear energias alternativas e, no futuro, tornar a humanidade
menos dependente de petróleo.
A
terceira é: dentro de quanto tempo os efeitos do aquecimento começarão
a ser sentidos? O IPCC diz que os primeiros sinais já estão presentes
no aumento de enchentes, secas prolongadas e maior freqüência de grandes
furacões. Os céticos estimam que os primeiros efeitos só
serão perceptíveis dentro de 50 a 100 anos.
A
quarta: qual é a severidade desses efeitos? O IPCC acha que as catástrofes
naturais serão freqüentes e devastadoras. Para os céticos,
os desastres serão poucos. Não será difícil para o
homem se adaptar a essas alterações do clima.
Seria excelente se as respostas para todas essas divergências pudessem ser
encontradas no meio do caminho entre os dois extremos. Por enquanto, isso não
parece possível. Os ursos-polares estão realmente ameaçados.
Um estudo prevê que, devido à retração da camada gelada
do Ártico, a população desses animais magníficos estará
reduzida a um terço da atual em 2050. O dar de ombros de alguns céticos,
sob o argumento de que a extinção de espécies faz parte do
ciclo natural da natureza, só nos enche de horror. Por outro lado, previsões
catastróficas claramente infladas para efeitos propagandistas são
um tiro que a ortodoxia ambientalista dá no próprio pé. Há
duas semanas, a Alta Corte da Inglaterra determinou que, ao exibirem o filme de
Al Gore nas escolas do país, os professores avisem aos alunos que ele é
tendencioso e contém nove erros flagrantes. Entre eles está a advertência
de que o nível dos oceanos pode subir 6 metros até o fim do século
contra os 44 centímetros previstos pelos estudiosos mais pessimistas.
A diferença é gritante. Se o nível do mar subir 6 metros,
a pista do Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, ficará submersa
e Botafogo perderá sua praia. Já uma elevação de 44
centímetros mal seria percebida.
Flip Nicklin/Minden Pictures/Getty Images
Urso-polar
vê seu habitat derreter
Lomborg
costuma levar visitantes ao Bridge Café, o mais antigo bar de Nova York,
instalado no mesmo local desde o fim do século XVIII. Nesse período,
o nível das águas do Rio East subiu cerca de 60 centímetros.
Em lugar de alagado, o bar, que originalmente estava à margem, está
agora a dois quarteirões e meio de distância do rio. Aterros sucessivos
aumentaram a área seca, e a elevação das águas só
é conhecida pelos registros científicos. O que Lomborg pretende
demonstrar é a capacidade humana de se adaptar às mudanças
naturais e encontrar soluções tecnológicas para os desastres
anunciados. Em 1968, no best-seller A Bomba Populacional, o americano Paul
Ehrlich vaticinou um mundo atormentado pela superpopulação e pela
falta de alimentos. A população mundial de fato dobrou nas quatro
décadas seguintes à previsão, mas, graças ao ganho
de eficiência com a irrigação e o uso dos fertilizantes, a
chamada Revolução Verde, o planeta produziu alimentos de sobra para
todos. No período em que Ehrlich afirmou que a fome grassaria, as pessoas
passaram a ingerir, em média, 24% mais calorias. Diante da imposição
de combater o aquecimento global, as ações individuais nessa direção
se tornaram uma mania. Todo mundo quer fazer sua parte para salvar o planeta,
ou pelo menos manter a consciência limpa de que não está ajudando
a piorar a situação. Para isso, tanto vale usar roupas feitas de
algodão orgânico quanto comprar apenas alimentos que tenham sido
produzidos em regiões próximas dessa forma, não se
precisou enfumaçar mais a atmosfera ao transportá-los.
Ao
se tornar uma doutrina, a luta contra o aquecimento global também se tornou
um instrumento nas mãos dos políticos. "Muitos deles, para conquistar
a aprovação popular, fazem promessas de reduzir as emissões
de gases tóxicos em seus países mesmo sabendo que será impossível
cumpri-las", disse a VEJA outro cético proeminente, o economista Deepak
Lal, da Universidade da Califórnia. É irônico que o ambientalismo,
enquanto instrumento político, seja hoje associado ao pensamento de esquerda.
No passado, era o contrário. Os comunistas, donos das fábricas mais
poluentes do mundo, consideravam a preocupação com o ambiente mero
capricho burguês. Só depois que o comunismo virou poeira, com a queda
do Muro de Berlim, os órfãos do marxismo viram na defesa do ambiente
uma forma de desafiar o capitalismo. O risco do dogmatismo no combate ao aquecimento
global é o de retirar as questões do verdadeiro domínio a
que pertencem -- o debate científico. Há, nesse campo, muitas dúvidas.
Dá-se o nome de efeito estufa à cobertura de gases que envolve a
Terra, impedindo que a radiação solar, refletida pela superfície
em forma de calor, se dissipe no espaço. O mecanismo é responsável
pela temperatura amena, sem a qual a vida não seria possível no
planeta. O aumento nas emissões dos gases do efeito estufa, sobretudo o
dióxido de carbono (CO2), resultantes da atividade humana, faz
com que mais calor seja retido. Essa é a causa primária do aquecimento
global.
AP
Leito
seco do Rio Jialing, na China
Nada é simples quando a medida é planetária. "O clima da
Terra é um sistema altamente complexo. Há variáveis que interferem
na temperatura cuja atuação ainda desconhecemos", diz o climatologista
americano Richard Lindzen, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).
O Protocolo de Kioto, hoje desacreditado, pretende frear o aquecimento global
com cortes substanciais nas emissões de CO2. Os ambientalistas
dogmáticos consideram suas metas tímidas. Os céticos as vêem
como inviáveis devido ao custo para a economia de cada país signatário.
Os Estados Unidos, que não aderiram a Kioto, teriam de reduzir em 7% as
emissões de CO2 tendo como referência os níveis
de 1990. Para cumprir tal meta, o país precisaria paralisar 70% de sua
frota de transportes, incluindo carros de passeio, caminhões e trens. Nas
contas um tanto suspeitas da Casa Branca, isso custaria 5 milhões de empregos.
O que os céticos têm a dizer sobre economia é o seguinte:
reduzir os gases do efeito estufa seria muito caro e ineficiente. Melhor seria
utilizar o dinheiro para preparar melhor o mundo para os efeitos inevitáveis
das mudanças climáticas.
A certeza de que o planeta dispõe de tempo decorre de um argumento central
dos céticos, o de que as previsões catastróficas feitas pelo
IPCC não merecem confiança. O problema estaria na metodologia. Cada
cientista usou seu próprio modelo computadorizado, sem se preocupar se
os colegas empregavam critérios diferentes. Alguns levam em conta as condições
da estratosfera, outros desprezam essa variável. O geógrafo Aziz
Ab'Saber, da Universidade de São Paulo, diz: "Os modelos não levam
em conta como o planeta reagiu às variações climáticas
ocorridas no passado. Muitos cientistas afirmam que a elevação da
temperatura e do nível dos mares vai destruir as florestas e grande parte
da fauna. Entre 6.000 e 5.000 anos atrás, numa fase de aquecimento do planeta,
a altura dos mares chegou a ficar 3 metros acima do nível atual. A reação
do planeta a esse quadro foi um aumento da evaporação da água
e uma explosão de crescimento das florestas e da fauna". O geofísico
Paulo Artaxo, também da USP, um dos cientistas que integram o IPCC, admite
que em climatologia as margens de dúvida são grandes. "Esperamos
diminuir bastante nossas incertezas nas próximas décadas, mas, se
esperarmos até lá para reduzir as emissões de carbono, pode
ser tarde demais para frear os efeitos do aquecimento global", ele avalia.
Há nas palavras de Ab'Saber uma hipótese que surpreende: o aquecimento
global pode ter conseqüências positivas. A civilização
humana só foi possível graças ao período interglacial
especialmente longo em que vivemos, iniciado 11.000 anos atrás. Um surto
de excepcional calor entre os séculos IX e XIII permitiu a expansão
da agricultura e o desenvolvimento das cidades na Europa. O aquecimento que se
prevê para este século deve tornar vastas áreas do Canadá,
da Rússia e da Groenlândia próprias para a agricultura. O
que dizer dos países nos quais o aquecimento global, em vez de trazer benefícios,
se traduziria em enchentes e secas? Segundo os céticos, com metade dos
150 bilhões de dólares anuais que as metas do Protocolo de Kioto
custariam aos países signatários, seria possível dotar essas
nações da infra-estrutura necessária para combater os desastres
naturais.
Muitas das medidas seriam relativamente
simples, como a construção de pequenas represas para evitar enchentes.
Em vez de impor cortes radicais nas emissões de CO2, pode-se
desenvolver tecnologias limpas. Os cientistas céticos criticam os relatórios
do IPCC e condenam a redução abrupta das emissões de CO2
-- mas que alternativas eles oferecem para resolver a questão do aquecimento
global? Basicamente, a estratégia concentra-se em duas frentes. A primeira
delas é investir em pesquisas para tornar as energias alternativas mais
baratas e viáveis. Só assim, segundo eles, se conseguirá
diminuir a queima de petróleo e carvão, os grandes emissores de
CO2. Atualmente, a produção de energias alternativas,
como a eólica, chega a custar dez vezes mais do que aquela obtida pela
queima de material fóssil. A segunda estratégia dos céticos
para combater o efeito estufa é retomar questões que andam fora
de moda desde que o aquecimento global passou a monopolizar as atenções
-- a preservação dos recursos naturais do planeta, o combate à
pobreza e às doenças causadas por ela.
Image.net
O
PROFETA DO AQUECIMENTO Al Gore: um Oscar
e um Nobel por sua cruzada contra o efeito estufa não eliminam a questão – o mundo
está mesmo à beira do desastre?
Muitos críticos olham com cautela as previsões do IPCC devido à
estrutura do painel da ONU. O infectologista inglês Paul Reiter, do Instituto
Pasteur, de Paris, disse a VEJA: "Ouvimos falar que os relatórios do IPCC
são fruto do trabalho de 2.500 dos maiores cientistas do mundo. Não
é bem assim. Nem todos os autores dos estudos são selecionados por
suas contribuições à ciência. Em muitos casos prevalecem
os critérios políticos". Reiter pediu para retirar seu nome do terceiro
relatório do IPCC por discordar da associação feita entre
a alta temperatura e o aumento do risco de doenças como a malária.
"O calor não é o fator preponderante para a proliferação
da doença, já que no Ártico há mosquitos transmissores
em abundância e a maior epidemia da doença já registrada ocorreu
na União Soviética, nos anos 20, com 13 milhões de casos
e 600.000 mortes", afirma o cientista.
O núcleo de trabalho do IPCC é formado por 450 autores principais
e 800 colaboradores, que selecionam as pesquisas científicas e decidem
quais delas serão incluídas nos relatórios. Os nomes que
compõem os dois grupos são indicados pelos governos de 130 países-membros
do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. Nem todos são
cientistas. Há entre eles ministros de estado e diretores de entidades
ambientais. O documento final é submetido à aprovação
de uma comissão de representantes dos governos envolvidos. Cada um deles
tem o poder de solicitar a supressão ou a inclusão de trechos, de
acordo com o interesse de seus governantes. O Brasil conseguiu incluir no texto
a afirmação de que o desmatamento e as queimadas pesam menos no
aquecimento global que a queima de combustíveis fósseis. A alteração
interessava porque 75% das emissões de CO2 feitas pelo país
decorrem de queimadas e do desmatamento. Quando consideradas apenas as emissões
de CO2, o Brasil é o 16º maior poluidor. Incluindo a devastação
ambiental, salta para a quarta posição. "A seleção
do IPCC não distingue se os autores dos relatórios são autoridades
científicas no assunto ou apenas burocratas, e isso, em certos casos, pode
atrapalhar o resultado", diz o climatologista José Marengo, do Instituto
Nacional de Pesquisas Espaciais, que não fecha com os céticos e
já representou tanto o Brasil quanto os Estados Unidos nas reuniões
do IPCC.
Caso todas as ressalvas dos céticos
se provem equivocadas, pelo menos se deve creditar a eles o mérito de reafirmar
com toda a ênfase a necessidade de usar com parcimônia os recursos
naturais da Terra. Os estudos sobre o aquecimento global, por sua própria
natureza, encaram o planeta como uma entidade única, com suas "temperaturas
médias" e com a elevação do nível "dos oceanos". Na
realidade, cada grupo de cidadãos do planeta vive em seu próprio
microclima, com características únicas. No dia-a-dia, quem mora
na África Subsaariana está mais preocupado em saber quando virão
as próximas chuvas da estação do que com as enchentes que
poderão ocorrer dentro de cinqüenta ou 100 anos. A poluição
que é lançada na atmosfera e aquece o mundo preocupa, mas, segundo
a Organização Mundial de Saúde, mais de 3 milhões
de pessoas morrem por ano nas grandes cidades por causa dos efeitos nocivos da
poluição localizada. "Ser cético não é ser
contrário ao ambiente. É zelar pelo ambientalismo de forma coerente",
disse a VEJA Chris de Freitas, professor de ciência ambiental na Universidade
de Auckland, na Nova Zelândia.
O
maior perigo imediato representado pelo aquecimento global parece ser de outra
ordem: ter colocado em segundo plano nas preocupações mundiais uma
série de tarefas urgentes se queremos salvar o planeta. Os oceanos estão
morrendo devido à exploração excessiva de seus recursos.
A pesca industrial já reduziu em 90% a população dos grandes
peixes oceânicos. O consumo de água no mundo cresceu seis vezes nos
últimos 100 anos. O resultado é que um terço da população
mundial vive em regiões onde a água é escassa, parcela que
deve dobrar até 2025. É irônico, mas a obsessão em
torno das mudanças climáticas pode estar se transformando na forma
errada de salvar o planeta.
ESTAMOS
ASSUSTADOS DEMAIS
O
dinamarquês Bjorn Lomborg, da Copenhagen Business School, é o mais
prestigiado dos cientistas céticos com relação ao aquecimento
global. Eleito pela revista Time
como uma das 100 pessoas mais influentes do mundo, ele acaba de lançar
o livro Cool It: The Skeptical Environmentalist's Guide to Global Warming,
ainda sem tradução no Brasil. Lomborg falou a VEJA:
DIARIAMENTE SURGEM NOTÍCIAS PREVENDO MUDANÇAS CLIMÁTICAS
DRÁSTICAS. ESTAMOS DIANTE DE UMA CATÁSTROFE IMINENTE? É
claro que o aquecimento global existe e representa um problema, mas estamos assustados
demais com ele. O aquecimento global é uma questão de longo prazo,
com conseqüências perceptíveis dentro de 100 anos. De fato,
ele pode aumentar o risco de desastres naturais, mas em proporção
muito menor do que se diz.
O QUE PODE SER FEITO HOJE PARA EVITAR OS DANOS DO AQUECIMENTO GLOBAL NO FUTURO?
Nas atuais circunstâncias, muito pouco pode ser feito. Hoje, 13% da energia
usada no mundo é renovável. Estima-se que, em 2030, essa cifra não
passe de 14%. Se queremos reduzir as emissões de carbono, temos de investir
em pesquisa para tornar as energias alternativas mais baratas e viáveis
economicamente. Trocar as lâmpadas da casa por modelos econômicos
é uma atitude louvável, mas as mudanças precisam ser estruturais.
Reduzir drasticamente as emissões de carbono nos próximos dez ou
vinte anos, como propõem alguns governos, é atropelar a realidade.
O SENHOR DIZ QUE HA QUESTÕES AMBIENTAIS MAIS IMPORTANTES DO QUE O AQUECIMENTO
GLOBAL. QUAIS SÃO ELAS? Num planeta onde 15 milhões de pessoas
morrem todo ano por causa de doenças infecciosas que poderiam ser evitadas,
e no qual só se fala em efeito estufa, me parece que estamos invertendo
nossas prioridades. Mais importante que o aquecimento é o combate à
aids, à fome e à malária. Há coisas incríveis
que podemos fazer agora, com melhores resultados e a um custo bem inferior ao
do combate ao aquecimento global.
QUE OUTRAS COISAS DEVERIAM SER FEITAS EM VEZ DE COMBATER COM URGÊNCIA
O AQUECIMENTO? Quando um furacão atinge o Haiti, ele é muito
mais letal do que quando atinge a Flórida. Isso porque os haitianos são
mais pobres e têm menos condições de tomar medidas preventivas
contra os danos dessas catástrofes. Se conseguíssemos romper com
o círculo da pobreza e investíssemos em mais infra-estrutura em
regiões carentes, deixaríamos as populações menos
vulneráveis aos efeitos das mudanças climáticas. Fornecer
água potável, saneamento, cuidados médicos e educação
a todas as populações pobres do mundo, segundo a ONU, custaria 75
bilhões de dólares. É metade do custo anual que os países
teriam se conseguissem cumprir 100% de suas metas de cortes na emissão
de carbono.