Lula pode ser um cabo
eleitoral decisivo nas próximas
eleições. Mas ele consegue transferir votos?
Diego Escosteguy
Ricardo Stuckert/PR
Lula desfila nas ruas de Brazzaville,
capital do Congo: os eleitores fiéis ao presidente podem
decidir as eleições de 2010
As primeiras sondagens
sobre as eleições presidenciais de 2010 mostram
que, se nada de extraordinário ocorrer até lá,
o presidente Luiz Inácio Lula da Silva exercerá
um papel importante na própria sucessão. Personagem
principal das últimas cinco eleições,
ele não estará entre os candidatos. Em entrevistas
recentes, Lula disse que pretende se empenhar na campanha
de seu sucessor usando, para isso, um capital hoje muito expressivo:
sua popularidade. Uma pesquisa divulgada na semana passada
pelo instituto Sensus mostra que o presidente é um
cabo eleitoral poderoso. Somente 27% dos entrevistados disseram
que não votariam em um candidato apoiado por Lula.
O restante admite a possibilidade de seguir a orientação
do presidente. Isso, porém, não quer dizer que
o escolhido por Lula possa começar a pensar na faixa
presidencial. De acordo com a pesquisa, 10% votariam cegamente
no sucessor indicado por Lula, independentemente de quem seja,
25% admitem a possibilidade e 32% tomariam a decisão
apenas depois de conhecer o candidato. Ou seja: o fato de
o presidente ser popular não significa necessariamente
que ele consiga ou queira transferir esse patrimônio
para um aliado. Essa será a principal incógnita
dos próximos três anos.
"A
transferência de votos não será fácil.
O eleitor de Lula identifica-se com ele, com a sua trajetória
sofrida e com a origem pobre do presidente. Não há
um candidato com perfil semelhante", explica o diretor do
Datafolha, Mauro Paulino. A pesquisa colheu indícios
que revelam a dificuldade que o presidente terá para
tentar fazer o sucessor. Quando se perguntou para quem seria
o voto se as eleições fossem hoje, os potenciais
candidatos mais ligados a Lula tiveram um desempenho pífio.
Os três mais bem posicionados, aliás, foram os
tucanos José Serra, Geraldo Alckmin e Aécio
Neves adversários do presidente. Logo depois
apareceu Ciro Gomes, o mais bem colocado da base governista.
Possíveis pré-candidatos do PT, como o governador
Jaques Wagner e o ministro Tarso Genro, quase registram traço.
A pesquisa é inequívoca. Dela, depreende-se
que há três fortes pré-candidatos da oposição
e, com certo otimismo, um do governo no caso, Ciro
Gomes. O dado animador para os governistas é que o
número de eleitores que se declaram fiéis a
Lula e dizem que votam em quem ele indicar é o dobro
do que normalmente registram os governantes mais bem avaliados.
"É um porcentual extraordinário", afirma Ricardo
Guedes, diretor do Sensus. "Normalmente, um governante bem
avaliado não atinge mais do que 5% nesse quesito."
Os candidatos governistas
podem se animar ainda mais com outro índice detectado
pela pesquisa o que mostra que um quarto dos entrevistados
admite seguir a orientação presidencial. Esse
quesito sugere que o presidente tem um enorme potencial de
transferência de votos caso sua popularidade se mantenha
nesse patamar o que pode se constituir no fator decisivo
numa campanha concorrida, como pode ser a de 2010. O problema,
dessa forma, ficaria restrito ao herdeiro. Não é
bem assim. VEJA conversou com um influente assessor presidencial,
que tem participado das discussões sobre o perfil do
melhor candidato oficial para disputar as eleições.
Segundo ele, ainda é muito cedo para pensar em transferência
de votos. Até porque o presidente tem dado sinais de
que pretende voltar a disputar a eleição presidencial.
Antes de embarcar para uma viagem à África,
na semana passada, Lula deu uma entrevista à Folha
de S.Paulo em que deixou clara essa disposição.
Quando o jornal lhe perguntou se descartaria a possibilidade
de voltar candidato em 2014, Lula disse que não. "Por
isso é importante observar até que ponto Lula
estará disposto a ajudar o candidato do governo. Essa
disposição é que vai definir as chances
do escolhido", diz o assessor presidencial. Imaginar que o
presidente queira trabalhar contra um candidato oficial pode
parecer extravagante, mas não seria inédito.
Em 2002, os esforços do ex-presidente Fernando Henrique
Cardoso para eleger José Serra ficaram, na análise
de altos tucanos, aquém do desejado.