"O padre Júlio
Lancellotti ofereceu ao morador
de rua que ameaçou denunciá-lo por pedofilia
o aluguel de uma casa, uma bicicleta, uma moto,
um terreno, uma viagem à praia e uma Mitsubishi
Pajero. Bem que poderia estender sua 'amizade
íntima' a todos os moradores de rua da cidade"
O padre Júlio
Lancellotti era o coordenador da Pastoral do Povo de Rua.
A partir de agora, ele será conhecido também
como o coordenador da Pastoral da Mitsubishi Pajero.
Recapitulo. Em
meados de 2005, segundo o próprio padre Júlio
Lancellotti, um assassino chamado Anderson Batista o acusou
de abusar de seu enteado de 8 anos e passou a chantageá-lo
com pedidos regulares de dinheiro. Como um Michael Jackson
da Mooca, o padre Júlio Lancellotti negou ter abusado
do menino. Como um Michael Jackson do Belenzinho, ele preferiu
pagar o chantagista mesmo assim. No total, foram mais de
50 000 reais, incluindo o pagamento de vinte parcelas de uma
Mitsubishi Pajero.
A polícia
terá de esclarecer todos os aspectos do relacionamento
do padre Júlio Lancellotti com o chantagista, definido
pelo advogado deste último como "amizade íntima".
Foi chantagem? Foi presente? A polícia terá
de esclarecer igualmente se o dinheiro usado para pagá-lo
saiu de suas economias pessoais ou da entidade beneficente
que ele dirige. O padre Júlio Lancellotti declarou
que pode contar apenas com os 1 000 reais que recebe da Igreja.
Mentira. Desde 1975, ele é funcionário contratado
da Febem, e continua a ganhar do estado um salário
de 2 480 reais. Além disso, a prefeitura repassa mensalmente
à sua ONG, Bom Parto, 500 000 reais. É preciso
saber se a Mitsubishi Pajero foi comprada com esse dinheiro.
No ano passado,
o padre Júlio Lancellotti acusou a prefeitura paulistana
de "práticas higienistas", por querer tirar os moradores
de rua do centro da cidade, oferecendo-lhes "só um
albergue". Pode-se argumentar que o padre Júlio Lancellotti
ofereceu ao morador de rua que ameaçou denunciá-lo
por pedofilia muito mais do que um albergue. Ofereceu-lhe
o aluguel de uma casa, uma bicicleta, uma motocicleta, um
terreno, uma viagem à praia e ei-la uma
Mitsubishi Pajero. Bem que ele poderia estender sua "amizade
íntima" a todos os moradores de rua da cidade.
VEJA publicou uma
reportagem sobre a disputa entre a prefeitura paulistana e
o padre Júlio Lancellotti. Ele chamou a revista de
"autoritária". A petista Maria Vitória Benevides
foi mais longe chamou VEJA de "fascistóide".
E o Observatório da Imprensa comentou a reportagem
num artigo cheio de termos de duplo sentido, cujo significado
só agora consegui entender: "o rabo do texto", "erguer
o traseiro", "jornalismo de latrina", "o padre Júlio
estende a mão", "via inversa", "amante da dialética",
"iguaria de fel", "vanguarda do atraso".
O padre Júlio
Lancellotti participou de todas as campanhas eleitorais de
Lula. Em 2002, ao tratar do problema dos menores abandonados,
Lula apresentou a seguinte solução: "Você
pega o padre Júlio e bota ele para cuidar de criança,
ele vai cuidar melhor do que qualquer aparelho de estado".
Dependendo do que a polícia descobrir, talvez não
seja uma idéia tão boa assim botar o padre Júlio
para cuidar de criança.