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Repórter em
causa própria
Chega
às livrarias uma biografia
do jornalista David Nasser, estrela
da imprensa nacional. Haja lama

Marcelo Marthe
O
repórter David Nasser é uma figura lendária na imprensa
brasileira. Por três décadas, ele foi a principal estrela
da revista O Cruzeiro, que chegou a ter tiragens acima dos 700.000
exemplares e foi o veículo mais influente do país entre
os anos 40 e 60. Dono de um texto afiado e de uma incrível disposição
para sair em busca de notícias, ele revolucionou o jornalismo brasileiro.
Seus textos eram cheios de elementos literários. Quando achava
que a notícia por si só não tinha muita graça,
o repórter não relutava em dar asas à imaginação.
"Se o fato atrapalhasse, ele punha de lado", resume Jorge Ferreira, um
jornalista da época. Isso nunca foi mistério. Mas, além
desse aspecto quase folclórico de sua trajetória (a que
se junta sua atividade como compositor de quase 300 canções
populares, entre elas Nega do Cabelo Duro), Nasser também
teve um lado nefasto. Usou seu talento para angariar vantagens e enriquecer,
perseguir desafetos e defender uma monstruosidade como o Esquadrão
da Morte. Com lançamento previsto para esta semana, a biografia
Cobras Criadas (Senac; 600 páginas; 45 reais), do jornalista
Luiz Maklouf Carvalho, explora a fundo pela primeira vez as duas faces
do repórter.
uzeiro
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O Cruzeiro
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| Uma
capa de O Cruzeiro e a foto famosa de Barreto Pinto: métodos
nada ortodoxos |
Nasser começou
a escrever em O Cruzeiro em 1943. Fez uma parceria famosa com o
fotógrafo francês Jean Manzon. São muitos os exemplos
de matérias bombásticas produzidas pela dupla. A mais conhecida
delas, Barreto Pinto sem Máscara, de 1946, mostra o deputado
e amigo do ex-ditador Getúlio Vargas trajando fraque e uma cueca
samba-canção. A ousadia escandalizou o país. Barreto
Pinto acusou os jornalistas de o terem enganado, dizendo que só
publicariam as fotos da cintura para cima o que não evitou
que ele tivesse o mandato cassado. Outra reportagem nada ortodoxa é
o relato "exclusivo" sobre a estadia no Brasil de madame Chiang Kai-shek,
mulher do líder anticomunista da China. A matéria descreve
em detalhes um encontro com a personagem, arredia à imprensa, e
exibe uma foto dela ao longe. Anos depois, em entrevista a outro jornalista
brasileiro, madame desmentiu qualquer contato com Manzon e Nasser. Até
mesmo a fotografia foi falsificada quem aparecia em seu lugar,
desconfia-se, era o próprio Nasser, de quimono. Na reportagem Nós
Voltaremos!, narra um mirabolante plano para derrubar o presidente
Dutra e restabelecer a ditadura de Vargas. Pasme: o ponto de partida para
a matéria era um manuscrito encontrado dentro de uma garrafa na
Praia de Copacabana por um desconhecido. Maklouf resgata esses casos,
contrapondo depoimentos e analisando cada detalhe inverossímil.
Mostra como Nasser inventava fontes de informação, descrevia
lugares e situações em que nunca estivera, e por aí
afora. "Minha geração já sabia que ele era um cascateiro,
mas o livro é demolidor, não resta um fiapo de credibilidade",
diz o escritor Fernando Morais, autor de Chatô O Rei do
Brasil, que teve acesso às primeiras versões da biografia.
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| Com
Chatô, já no fim da vida do empresário: Nasser
era o funcionário preferido |
Em
casa, com integrantes do Esquadrão da Morte: ele pediu para
ser enterrado com a bandeira do grupo |
Nasser foi
imbatível nesse tipo de malandragem, mas não era o único.
Na imprensa daquela época, o conceito de ética revelava-se
bastante elástico. Ofensas pessoais e distorção dos
fatos faziam parte do arsenal aceito para uso jornalístico. O próprio
Assis Chateaubriand, dono de O Cruzeiro, era um polemista sanguinário.
Fez de Nasser o seu preferido justamente por apreciar seu jeito "amoral".
Com o tempo, porém, o repórter foi alargando ainda mais
as fronteiras do que era permitido. Cobras Criadas revela como
ele vendeu a sua influência para construir um patrimônio considerável.
Nasser foi relações-públicas do empreiteiro André
Cateyson, para quem teria intermediado favores junto a Juscelino Kubitschek,
então governador de Minas Gerais. Numa época de crise na
produção de ferro, conseguiu "diversas vezes", segundo
uma testemunha que JK liberasse minério da estatal Belgo-Mineira
para as obras do empreiteiro. Nos arquivos do jornalista, Maklouf encontrou
comprovantes de que o construtor bancou, em agradecimento, uma reforma
num de seus imóveis. Daí para a frente, tomou gosto pela
atividade de lobista e pela intriga política, o que lhe permitiu
usar seus artigos como moeda de troca em negociatas, graças às
quais ganhou até fazendas de presente.
Suas melhores
conexões eram com a direita. Ele foi ativo conspirador do golpe
militar de 1964, por exemplo. Mas a menina de seus olhos, no final da
vida, foi mesmo a chamada Scuderie Le Cocq o Esquadrão da
Morte formado por policiais civis cariocas que eliminava bandidos (e também
gente inocente) nos anos 60 e 70. Mais do que defensor inflamado, trouxe
os "jagunços", como dizia, para dentro de casa. Gostava de passear
de carro com essa corja e apontar criminosos que gostaria de ver "apagados".
Ele até se oferecia para tomar parte de batidas o que nunca
lhe foi permitido. Quando Nasser morreu, em 1980, aos 63 anos, a bandeira
do grupo cobriu seu caixão.
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