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Edição 2079

24 de setembro de 2008
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Música
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22 Dreams mostra por que Paul Weller, apesar
do penteado, é um dos maiores nomes do pop inglês


Sérgio Martins

Jo Hale/Getty Images
RADICAL CHIC
Weller: coleção de ternos e discurso punk


Por que um homem escolheria um cabelo que o faz parecer um hobbit? Por que usar um penteado que só pode ser descrito no estilo dos contos de horror de H.P. Lovecraft – "uma abominação sem nome e sem forma, que a mente é incapaz de compreender"? Ao adotar seu visual de hoje, o inglês Paul Weller jogou por terra décadas de reputação como um dos homens mais elegantes da Inglaterra. Era triste imaginar que a loucura também houvesse afetado o seu trabalho de compositor. Mas nesta semana, com o lançamento do disco 22 Dreams no Brasil, chega uma resposta alentadora. Weller continua são musicalmente. Mais que isso: produziu seu melhor disco-solo, com 21 canções, cada uma delas num estilo: rock, soul, valsa, balada. Foi só o cabelo que desandou.

Poucos artistas exerceram tanta influência sobre o pop inglês quanto esse roqueiro de 50 anos. Em 1975, ele formou o The Jam, trio que uniu a energia do punk rock com a soul music americana. Na década seguinte, juntou-se ao tecladista Mick Talbot para criar o Style Council. O duo fazia um pop refinado, pioneiro em assimilar influências como a bossa nova. Weller iniciou sua carreira-solo em 1991, para um público menor, mas sem perder o estilo. Com freqüência, aliou-se a integrantes do Oasis e do Blur, os dois maiores ícones do movimento britpop, que sempre alardearam sua dívida para com o veterano. A barreira que Weller nunca conseguiu romper foi a do mercado americano. Nos Estados Unidos, suas músicas – e suas letras, especialmente – são consideradas "britânicas demais".

Weller é filho da classe operária. Seu pai era pedreiro e sua mãe trabalhava como faxineira. Portanto, não é de admirar que ele tenha escolhido o punk rock como veículo de expressão. O movimento surgiu na Inglaterra em meados da década de 70 e era capitaneado por garotos pobres, que mal sabiam tocar, e cujas letras derrubavam tudo. O Jam, a princípio, era uma banda rápida e agressiva. Com o passar do tempo, acomodou a raiva das letras a ritmos mais dançantes e de arranjos primorosos – um exemplo é a canção Smithers-Jones, que tem um naipe de cordas e conta a história de um funcionário-modelo que sonha com uma promoção, mas é dispensado pela chefia. O discurso inconformista permaneceu intacto até nos tempos do Style Council, que tinha uma sonoridade pop e chegou a emplacar a bossa You’re the Best Thing nas paradas. Weller foi um crítico severo de Margaret Thatcher, primeira-ministra da Inglaterra. Muitas das canções do duo faziam menção à política – por exemplo, Walls Come Tumbling Down (algo como "Os Muros Estão Desabando"). Weller nunca abandonou a atitude do contra: dois anos atrás, recusou-se a ser condecorado pela rainha da Inglaterra.

Talvez mais ainda que a política conservadora, uma coisa que Weller o-dei-a é a falta de estilo dos artistas da nova geração. Ele tem uma enorme coleção de ternos, participa de ensaios de moda e assinou o prefácio de Soul Stylists, uma biografia dos mods (tribo inglesa surgida na década de 60 que se orgulhava dos ternos bem cortados e do talento para briga). "Sou incapaz de distinguir um roqueiro de um rapper", declarou ele, recentemente, ao jornal The Independent. Não se referia à produção musical dessa gente, mas à mania de limitar o guarda-roupa à tríade jeans-camiseta-moletom. "Antigamente, você sabia qual era a tribo de um roqueiro pelo seu jeito de se vestir. Hoje em dia, isso é impossível." Em outubro, o guarda-roupa de Weller também poderá ser avaliado pelos brasileiros. Ele desembarca no país, pela primeira vez, para shows no Rio e em São Paulo. Os shows prometem. Sobretudo, se o cabelo já for outro.



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