No centenário
de sua morte, o autor de Dom Casmurro continua instigando
críticos, historiadores,
leitores. O mulato de origem humilde que nunca
freqüentou uma universidade e quase nunca saiu do
Rio de Janeiro é o mais universal dos escritores brasileiros
Jerônimo Teixeira
Reprodução
O GÊNIO TARDIO O jovem Machado
de Assis: farrista, ele gostava do teatro e da boemia,
mas também lutava para subir socialmente e tinha
plena consciência de sua superioridade intelectual
Joaquim Maria Machado de Assis teve a mais improvável
das histórias de sucesso literário. Nascido
em 1839, no Rio de Janeiro, então uma cidade de 200
000 habitantes, era filho de uma lavadeira e de um pintor,
e neto de escravos libertos. Sem nunca ter freqüentado
uma universidade ou posto os pés na Europa, o autor
cujo centenário da morte é lembrado no próximo
dia 29 tornou-se a figura central da literatura brasileira
de seu tempo. Mas conquistar a proeminência literária
na jovem nação brasileira cujo maior
talento até ali fora José de Alencar
não é o fato extraordinário. O verdadeiro
milagre é queMachado de Assis tenha se tornado
um autor de primeira linha da literatura mundial, um mestre
que pode ombrear, sem favor, com os expoentes do romance europeu,
como o francês Flaubert ou o russo Tolstoi. E chegou
lá depois dos 40 anos, com a publicação,
em 1880, de Memórias Póstumas de Brás
Cubas, ainda hoje o romance mais inovador (e engraçado)
já escrito por um brasileiro. "É uma bobagem
dizer que Machado de Assis foi um gênio. Ele se tornou
genial à custa de muito trabalho", observa o crítico
João Cezar de Castro Rocha, da UERJ. "A lição
de Machado vai na contramão da cultura do fácil,
do espontâneo, do improviso, que ainda predomina no
Brasil."
Como todo grande
escritor, Machado de Assis é inesgotável: presta-se
às interpretações mais diversas, muitas
delas conflitantes (para não falar no problema insolúvel
mas irresistível que Dom Casmurro propõe
ao leitor: Capitu, afinal, traiu ou não Bentinho?).
Uma mostra da vitalidade de sua obra está no seu potencial
de inspirar batalhas entre os intérpretes. O grande
provocador da cena crítica atual é o português
Abel Barros Baptista, da Universidade Nova de Lisboa, autor
de dois livros sobre Machado de Assis publicados no Brasil
pela Editora da Unicamp, A Formação do Nome
e Autobibliografias. Baptista reprova a maior parte
dos críticos de Machado Antonio Candido, Roberto
Schwarz, Silviano Santiago, John Gledson por subjugarem
o autor de Quincas Borba a um certo projeto de literatura
nacional. "O paradigma que vem desde o modernismo brasileiro
não reconhece a literatura se não for discussão
da nacionalidade. A grandeza e a originalidade de Machado
de Assis ficam empobrecidas com a persistência desse
modelo, que torna a crítica previsível, aborrecida",
diz Baptista.
Riqueza "A riqueza
tem isto de bom consigo, é que a simples
vista consola"
A tentativa de Baptista
de tirar Machado da pauta nacionalista tem um inegável
alcance crítico. Pode "desprovincianizar"
Machado, torná-lo um escritor que indiretamente conversa
com Dostoievski e Freud, e não apenas com Alencar e
Joaquim Manuel de Macedo. Para ser justo, porém, é
preciso observar que os estudiosos criticados por Baptista
não reduziram o escritor a um nacionalista vulgar.
"Machado, como o argentino Jorge Luis Borges depois dele,
conseguiu ao mesmo tempo dar atenção à
tradição literária local e resistir à
pressão que então existia para fazer uma literatura
nacional", diz o crítico Luís Augusto Fischer,
da UFRGS, que recentemente lançou Machado e Borges.
Reprodução/Fernando
Lemos/Acervo Brasca
NOSTALGIA Vista do Rio com o Morro
do Castelo, que foi derrubado no século XX: tempo
que sobrevive em Machado
A biografia de
Machado de Assis guarda zonas de sombra. Não se sabe,
por exemplo, como ele aprendeu francês, idioma cultural
dominante no Brasil do século XIX. O maior mistério
de Machado reside no fato de ele ser ao mesmo tempo um escritor
precoce (com 15 ou 16 anos já andava publicando uns
poeminhas na imprensa) e tardio (é só depois
dos 40 que sua obra realmente ganha relevância). O mais
criterioso trabalho biográfico já publicado
sobre Machado de Assis infelizmente se concentra apenas no
período de 1839 a 1870, antes de o convencional autor
de Iaiá Garcia se metamorfosear no revolucionário
criador de Brás Cubas. Trata-se de A Juventude
de Machado de Assis, do francês Jean-Michel Massa,
professor da Universidade de Rennes 2 (o livro, publicado
em 1969, está esgotado; uma nova edição
revisada pelo autor deve sair no ano que vem). As pesquisas
de Massa desfizeram equívocos e lendas que se acumulavam
no folclore machadiano como a anedota segundo a qual
o adolescente Machado teria aprendido francês em uma
padaria pertencente a uma francesa. O perfil traçado
por Massa revela um jovem de origem pobre que desejava subir
na escala social e, sobretudo, desejava reconhecimento
intelectual. "Machado era ambicioso. Tinha uma noção
muito clara do seu próprio valor. Pode-se até
dizer que ele sabia de sua superioridade em relação
aos seus pares no mundo literário brasileiro da época,
mas, claro, não podia afirmar essa superioridade com
todas as letras", disse Massa a VEJA. O esforço
de Machado para se afirmar como escritor passou pela poesia
e pela crítica teatral, antes da descoberta da prosa
de ficção como veículo ideal para seu
talento. Engana-se quem imagina que Machado tenha sido um
tipo grave e "filosófico", imbuído
das "rabugens de pessimismo" de que fala Brás
Cubas. "No tempo em que freqüentava o teatro, na
década de 1860, Machado era um farrista", diz
Massa (não se conhece, porém, a extensão
de seu envolvimento com atrizes e mulheres do teatro. Era,
afinal, um homem discreto).
Perdas
e ganhos "Nem tudo
se perde nos bancos; o mesmo dinheiro, quando alguma
vez se perde, muda apenas de dono"
Fotos reprodução,
Museu Histórico Nacional
NA
INTIMIDADE
A casa em que Machado viveu, no bairro carioca do Cosme
Velho (no alto), o autor sendo acudido na rua
numa crise de epilepsia (acima) e a mulher, Carolina:
homem de saúde frágil e marido exemplar
O salto que a literatura de Machado dá por volta de
1880 é surpreendente. "Se o mestre tivesse desaparecido
depois da publicação de Iaiá Garcia,
em 1878, teria deixado uma obra em que a poesia e a prosa
se equilibram no mesmo nível de mediocridade",
observou, com acerto, Manuel Bandeira. Vale dizer: se houvesse
morrido logo depois de Iaiá Garcia, seu quarto
romance, Machado de Assis não seria hoje objeto de
homenagens, conferências, simpósios, exposições,
reedições. Alguns fatores pessoais costumam
ser apontados como em alguma medida determinantes dessa espantosa
evolução. Passada a juventude inconseqüente,
e a errância de um trabalho para outro, Machado enfim
conhecia a estabilidade econômica e afetiva, casado
desde 1869 com a portuguesa Carolina mulher muito culta,
que dominava o inglês e empregado como funcionário
público no Ministério da Agricultura. De outro
lado, entre 1878 e 1879, o escritor sofreu graves problemas
de saúde, com crises nervosas (era epilético),
problemas digestivos e uma infecção nos olhos.
Passou uma temporada em Nova Friburgo uma das poucas
ocasiões em que saiu do Rio natal para se tratar.
Lúcia Miguel Pereira, autora de uma biografia clássica
de Machado publicada em 1936, especula que o retiro no interior
foi fundamental para que o autor reunisse forças para
inaugurar a nova fase de sua obra. Todas as explicações,
porém, são insuficientes diante das memórias
que Brás Cubas personagem meio canalha, mas
muito charmoso compõe no além-túmulo,
em um exame ao mesmo tempo cáustico e complacente,
melancólico e cômico de sua existência
medíocre e ociosa. Depois de Brás Cubas
viriam outros quatro grandes romances Quincas Borba,
Dom Casmurro, Esaú e Jacó e Memorial
de Aires e dezenas de contos magníficos
A Causa Secreta, Capítulo dos Chapéus,
Missa do Galo, Pai contra Mãe, para citar apenas
alguns , que o escritor foi recolhendo em coletâneas
com títulos quase sempre inexpressivos (Histórias
sem Data, Várias Histórias, Páginas Recolhidas).
Muitos acham que Machado se realiza melhor na narrativa curta
do que no romance o escritor Dalton Trevisan considera
Esaú e Jacó, por exemplo,um romance
tedioso e sem vida. Os mais de 200 contos da obra machadiana
também incluem suas bobagens, como a fábula
moralista Um Apólogo , mas o nível
geral é magistral, e talvez os contos sejam mesmo superiores
à obra romanesca.
Egoísmo "Suporta-se
com paciência a cólica do próximo"
Brás Cubas
provocou alguma estranheza quando saiu. O historiador
Capistrano de Abreu, em página crítica que ficou
famosa, chega a se perguntar se o livro é mesmo um
romance. Mas Machado já era então um escritor
consagrado e seria celebrado de forma virtualmente unânime
até sua morte, em 1908 (a exceção escandalosa
a esse coro laudatório foi o livro Machado de Assis,
de 1897, um ataque furibundo de Sílvio Romero; o crítico
sergipano acusava o estilo machadiano de demonstrar "uma
perturbação qualquer nos órgãos
da palavra" referência deselegante à
gagueira que afligia o escritor). Machado tornou-se um autor
institucional, não por acaso, o primeiro presidente
da Academia Brasileira de Letras. Essa ascensão se
deu ao custo de recalcar o passado humilde e as origens étnicas
do escritor. Em uma carta de 1908, Joaquim Nabuco censura
o crítico José Veríssimo por ter usado
a palavra "mulato" (pejorativa, segundo Nabuco)
em um artigo de homenagem a Machado, que morrera havia pouco.
"Machado para mim era um branco, e creio que por tal
se tomava; quando houvesse sangue estranho, isto em nada afetava
a sua perfeita caracterização caucásica.
Eu pelo menos só via nele o grego."
Machado acabaria
se confundindo com os figurões fátuos da sociedade
carioca que ele mesmo satirizara no conto Teoria do Medalhão.
Por muito tempo vigorou a noção de que ele
era um refinado esteta, desinteressado das questões
de seu tempo e lugar. Os modernistas dos anos 20 veriam a
sua obra com extrema reticência. "Nossa alma em
contínua efervescência não está
em comunhão com sua alma hipercivilizada", diria
o jovem Carlos Drummond de Andrade em um artigo de 1925. Em
seu clássico Raízes do Brasil, de 1936,
o sociólogo Sérgio Buarque de Holanda apresenta
o autor de Quincas Borba como o expoente da literatura
artificiosa, desencantada e distanciada da "realidade
cotidiana" que então se praticava Machado
era "a flor dessa planta de estufa".
Desilusão "Não te
irrites se te pagarem mal um benefício: antes
cair das nuvens, que de um terceiro andar"
A tolice de que
o autor de Dom Casmurro teria sido um "alienado"
foi posta abaixo pela crítica a partir dos anos 70,
em uma série de obras que hoje se consagraram como
fundamentais para o entendimento de Machado Machado
de Assis: Impostura e Realismo, do inglês John Gledson,
A Pirâmide e o Trapézio, de Raymundo Faoro,
e Ao Vencedor as Batatas, de Roberto Schwarz. Com referenciais
teóricos distintos, os três autores apontavam
para a dimensão histórica profunda da ficção
machadiana. "Não há mais como ver conformismo
ou omissão em Machado de Assis", diz o historiador
Sidney Chalhoub, da Unicamp cujo livro Machado de
Assis Historiador, de 2003, desmanchou outro equívoco
persistente sobre o escritor: o de que ele teria sido um funcionário
público aplicado, mas conformista. Chalhoub pesquisou
os documentos da seção do Ministério
da Agricultura chefiada pelo escritor. Seu foco foi de meados
dos anos 1870 até o fim da década de 1880, período
em que o Ministério da Agricultura lidou com a difícil
aplicação da Lei do Ventre Livre, aprovada em
1871. Os despachos que podem ser claramente atribuídos
a Machado de Assis não são abundantes, mas revelam
muito. Nas suas recomendações, o escritor foi
fiel às convicções liberais que mantinha
desde a juventude: interpretava a lei no seu espírito
emancipador e tendia a contrariar os interesses dos senhores
de escravos. "O trabalho em uma repartição
pública está submetido a uma série de
limites que Machado não podia romper. Mas, como chefe
de seção, ele tentava esgarçar esses
limites, no sentido de submeter o poder privado ao domínio
da lei", diz Chalhoub. E o poder privado do proprietário
de escravos não aceitava que o estado deitasse as leis.
Na ficção de Machado, essa mentalidade está
retratada, com a habitual ironia, na figura do Barão
de Santa-Pia, personagem do último romance do autor,
Memorial de Aires. Confrontado com a iminência
da abolição, em 1888, o barão decide
alforriar todos os seus escravos, pois não admitia
que o poder público lhe tirasse essa prerrogativa.
O
Mal "Não
se perde nada em parecer mau; ganha-se quase tanto como
em sê-lo"
Um dos maiores estudiosos
da dimensão histórica da obra de Machado, o
crítico John Gledson (também responsável
pela tradução de Dom Casmurro em inglês),
da Universidade de Liverpool, diz que há uma coerência
profunda entre a obra e as posições políticas
do autor. "Machado de Assis foi um liberal convicto a
vida toda. É verdade que jamais foi republicano, mas
ele sabia que o fim da monarquia era inevitável
e essa consciência do fim é aparente nas crônicas
da série Bons Dias!". Na juventude, o liberalismo
de Machado era ardoroso e algo ingênuo. "Se há
alguma coisa a esperar é das inteligências proletárias,
das classes ínfimas; das superiores, não",
escreveu aos 20 anos. Sua ficção madura, porém,
não mostraria a mesma complacência. "Vítima
é uma palavra que Machado usa muito pouco", observa
Gledson. A noção de responsabilidade individual,
argumenta o crítico inglês, era demasiado importante
no esquema moral da ficção machadiana. Os personagens
de Machado com exceção dos escravos,
que afinal viviam em sujeição quase absoluta
à vontade dos senhores têm sempre um espaço
mínimo de manobra social. E Machado jamais os isenta
das escolhas que fazem nesse contexto. Gledson cita, a propósito,
o exemplo de Candinho, o pobre-diabo do conto Pai contra
Mãe, que, para suprir as necessidades da família,
assume a infame profissão de caçador de escravos
fugidos. "Machado não simpatiza com o personagem.
Ainda que ele tenha sido em alguma medida forçado a
exercer seu ofício mesquinho, ele não pode ser
isento da culpa pelo que faz", diz Gledson.
Morte "Matamos o tempo;
o tempo nos enterra"
Os estudos machadianos
hoje vivem certa efervescência, que não se deve
apenas à efeméride dos 100 anos da morte. Inéditos
têm sido desencavados, como o conto Um para o Outro,
incluído em Contos de Machado de Assis: Relicários
e Raisonnés (Editora PUC Rio/Loyola), do pesquisador
Mauro Rosso. Três traduções de peças
francesas descobertas por Jean-Michel Massa sairão
em breve pela editora Crisálida. A Academia Brasileira
de Letras está dando início a uma edição
da correspondência completa de Machado, com coordenação
do filósofo e embaixador Sergio Paulo Rouanet
o primeiro volume, que cobre os anos de 1860 a 1869, está
previsto para novembro.
Machado é
daqueles autores que não basta ler: o leitor precisa
freqüentá-lo. É o clássico brasileiro
por excelência e um clássico se mede por
sua atualidade. No ano passado, o ex-presidente do Banco Central
Gustavo Franco publicou uma coletânea de crônicas
machadianas sobre economia, na qual ainda se identificam temas
relevantes para o Brasil de Lula. "Machado é um
crítico do Brasil patrimonialista, do nosso capitalismo
de mentirinha, que é desprovido de ética protestante.
Essa percepção continua atualíssima",
diz Franco. Abel Barros Baptista acredita que Machado é
um autor útil para compreender o embate atual
muito inflamado nos Estados Unidos entre a biologia
darwinista e a religião. Machado sempre foi tido, e
com razão, como um crítico do darwinismo social,
a aplicação vulgar das teorias do naturalista
Charles Darwin a questões de classe. Baptista, porém,
acredita que Machado soube diferenciar Darwin que ele
lia em traduções francesas de seus seguidores
(ou deturpadores). "A evolução, tal como
Darwin a descreve em A Origem das Espécies,
não tem um plano, nem finalidade. Machado também
compreendia que a vida não tem finalidade, e que isso
não é necessariamente mau", diz Baptista.
Consta que a última frase pronunciada por Machado de
Assis, em meio às dores provocadas pelo câncer
de boca que o mataria em 29 de setembro de 1908, foi: "A
vida é boa".
Machado de Assis, o historiador
Machado de Assis sempre
foi liberal e, na juventude, exaltado ,
mas nunca aderiu à causa republicana. Na sua
ficção, porém, a posição
política é esquiva. Eventos históricos
são aludidos, mas nenhum deles parece capaz de
alterar, para pior ou melhor, a condição
geral das coisas daí a impressão
de ceticismo que seus livros transmitem
INFANTE
Dom Pedro II aos 5 anos: inspiração
para Capitu
A Maioridade
(1840) "Ouvindo falar várias vezes da Maioridade,
[Capitu] teimou um dia em saber o que fora este acontecimento;
disseram-lho, e achou que o Imperador fizera muito bem
em querer subir ao trono aos quinze anos." De DOM CASMURRO. Capitu
não era nascida quando o adolescente Pedro II
foi sagrado imperador mas admira a determinação
do monarca
SOBRE
O PARAGUAI
A Batalha do Riachuelo: visão irônica
da guerra
A Guerra
do Paraguai (1864-1870) "A guerra do Paraguai, não digo que
não seja como todas as guerras, mas, palavra,
não me entusiasma. A princípio, sim, quando
o López tomou o Marquês de Olinda, fiquei
indignado; logo depois perdi a impressão, e agora,
francamente, acho que tínhamos feito muito melhor
se nos aliássemos ao López contra os argentinos." Fala de X, personagem
do conto UM CAPITÃO DE VOLUNTÁRIOS. Em uma reviravolta
irônica, X morrerá em combate no Paraguai
O ABOLICIONISTA Princesa Isabel:
Machado festejou a Lei Áurea nas ruas
A abolição
da escravatura (1888) "Houve sol, e grande sol, naquele domingo
de 1888, em que o Senado votou a lei, que a regente
sancionou, e todos saímos à rua. Sim,
também eu saí à rua, eu o mais
encolhido dos caramujos, também eu entrei no
préstito, em carruagem aberta (...) Verdadeiramente,
foi o único dia de delírio público
que me lembra ter visto." Crônica de A SEMANA,
de 14 de maio de 1893
COMÉRCIO
ELEGANTE Rua do Ouvidor, a "Paris" carioca
do século XIX: cenário machadiano
"Nunca
fui, nem o cargo me consentia ser propagandista da abolição,
mas confesso que senti grande prazer quando soube da
votação final do Senado e da sanção
da Regente. Estava na Rua do Ouvidor, onde a agitação
era grande e a alegria geral. Um conhecido meu, homem
de imprensa, achando-me ali, ofereceu-me lugar no seu
carro (...) Estive quase, quase a aceitar, tal era o
meu atordoamento, mas os meus hábitos quietos,
os costumes diplomáticos, a própria índole
e a idade me retiveram." MEMORIAL DE AIRES. O fim
da escravatura foi capaz de levar o retraído
escritor às celebrações de rua
mas não o reticente conselheiro Aires
ENTRE
DOIS REGIMES
Deodoro na proclamação da República:
tema de Esaú e Jacó
A proclamação
da República (1889) " Podia ter sido mais turbulento. Conspiração
houve, decerto, mas uma barricada não faria mal.
Seja como for, venceu-se a campanha. (...) Deodoro é
uma bela figura. (...)
Enquanto a cabeça de Paulo ia formulando essas
idéias, a de Pedro ia pensando o contrário;
chamava o movimento um crime.
Um crime e um disparate, além de ingratidão;
o imperador devia ter pegado os principais cabeças
e mandá-los executar. (...)" Os irmãos Paulo,
republicano, e Pedro, monarquista, discutem a proclamação
da República em ESAÚ E JACÓ. Na visão
de ambos, avulta o fato de o regime ter sido mudado
por um golpe de estado, sem barricadas nem participação
popular
Consultoria: John Gledson
A voz do chicote
Ao contrário
do que se propagou por muito tempo, Machado de Assis
tratou, sim, da escravidão. Na sua obra de ficção,
adotava freqüentemente o ponto de vista cínico
do senhor de escravos para, de seu modo oblíquo,
criticá-lo
NO PELOURINHO Escravo açoitado:
Machado escreveu páginas perturbadoras sobre
o tema
"Era
um preto que vergalhava outro na praça. O outro
não se atrevia a fugir; gemia somente estas únicas
palavras: "Não, perdão meu
senhor; meu senhor, perdão!" Mas o primeiro
não fazia caso, e, a cada súplica, respondia
com uma vergalhada nova. (...) Quem havia de ser o do
vergalho? Nada menos que o meu moleque Prudêncio,
o que meu pai libertara alguns anos antes. (...)
Era um modo que o Prudêncio tinha de se desfazer
das pancadas recebidas, transmitindo-as a outro." MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS
CUBAS. É uma das páginas de ficção
mais perturbadoras já escritas sobre a psicologia
do escravismo: o liberto compra seu próprio escravo
para tirar sua desforra
"A escravidão
levou consigo ofícios e aparelhos, como terá
sucedido a outras instituições sociais.
Não cito alguns aparelhos senão por se
ligarem a certo ofício. Um deles era o ferro
ao pescoço, outro o ferro ao pé; havia
também a máscara de folha-de-flandres.
A máscara fazia perder o vício da embriaguez
aos escravos, por lhes tapar a boca. (...) Era grotesca
tal máscara, mas a ordem social e humana nem
sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez
o cruel." Do conto PAI CONTRA MÃE.
Publicado em 1905, depois da abolição,
é um dos mais fortes que Machado escreveu sobre
o tema
"O motivo
da vinda do barão é consultar o desembargador
sobre a alforria coletiva e imediata dos escravos de
Santa-Pia. (...)
Quero deixar provado que julgo o ato do governo
uma exploração, por intervir no exercício
de um direito que só pertence ao proprietário,
e do qual uso com perda minha, porque assim o quero
e posso." MEMORIAL DE AIRES. O barão
de Santa-Pia é a síntese da mentalidade
senhorial: prefere libertar seus escravos para não
deixar que o governo o faça
"Chamei
o Pancrácio e disse-lhe com rara franqueza:
Tu és livre, podes ir para onde quiseres.
Aqui tens casa amiga, já conhecida e tens mais
um ordenado, um ordenado que...
Oh! meu senhô! fico.
(...) Pancrácio aceitou tudo; aceitou até
um peteleco que lhe dei no dia seguinte, por me não
escovar bem as botas; efeitos da liberdade." Diálogo entre um
escravo alforriado e seu senhor, em crônica de
BONS DIAS!, 19 de maio de 1888. O texto ironiza a hipocrisia
de alguns abolicionistas de fachada
Uma sensualidade discreta
Criador
de uma rica galeria feminina, Machado de Assis não
costumava tratar do sexo em termos francos mas
tinha
lá seus fetiches, como se vê na galeria
abaixo
SÓ NO
ESPARTILHO Manequim do século
XIX: Machado tinha lá seus fetiches
Olhos "Olhos de ressaca? Vá, de ressaca.
(...) Traziam não sei que fluido misterioso e
enérgico, uma força que arrastava para
dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias
de ressaca." Esses são os olhos
de Capitu, de Dom Casmurro exemplo mais
célebre da mulher de olhar dúbio. Também
Sofia, em Quincas Borba, tinha os "olhos
mais belos do mundo"
Busto
"O corpinho apertado desenhava naturalmente os
contornos delicados e graciosos do busto. Via-se ondular
ligeiramente o seio túrgido, comprimido pelo
cetim." Lívia, em Ressurreição.
O busto, o colo dos seios são o que de mais francamente
"sexual" a mulher podia expor então
Cintura
e cadeiras "Ela, em
verdade, estava nos seus melhores dias; o vestido sublinhava
admiravelmente a gentileza do busto, o estreito da cintura
e o relevo delicado das cadeiras." Sofia, de Quincas Borba.
A cintura fina era o padrão de beleza na época
daí os espartilhos e coletes de barbatanas
Mãos
"As mãos, a despeito de alguns ofícios
rudes, eram curadas com amor, não cheiravam a
sabões finos nem águas de toucador, mas
com água do poço e sabão comum
trazia-as sem mácula." Capitu, em Dom Casmurro.
A pele imaculada aqui é um indicador social:
ainda que pobre, Capitu cuida para que as mãos
não revelem seus "ofícios rudes"
Braços
"Não estando abotoadas, as mangas, caíram
naturalmente, e eu vi-lhe metade dos braços,
muito claros, e menos magros do que se poderiam supor.
(...) As veias eram tão azuis, que, apesar da
pouca claridade, podia contá-las do meu lugar." Conceição,
do conto Missa do Galo. Os braços nus
são um fetiche de Machado não por
acaso, autor de outro conto intitulado Uns Braços
Pés
"Lucinda sabia que tinha um pé formoso,
esguio, leve, como devem ser os pés dos anjos,
um pé alado, quando ela valsava e deixava entrevê-lo
todo no meio dos giros em que se deixava ir." Do conto D. Mônica.
A ponta das botinas era só o que se entrevia
do corpo feminino escondido pelos longos vestidos
A língua
de um mestre
Algumas frases
de Machado de Assis que já não são
comuns no uso lingüístico atual, comentadas
pelo professor de português Pasquale Cipro Neto
Enciclopedia Mirador
AULA DE PORTUGUÊS Machado: o
estilo único de um ourives do idioma nacional
"Esqueceu-me
apresentar-lhe minha mulher" A frase é dita por Cristiano Palha a Rubião,
personagens de Quincas Borba. Nela, Machado emprega
o verbo "esquecer" com uma regência
insólita no Brasil, mas comum ainda hoje em Portugal.
Nesse tipo de construção, o sujeito de
"esquecer" é um fato ou uma coisa,
e não uma pessoa. No exemplo machadiano, o sujeito
de "esqueceu-me" (que significa "caiu
no meu esquecimento") é a oração
"apresentar-lhe minha mulher".
"Suposto
o uso vulgar seja começar pelo nascimento..." O fragmento está no capítulo I de
Memórias Póstumas de Brás Cubas.
Machado emprega "suposto" como conjunção
concessiva, equivalente a "embora", "ainda
que". Esse valor antigo de "suposto"
está presente também nas formas "suposto
que", "posto que" e "posto",
que às vezes ocorrem até em escritores
modernos ("Certamente, falta-lhes não sei
que atributo essencial, posto se apresentem nobres e
graves, por vezes" de Um Boi Vê os
Homens, de Carlos Drummond de Andrade).
"Ainda
hoje deixei ele na quitanda (...) e ele deixou a quitanda
para ir na venda beber" O excerto está no capítulo LXVIII
("O Vergalho") de Memórias Póstumas
de Brás Cubas. Trata-se de uma fala do ex-escravo
Prudêncio, com construções típicas
do português brasileiro, que já se cristalizavam:
o pronome reto "ele" na função
de objeto direto ("deixei ele") e o verbo
"ir" com a preposição "em"
("para ir na venda beber"). No português
lusitano e no brasileiro formal, ocorreriam as formas
"o" (no lugar de "ele") e "à"
(no lugar de "na"), respectivamente. Esse
procedimento, no entanto, não ocorre nos diálogos
entre personagens de mesma classe social (Brás
Cubas e Virgília, por exemplo).
"Tais
eram as reflexões (...). Interrompeu-mas um ajuntamento" Esta passagem também está em "O
Vergalho". A forma "mas" resulta da fusão
dos pronomes "me" (cujo referente é
"eu", o próprio narrador, em primeira
pessoa) e "as" (cujo referente é o
substantivo "reflexões"). Incomuns
no português brasileiro de hoje, as formas "mo",
"to", "lho" (e respectivas flexões)
ocorrem com freqüência em nossa literatura
até o século XIX e não raro em
autores da primeira metade do século passado.
"Suje-se
gordo!" Trata-se do título de um belíssimo
conto de Machado, em que ocorre o emprego de "gordo"
como advérbio (e não como adjetivo). Mais
do que comum em português e em diversas línguas,
esse processo ainda hoje deixa em dúvida muitos
falantes, que julgam "incorreto" seu emprego.
Não é. Ocorre aí um caso de derivação
imprópria, que consiste no uso de uma palavra
fora de sua classe gramatical usual. No exemplo machadiano,
"gordo" equivale a "gordamente"
e tem forte matiz de intensidade e de modo: "Quer
sujar-se? Suje-se gordo!".