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Edição 2079

24 de setembro de 2008
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Leilão
Faturar é uma arte

O controvertido artista plástico inglês Damien Hirst
passa por cima dos marchands e subverte as regras
do mercado num leilão que rendeu 365 milhões de reais


Fotos Rune Hellestad/Corbis/Latin Stock, Peter Macdiamid/Getty Images e AFP
OURO EM FORMOL A obra O Bezerro Dourado (à esq.), Hirst no leilão em Londres
e a caveira cravejada de diamantes: ele tem a força

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O cadáver de um bezerro conservado em formol e adornado com chifres, cascos e uma tiara feitos de ouro maciço. Essa foi a maior estrela de um evento que ficará na memória como um divisor de águas no mercado de arte. Vendida pelo equivalente a 34 milhões de reais, a obra The Golden Calf (O Bezerro Dourado) foi a recordista de preço num leilão de 223 trabalhos do artista plástico inglês Damien Hirst realizado na Sotheby’s, em Londres, na semana passada. A venda, consumada ao longo de dois dias, teve um saldo final de 365 milhões de reais. Foi o maior e o mais bem-sucedido leilão individual de todos os tempos. A façanha representou mais uma ousadia de um artista que sempre fez dos lances de efeito uma arma. Hirst despontou nos anos 90 como o enfant terrible da arte inglesa – ou uma espécie de taxidermista festivo. Com obras feitas de carcaças de animais mortos, chocou o público e caiu nas graças da crítica e dos colecionadores. O sucesso do leilão foi um triunfo ainda maior para Hirst por ocorrer em meio a um grande desastre financeiro, com a queda das principais bolsas de valores. Para além de atestar seu poder de fogo, o artista pôs em xeque o modo de funcionamento do mercado de arte.

Nesse mercado, o poder está nas mãos dos galeristas. Eles vendem as obras produzidas pelos artistas e embolsam comissões que variam de 30% a 50%. Só depois de cerca de cinco anos é que as mesmas obras chegam aos leilões – vendidas não pelos artistas diretamente, mas por colecionadores e galeristas que as compraram na baixa e vêem aí sua chance de lucrar. Por esse sistema, até o artista mais valorizado não ganha nada quando um trabalho seu atinge altas cotações nos leilões – apenas na Inglaterra eles têm direito a uma comissão ínfima, de 3% do valor da venda. Há dezoito meses, Hirst resolveu que era hora de peitar esse status quo. Planejou em detalhes a operação, produziu o lote de obras a toque de caixa e só avisou os galeristas que o representam em maio passado. O inglês Jay Jopling e o americano Larry Gagosian a princípio espernearam contra o golpe. Mas deram o braço a torcer: suas galerias terminaram por apoiar o leilão. Com a tacada, Hirst quis não só questionar o poderio dos galeristas: ele também falou em "democratizar" o acesso à arte. Nas galerias, só poucos e bons colecionadores têm acesso a trabalhos de alguém como ele. Num leilão, quem pagar mais leva, independentemente de sua rede de contatos.

Hirst sempre foi o discípulo perfeito do americano Andy Warhol, por sua maneira hábil e cínica de fazer com que os mundos da arte, da fama e do comércio se interpenetrem. Hoje, aos 43 anos, nem é mais uma artista na acepção comum do termo. É mais correto dizer que se trata de um empresário à frente de uma grife. Conta com 180 funcionários que produzem suas obras em duas fábricas em Londres e outras duas no interior inglês. Ele apenas dá as coordenadas, confere o resultado e põe sua assinatura. Uma das últimas criações polêmicas foi uma caveira cravejada com mais de 8 000 diamantes, avaliada em 180 milhões de reais – e até hoje não vendida. Sua fortuna é de 650 milhões de reais. Ou melhor: era. Com o leilão, o homem do bezerro dourado ficou um belo tanto mais rico.



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