Leilão
Faturar é uma arte
O controvertido artista plástico
inglês Damien Hirst
passa por cima dos marchands e subverte as regras
do mercado num leilão que rendeu 365 milhões
de reais
Fotos
Rune Hellestad/Corbis/Latin Stock, Peter Macdiamid/Getty
Images e AFP
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OURO EM FORMOL
A obra O Bezerro Dourado
(à esq.), Hirst no leilão em Londres
e a caveira cravejada de diamantes: ele tem a força |
O cadáver de um bezerro
conservado em formol e adornado com chifres, cascos e uma
tiara feitos de ouro maciço. Essa foi a maior estrela
de um evento que ficará na memória como um divisor
de águas no mercado de arte. Vendida pelo equivalente
a 34 milhões de reais, a obra The Golden Calf (O
Bezerro Dourado) foi a recordista de preço num leilão
de 223 trabalhos do artista plástico inglês Damien
Hirst realizado na Sothebys, em Londres, na semana passada.
A venda, consumada ao longo de dois dias, teve um saldo final
de 365 milhões de reais. Foi o maior e o mais bem-sucedido
leilão individual de todos os tempos. A façanha
representou mais uma ousadia de um artista que sempre fez
dos lances de efeito uma arma. Hirst despontou nos anos 90
como o enfant terrible da arte inglesa ou uma
espécie de taxidermista festivo. Com obras feitas de
carcaças de animais mortos, chocou o público
e caiu nas graças da crítica e dos colecionadores.
O sucesso do leilão foi um triunfo ainda maior para
Hirst por ocorrer em meio a um grande desastre financeiro,
com a queda das principais bolsas de valores. Para além
de atestar seu poder de fogo, o artista pôs em xeque
o modo de funcionamento do mercado de arte.
Nesse mercado,
o poder está nas mãos dos galeristas. Eles vendem
as obras produzidas pelos artistas e embolsam comissões
que variam de 30% a 50%. Só depois de cerca de cinco
anos é que as mesmas obras chegam aos leilões
vendidas não pelos artistas diretamente, mas
por colecionadores e galeristas que as compraram na baixa
e vêem aí sua chance de lucrar. Por esse sistema,
até o artista mais valorizado não ganha nada
quando um trabalho seu atinge altas cotações
nos leilões apenas na Inglaterra eles têm
direito a uma comissão ínfima, de 3% do valor
da venda. Há dezoito meses, Hirst resolveu que era
hora de peitar esse status quo. Planejou em detalhes a operação,
produziu o lote de obras a toque de caixa e só avisou
os galeristas que o representam em maio passado. O inglês
Jay Jopling e o americano Larry Gagosian a princípio
espernearam contra o golpe. Mas deram o braço a torcer:
suas galerias terminaram por apoiar o leilão. Com a
tacada, Hirst quis não só questionar o poderio
dos galeristas: ele também falou em "democratizar"
o acesso à arte. Nas galerias, só poucos e bons
colecionadores têm acesso a trabalhos de alguém
como ele. Num leilão, quem pagar mais leva, independentemente
de sua rede de contatos.
Hirst sempre foi o discípulo
perfeito do americano Andy Warhol, por sua maneira hábil
e cínica de fazer com que os mundos da arte, da fama
e do comércio se interpenetrem. Hoje, aos 43 anos,
nem é mais uma artista na acepção comum
do termo. É mais correto dizer que se trata de um empresário
à frente de uma grife. Conta com 180 funcionários
que produzem suas obras em duas fábricas em Londres
e outras duas no interior inglês. Ele apenas dá
as coordenadas, confere o resultado e põe sua assinatura.
Uma das últimas criações polêmicas
foi uma caveira cravejada com mais de 8 000 diamantes, avaliada
em 180 milhões de reais e até hoje não
vendida. Sua fortuna é de 650 milhões de reais.
Ou melhor: era. Com o leilão, o homem do bezerro dourado
ficou um belo tanto mais rico.