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24 de setembro de 2008
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Brasil
UMA PEÇA COM OLHOS EM 2010

Marcio Lacerda, o socialista milionário que uniu PT
e PSDB, desponta como favorito em Belo Horizonte


José Edward

Vander Bras/Divulgação
A TRÓICA DAS ALTEROSAS O prefeito Fernando Pimentel,
o candidato Marcio Lacerda e o governador Aécio Neves: o atual acerto municipal encerra ambições maiores

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O administrador de empresas Marcio Lacerda é dono de uma biografia tão multifacetada quanto desconhecida. Nos anos 70, participou da luta armada como integrante de um grupo terrorista de esquerda. Preso pela ditadura, abandonou o ideário marxista para fazer fortuna nas telecomunicações. Quando completou 54 anos, trocou o trabalho pelos veleiros. Cansado do mar, estreou na vida pública em 2002, fazendo e financiando a campanha presidencial do hoje deputado Ciro Gomes (PSB-CE). No início deste ano, foi lançado candidato dos socialistas à prefeitura de Belo Horizonte. Há um mês, não passava de um ilustre desconhecido dos belo-horizontinos. Hoje, tem tudo para vencer a disputa já no primeiro turno. Lacerda conseguiu essa façanha graças ao apoio dos dois mais poderosos eleitores de Minas Gerais: o governador Aécio Neves, do PSDB, e o prefeito Fernando Pimentel, do PT. Caciques de partidos adversários na esfera nacional, eles se uniram para transformar em realidade um mito: o de que políticos bem avaliados são capazes de eleger um poste.

Em pouco mais de uma semana de campanha na TV, Lacerda, o poste, subiu incríveis 20 pontos. No último levantamento do Datafolha, liderava a corrida com 41% das intenções de voto – mais do que o dobro do segundo colocado, o peemedebista Leonardo Quintão. Se confirmado, esse resultado lhe garantirá 53% dos votos válidos, o suficiente para liquidar a fatura no primeiro turno. "Nunca vi uma ascensão tão meteórica e fulminante", diz o cientista político Marcos Coimbra, estrategista de sua campanha. O sucesso de Lacerda não se deve à eficiência administrativa que ele mostrou ter como empresário ou à ideologia de esquerda que ele ainda defende. Os belo-horizontinos votarão nele porque Lacerda é a garantia de que a dupla Aécio-Pimentel continuará decidindo os destinos de sua cidade. Por isso, sua campanha na TV calca-se nas obras que a prefeitura petista e o governo tucano fizeram juntos. Além disso, sugere que essa parceria, apoiada por 76% da população local, desaparecerá se Lacerda perder.

O alcance do arranjo entre Aécio e Pimentel transcende a eleição de outubro. O acordo sinaliza que o governador tucano tende a apoiar o prefeito petista à sua sucessão, em 2010. Também é um dos grandes trunfos de Aécio para se viabilizar como candidato a presidente da República. Ele brande esse acerto como prova de sua capacidade aglutinadora – um sinal de que poderia encerrar dezesseis anos de disputas entre o PSDB e o PT. Os adversários de Aécio vêem a questão por outro prisma. Dizem que ele só lançou mão da solução Lacerda porque o PSDB não tinha um candidato viável em Belo Horizonte. Afirmam, ainda, que é mais fácil Aécio sustentar a candidatura de Pimentel a governador do que o PT apoiá-lo para presidente. Um sintoma disso é que a direção petista se opôs à união com o PSDB mineiro já neste ano. O impasse só foi solucionado depois que Aécio e Pimentel convenceram o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a endossá-la. "Em Minas Gerais, já estamos em 2010", diz o sociólogo Rudá Ricci, do Instituto Cultiva. Lacerda é uma peça estratégica nesse arranjo, mas é só uma peça. Tanto que nem sequer participou das articulações iniciais de sua própria campanha. "O governador e o prefeito só me falaram da candidatura depois que meu nome estava na imprensa havia quinze dias", conta. Mas, em Minas, isso não é um empecilho. Afinal, como diz o ditado, lá quem tem padrinho não morre pagão.

 

 
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