Entrevista: Dimitri
Rogozin
O mastim de Putin na Europa
O
embaixador da Rússia junto à Otan diz que
a Geórgia começou
a guerra na Ossétia do Sul
e acusa os Estados Unidos de estarem por
trás
da instabilidade no Cáucaso

Diogo
Schelp
| Mark Renders
 | "A
Otan tem de admitir sua responsabilidade ao propiciar as matanças perpetradas
pelo presidente georgiano Mikhail Saakashvili" |
Ao
aceitar a indicação para ser embaixador da Rússia junto à
Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte, a aliança
militar ocidental), posto que assumiu em janeiro deste ano, Dimitri Rogozin, de
44 anos, parecia destinado a sumir do noticiário. Em seu país, ele
fazia barulho fundando e liderando partidos ultranacionalistas, um dos quais banido
das últimas eleições parlamentares por veicular na TV uma
propaganda ofensiva contra imigrantes. A invasão da Geórgia pela
Rússia, no mês passado, deu a Rogozin a oportunidade de exibir novamente
seu estilo ácido de fazer política ou, no caso, diplomacia.
Quando a Otan, liderada pelos Estados Unidos, mandou navios com ajuda humanitária
para as vítimas do conflito, ele soltou uma das suas contra o presidente
da Geórgia: "Estão levando papel higiênico para o presidente
Mikhail Saakashvili". A confusão no Cáucaso deve se estender.
Há duas semanas, a Rússia anunciou que vai manter, por tempo indeterminado,
7 600 soldados na Ossétia do Sul e na Abkházia, regiões separatistas
do país vizinho. Rogozin concedeu a seguinte entrevista a VEJA, de seu
escritório em Bruxelas, na Bélgica:
A
guerra na Geórgia foi provocada pela Rússia?
Não.
A guerra começou porque a Geórgia quis e quer resolver
todos os problemas étnicos em seu território com agressões
militares. Em abril deste ano, durante uma reunião em Bucareste, na Romênia,
os membros da Otan declararam que a Geórgia e a Ucrânia estavam aptas
a integrar a aliança militar ocidental. Essa afirmação deu
impulso à tensão no Cáucaso e foi interpretada pelo presidente
georgiano Mikhail Saakashvili como uma licença para atacar a Ossétia
do Sul e assassinar muita gente na região. Saakashvili deve ter pensado
que, a partir daquele momento, poderia fazer o que quisesse, sem prestar contas
a ninguém. A Otan tem de admitir sua responsabilidade ao propiciar as matanças
perpetradas por Saakashvili.
Duas
semanas depois do fim do conflito, Moscou reconheceu a independência da
Abkházia e da Ossétia do Sul, regiões separatistas da Geórgia.
A guerra não forneceu um pretexto para uma antiga ambição
russa?
Tudo o que aconteceu na Geórgia foi contra a nossa vontade.
Não há dúvida de que o surgimento de dois novos países
é um processo complicado. Mas ele é irreversível: trata-se
da única maneira possível de defesa dos cidadãos da região.
Depois da agressão de Saakashvili, todo mundo viu que não se pode
conversar com esse senhor da guerra no Cáucaso. Dele, é possível
esperar atitudes ainda piores. A independência dos dois ex-territórios
georgianos é a condição para a paz.
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| "A
maneira como os Estados Unidos agiram nas últimas semanas demonstra que o país
é um patrocinador militar e político das agressões do presidente da Geórgia contra
os ossetas" |
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A Abkházia e a Ossétia
do Sul serão incorporadas ao território russo?
Não,
não e não. Ao contrário, o processo de independência
em curso nas duas repúblicas demonstra que a Rússia não tem
nenhum desejo de anexar tais territórios.
A
Rússia diz que seus soldados entraram na Geórgia para defender os
ossetas. O que eles estão fazendo, agora, para impedir a vingança
das milícias separatistas contra os georgianos que vivem na Ossétia
do Sul?
Não temos conhecimento de tudo o que ocorre na Ossétia
do Sul. Mas, com a criação de uma nação livre, poderemos
cobrar dos dirigentes da nova república explicações sobre
os erros cometidos dentro de seus limites. É por esse motivo que a Rússia
tem muito interesse em apoiar o surgimento de democracias fortes na Ossétia
do Sul e na Abkházia.
O presidente
George W. Bush enviou navios militares ao Mar Negro para entregar ajuda humanitária
à Geórgia e anunciou um pacote de 1 bilhão de dólares
para a reconstrução do país. Como o senhor vê a atuação
dos Estados Unidos no episódio?
A maneira como os Estados Unidos
agiram nas últimas semanas demonstra que o país é um patrocinador
militar e político de Saakashvili e de suas agressões contra os
ossetas. É uma pena, mas é essa a verdade. Saakashvili é
uma figura terrível não só para os cidadãos russos
e para os pequenos povos da Ossétia e da Abkházia. Ele é
uma figura terrível para o seu próprio país. Durante o seu
mandato, a Geórgia corre o risco de perder parte considerável do
seu território. Esse é o preço da agressão. A culpa
é inteiramente de Saakashvili. Não se pode manter no poder alguém
tão irresponsável como ele.
O
que representa para a Rússia a decisão dos Estados Unidos de instalar
um escudo antimíssil na Polônia, confirmada em um acordo assinado
poucos dias depois do fim da guerra?
Trata-se de uma tentativa dos Estados
Unidos de criar um problema a mais em nossas fronteiras e neutralizar nossa capacidade
nuclear. Por isso é preciso buscar, de nossa parte, uma resposta a essa
provocação.
A Rússia
anunciou que vai fazer, ainda neste ano, manobras navais com a Venezuela, as primeiras
no Caribe desde o fim da Guerra Fria. Na semana passada, aviões russos
já realizaram exercícios militares na região. Trata-se de
uma resposta ao escudo antimíssil e à presença da Otan no
Mar Negro?
O porta-voz do Ministério de Relações
Exteriores da Rússia informou que a decisão de mandar uma esquadra
para a Venezuela precede o conflito com a Geórgia. Quanto às relações
entre a Rússia e a Otan, de fato não estão muito boas. Esperávamos
uma posição mais clara e sincera da organização sobre
os assuntos no Cáucaso. Se a Otan mantiver a ajuda militar, política
e moral às agressões da Geórgia contra os pequenos povos
do Cáucaso, não poderemos considerá-la nossa parceira.
Isso pode significar o início de
uma nova Guerra Fria entre a Rússia e o Ocidente?
Graças
a Deus, não acredito que possa começar uma nova Guerra Fria. A Rússia
não tem nenhum interesse nisso e espero que nossos parceiros também
não. Mas, se a Otan quiser continuar a existir, terá de se modificar.
A Otan (criada após a II Guerra Mundial para fazer frente à União
Soviética) não pode continuar sendo uma aliança em bloco
como é hoje. Devemos neutralizar todos os esforços para a manutenção
na Europa das linhas vermelhas (uma fronteira estratégica traçada
por Moscou após o fim da União Soviética, englobando países
de sua esfera de influência). Se não houver uma relação
muito estreita entre a Rússia e os europeus, não se poderá
construir a paz a longo prazo. Os russos sempre serão obrigados a manter
uma postura defensiva em relação ao Ocidente.
O
senhor comparou Saakashvili a Gavrilo Princip, o sérvio que matou o arquiduque
da Áustria, em 1914, dando início à I Guerra Mundial. Não
é um exagero retórico?
Até recentemente, pensávamos
que éramos capazes de evitar conflitos na Europa. Agora, não podemos
mais ter essa certeza. Os acontecimentos na Geórgia demonstraram que uma
única pessoa pode destruir o mundo. A arquitetura da paz construída
após a II Guerra Mundial não existe mais. Há que se discutir
um novo caminho para garantir a tranqüilidade no continente.
Quando
começou o conflito na Geórgia, os Estados Unidos ameaçaram
dificultar a entrada da Rússia na Organização Mundial do
Comércio (OMC). Essa possibilidade preocupa os russos?
Neste momento,
a entrada na OMC não é o objetivo principal da Rússia. Tudo
depende das condições impostas para o nosso ingresso. Está
claro que as condições para a nossa entrada na OMC não são
as mesmas exigidas de outros países. Há aí um exemplo da
discriminação contra nós. De qualquer forma, nossos produtos
mais importantes são petróleo e gás natural. Como não
temos concorrentes nesse setor, não ser aceito na OMC está longe
de representar um grande problema para a Rússia. Podemos esperar.
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| "Ucrânia
e Rússia são partes de uma mesma família. Não podem estar em diferentes blocos.
Ou ingressamos ambos na Otan, ou nenhum dos dois entra. Temos uma base naval em
Sebastopol. É também uma cidade russa" |
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Numa reunião de emergência,
no início do mês, os governantes da União Européia
decidiram não impor sanções contra a Rússia, como
punição pela guerra na Geórgia. O que isso revela sobre as
relações entre a Europa e a Rússia?
Uma parte da Rússia
está e sempre estará dentro da Europa. Não é mais
possível dividir a Europa em duas partes. A Rússia tem relações
econômicas profundas com a União Européia. Por isso, medidas-bumerangue,
que vão e voltam com a mesma intensidade, não podem ser lançadas
contra nossos interesses. Eventuais sanções contra a Rússia
seriam sanções contra a própria Europa.
A
União Européia parece ter medo de que a Rússia corte o fornecimento
de gás natural para os países do bloco.
Nós não
podemos retaliar ninguém no campo das relações energéticas,
porque, da mesma forma que a Europa é dependente do petróleo e do
gás natural da Rússia, nós dependemos dos europeus para que
comprem esses produtos. Como partilhamos interesses, a Rússia jamais discutirá
o problema nesses termos.
As
relações de seu país com a Otan foram suspensas, mas a Rússia
manteve a cooperação com a aliança no Afeganistão.
Por quê?
Porque no Afeganistão temos uma ameaça que
é o movimento talibã. Como o terrorismo fundamentalista também
preocupa a Rússia, o talibã é um inimigo comum.
Por que é tão ruim para a Rússia
que a Ucrânia ou a Geórgia entrem na Otan?
No caso da Ucrânia,
é preciso deixar claro, antes de mais nada, que o povo não quer
a entrada do país na aliança militar ocidental. As pesquisas de
opinião mostram que 70% da população é contra. Seria,
portanto, uma decisão antidemocrática. Para nós é
ruim porque a Ucrânia e a Rússia são partes de uma mesma família.
Temos uma ligação histórica, de um povo dividido em dois
países. Por isso, Ucrânia e Rússia não podem estar
em diferentes blocos. Ou ingressamos ambos na Otan, ou nenhum dos dois entra.
Além disso, a Rússia tem uma base naval em Sebastopol, na Criméia.
Em 1997, fizemos um acordo com a Ucrânia para manter a base ali. Sebastopol
serve ao mesmo tempo como uma base e uma cidade russa. Ninguém pode imaginar
o destino do lugar sem a presença da nossa frota. Quanto à Geórgia,
Saakashvili organizou um referendo há oito meses para decidir sobre a entrada
na Otan, mas sem a participação da população da Ossétia
e da Abkházia. Oficialmente, 70% votaram a favor da Otan. A verdade é
outra, porque o referendo não contou com o voto de metade do povo georgiano.
Os ossetas e os abkhazes também não querem entrar na aliança
ocidental. Para completar, na Otan há uma regra: é proibido convidar
países com disputas territoriais internas para participar da organização.
Quem manda na Rússia:
o primeiro-ministro Vladimir Putin ou o presidente Dimitri Medvedev?
Ninguém
conhece, de maneira profunda, as relações existentes entre Medvedev
e Putin. São amigos e, por isso, teremos a continuação da
política elaborada por Putin. Medvedev é jovem, inteligente e tem
suas próprias opiniões sobre política interna e externa.
O caminho que o país está seguindo, no entanto, é o da política
de Putin. Pode-se dizer que Medvedev é um pouco mais moderado, pelo menos
na maneira de administrar as coisas.
Uma
reportagem do jornal americano The New York Times diz que o senhor tinha
um retrato de Stalin em seu escritório em Bruxelas. Em uma visita aos Estados
Unidos, o senhor o teria dado de presente ao ex-secretário de Estado americano
Henry Kissinger.
Essa foi uma piada que o repórter do jornal levou
a sério. Eu tenho no meu escritório retratos de Putin, Medvedev
e do ministro das Relações Exteriores de meu país. Nunca
dei nenhum retrato de Stalin a Kissinger.