Edição 1821 . 24 de setembro de 2003

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Especial
Não perca o sono

Os avanços da ciência para
combater a insônia, mal que aflige
três em cada dez brasileiros


Rosana Zakabi


Montagem sobre fotos de Pedro Rubens
A VJ da MTV Sarah Oliveira sofre de insônia desde criança: "É horrível ver o sol nascer quando não se dormiu à noite"

Acho que escutei uma voz gritar: "Nunca mais dormirás! Macbeth assassinou o sono!"... O sono inocente, sono que deslinda a meada enredada das preocupações, a morte da vida de cada dia, banho reparador do trabalho doloroso, bálsamo das almas feridas, segundo prato na mesa da grande Natureza, principal alimento do festim da vida!...
William Shakespeare,
Macbeth,
ato II, cena 2


NESTA EDIÇÃO
Quanto se dorme por dia
Descubra se você tem insônia
NA INTERNET
Reportagens de arquivo, testes e links sobre insônia no site VEJA Saúde

Nas linhas acima, William Shakespeare captou o valor de uma boa noite de sono. Quem, como o torturado Macbeth, o rei da tragédia que leva seu nome, não sofreu com pelo menos uma noite em claro? É bom que se diga que no tempo do dramaturgo, que viveu na Inglaterra do século XVI, as noites eram bem mais repousantes que as atuais. Dorme-se hoje em média sete horas por noite, noventa minutos menos do que se dormia nos séculos passados. No período anterior à luz elétrica, homens e mulheres costumavam ir para a cama no início da noite. Acordavam no meio da madrugada para tomar um lanche e, em seguida, voltavam a dormir até o sol raiar. A redução de uma hora e meia no descanso diário é decorrência do excesso de iluminação e de barulho noite adentro, da vida sedentária e dos horários irregulares, do stress profissional, da televisão... Enfim, de um mundo que nunca dorme.

Metade da população adulta do Brasil experimenta pelo menos uma noite maldormida por semana. Não é o suficiente para causar danos permanentes, e volta-se ao normal uma vez que se tenha dormido. Ainda assim, o dia seguinte é de amargar. Há uma perceptível redução no desempenho, na criatividade e nos reflexos e os nervos ficam à flor da pele. Uma pesquisa da Universidade Federal de São Paulo estimou a queda na atenção causada por duas noites insones como equivalente ao consumo de três doses de uísque. Por isso se recomenda a quem dorme mal que evite dirigir ou operar máquinas. Dados do Brasil indicam que 10% de todos os acidentes de trânsito envolvem um motorista sonolento ou adormecido. As conseqüências são bem mais severas quando o débito de sono se prolonga por períodos maiores – uma semana dormindo poucas horas por noite, por exemplo. Nesse caso, os efeitos sobre o metabolismo são parecidos com os do processo de envelhecimento. "A sociedade nos estimula a dormir tarde e acordar cedo, reduzindo assim o período destinado ao sono", diz o neurofisiologista Flávio Alóe, do Centro de Sono do Hospital das Clínicas de São Paulo. "Dessa forma, muita gente não dorme o suficiente para ter uma vida saudável."


Claudio Rossi
NOITES EM CLARO
O técnico da seleção brasileira masculina de vôlei, Bernardo Rezende, o Bernardinho, de 44 anos, perdeu o sono quando trocou a carreira de jogador pela de técnico, em 1989. "A cabeça não desliga, não consigo relaxar", diz ele. "Mesmo quando adormeço, acordo com a impressão de que não dormi a noite inteira." Para não ficar rolando na cama, Bernardinho levanta e procura alguma atividade: lê, estuda, planeja seu trabalho ou assiste a vídeos de jogos. Quando não consegue dormir mais que duas horas à noite, tenta compensar o sono perdido com um cochilo à tarde. "Fico quieto na cama, tentando pelo menos descansar o corpo", afirma.

Diferentemente do que se acreditava no passado, sabe-se hoje que é possível curar a maioria dos casos de insônia sem tratamentos pesados nem remédios fortíssimos. Estudos recentes apontam que na maior parte das vezes ela é causada pelos maus hábitos do dia-a-dia. Uma dessas pesquisas foi realizada em fevereiro com estudantes na Universidade de Kansas, nos Estados Unidos, e mostrou que o número de jovens que procuram ajuda médica para combater a insônia aumentou mais de 100% nos últimos catorze anos. Hoje, os estudantes americanos não dormem mais de sete horas por noite, quarenta minutos menos do que costumavam dormir na década de 90. O principal motivo, segundo os pesquisadores, é a falta de rotina na hora de ir para a cama. Devido aos exames da faculdade, eles se habituam a ficar acordados durante a madrugada para estudar e levantar cedo para ir à aula. Quando tentam ir dormir mais cedo, não conseguem mais conciliar o sono. A solução para esses casos é fazer uma mudança de hábitos, como modificar o horário em que se vai dormir. Muitas vezes, passar menos tempo na cama em vez de ficar a madrugada rolando de um lado para o outro pode contribuir para um sono de maior qualidade.

A VJ da MTV Sarah Oliveira, 24 anos, tem dificuldade para dormir desde criança. "Eu acordava todos os dias às 6 e meia da manhã para ir à escola, mas não conseguia dormir antes de 1 hora", conta. Há três anos, ela atravessou um momento complicado na vida profissional e amorosa e passou a depender de tranqüilizantes para dormir. Foi então que resolveu combater a insônia com mudança de hábitos. Não faz mais ginástica à noite, cortou alimentos estimulantes depois do jantar, entre eles chocolate, e começou a usar medicamentos homeopáticos. A nova rotina melhorou suas noites, mas ela ainda perde o sono com facilidade. "Isso me incomoda um pouco, mas minha vida já melhorou bastante", diz. Também é importante seguir uma dieta alimentar saudável e praticar exercícios físicos moderados, como ioga e natação. Essas medidas simples resolvem o problema de até 70% dos insones. "Adotar uma rotina, entre elas dormir e levantar no mesmo horário todos os dias, é o melhor remédio para ter uma boa noite de sono", disse a VEJA o neurologista americano Clifford Saper, da Universidade Harvard e um dos especialistas mais respeitados nesse assunto.


Oscar Cabral
TV NA MADRUGADA
O humorista Chico Anysio, de 72 anos, acostumou-se a dormir menos de cinco horas por noite. Todos os dias, vai para a cama à 1 e meia da madrugada e às 6 da manhã já está de pé. "Nem preciso de despertador para acordar", diz. Durante a madrugada, enquanto o resto da casa está dormindo, Chico assiste a filmes na TV a cabo. "Decidi ficar menos na cama para aproveitar melhor o tempo", explica. "Antes eu também trabalhava à noite, mas parei. Agora só trabalho de dia", diz. Chico conta que quando era mais jovem dormia oito horas por noite. "Eu me mexia tanto que a cama até saía do lugar", brinca. Mesmo com as poucas horas de sono que tem hoje, Chico avalia que dorme bem. "Meu sono é tão profundo que acordo na mesma posição em que dormi."

O problema é que nem sempre é fácil manter um horário fixo para dormir ou ter uma rotina saudável. A maioria das pessoas não perde horas de sono por opção, mas simplesmente porque não consegue abrir mão da enorme quantidade de tarefas e preocupações que tem no dia-a-dia. Para esses casos, as clínicas de estudo do sono dispõem de tratamentos que ajudam homens, mulheres e até crianças a lidar melhor com as principais causas da insônia, como o stress e a ansiedade. Nós passamos um terço de nossa vida dormindo – ou, pelo menos, deveríamos. Até uns sessenta anos atrás os cientistas viam o sono apenas como uma pausa para o descanso, uma espécie de buraco negro cuja única característica notável era a inconsciência. Tudo isso mudou repentinamente com a invenção das máquinas de eletroencefalograma, que registram a atividade elétrica do cérebro. O estudo das ondas cerebrais demonstrou que o sono não é uma espécie de morte ou desmaio, e sim um período de complexa atividade. Foi, por assim dizer, o despertar da ciência do sono. Em 1937, descobriram-se as fases distintas que se alternam em ciclos durante a noite. Em 1953, percebeu-se que no decorrer do sono os olhos se mexem rapidamente, prova segura de que muitos sentidos continuam funcionando normalmente. "Aprendeu-se mais sobre o sono nos últimos trinta anos que em toda a história anterior da medicina", diz Flávio Alóe. As descobertas mais sensacionais aconteceram recentemente. Veja algumas delas:

O botão liga-desliga – Trata-se de um conjunto de células cerebrais só ativado quando o indivíduo dorme. Apelidado de sleep switch (o interruptor do sono, em inglês), desliga determinadas funções cerebrais para que o sono ocorra. A quantidade de células do sleep switch tende a cair com o passar dos anos. Isso pode explicar por que os idosos dormem menos. É o mais perto que já se chegou da total compreensão do mecanismo do sono. Infelizmente, ainda não podemos apertar o botão do sono por nós mesmos.

A molécula do despertar – Em 1999, duas pesquisas separadas, uma em Stanford e outra na Universidade do Texas, chegaram à mesma conclusão sobre as causas genéticas da narcolepsia, doença neurológica em que o paciente cai adormecido inesperadamente: ela se dá pela falta de um neurotransmissor, a hipocretina. É provável que a hipocretina seja o elemento químico responsável por virar o sleep switch para a posição acordado. Em teoria, com a hipocretina é possível criar uma droga para nos manter acordados por longos períodos de tempo. Ainda não se tem essa pílula milagrosa, mas, como muita coisa na indústria farmacológica, é uma questão de tempo.

O indutor do sono – A melatonina, o hormônio que induz o sono e só é produzido no escuro, foi estudada a fundo, pela primeira vez, por pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Israel. O que descobriram foi a importância do relógio biológico e das condições ambientais para o sono. O cérebro começa a secretar a melatonina entre 21 e 22 horas e só pára pela manhã. Como o hormônio leva duas horas para fazer efeito, o ideal é ir dormir às 23 horas. O pior momento é por volta das 19 horas, quando a quantidade do hormônio no organismo ainda está muito baixa.

Os cientistas dividem o sono em dois tipos: REM, a sigla inglesa para movimentos oculares rápidos, e não-REM, também chamado de sono quieto. Neste último, as atividades mentais ficam vagarosas, ocorrem movimentos corporais e a pessoa mergulha lentamente no sono mais profundo. No REM, o período em que mais se sonha, a atividade cerebral é intensa, mas o corpo dorme pesado. O processo do sono é dividido em cinco etapas. Nas duas primeiras, apenas se cochila. Na terceira e na quarta, o sono é profundo e, na quinta, ocorre a maioria dos sonhos. Esse ciclo se repete quatro ou cinco vezes por noite. Quem tem dificuldade para dormir pode não conseguir chegar aos estágios finais. "Há casos em que a pessoa apenas cochila a noite inteira e só percebe que dormiu mal porque fica irritada, ansiosa e cansada durante todo o dia", diz o médico Sérgio Tufik, diretor do Instituto do Sono da Universidade Federal de São Paulo. A maioria dos adultos precisa dormir de sete a nove horas por noite, mas essa quantidade pode variar muito de uma pessoa para outra. Algumas só precisam de quatro ou cinco horas de sono. A qualidade é que importa.


Bia Parreiras
SÓ COM REMÉDIOS
O ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco, de 47 anos, sofre de insônia desde que sua filha mais velha, Júlia, nasceu, em 1984. "O bebê acordava à noite, eu acordava junto e não conseguia mais dormir", diz. O problema piorou com a internet. "Passei a receber e-mails de trabalho a qualquer hora, não tive mais sossego", afirma. Franco só consegue dormir bem com a ajuda de remédio. A falta de sono, garante, nunca lhe causou grandes transtornos. "Só uma vez, no Banco Central, fui com a calça de um terno e o paletó de outro", conta ele. "Mas ninguém reparou."

Nosso relógio biológico determina que necessitamos dormir certo número de horas a cada 24 horas para podermos funcionar. Mas os médicos ainda não sabem com total segurança por que as pessoas precisam dormir. Uma das hipóteses mais aceitas é que o sono tem a função de repor a energia cerebral. "Novos estudos sugerem que as reservas de energia do cérebro, que garantem seu bom funcionamento, se esgotariam caso não houvesse a chance de a mente se restabelecer durante o sono", diz o neurologista americano Saper. Durante o ciclo do sono, o cérebro consolida as informações recebidas ao longo do dia. Seleciona as que serão guardadas na memória e descarta as supérfluas. O processo ocorre principalmente durante o estágio REM, aquele em que se sonha, mas a relação entre sonho e memória ainda não está muito clara para os cientistas. É bem possível que os sonhos – que Sigmund Freud considerava reveladoras manifestações do inconsciente – sejam meros reflexos da faxina nos neurônios da memória. Noites maldormidas provocam envelhecimento precoce porque 70% do GH, o hormônio do crescimento responsável pela renovação das células e tonificação da pele, é secretado durante o sono pela hipófise, glândula localizada na base do cérebro. A deficiência do GH no organismo causa enfraquecimento dos ossos, perda da massa muscular e flacidez.

Falta de sono de boa qualidade e na duração necessária também provoca depressão, hipertensão, contribui para o infarto, o derrame cerebral e o agravamento do diabetes. Os distúrbios do sono são, por sinal, sintomas comuns da depressão. A insônia altera o metabolismo e o funcionamento do sistema nervoso, prejudicando as outras funções do organismo. Em 2000, pesquisadores da Universidade de Nagoya, no Japão, divulgaram o resultado de um amplo estudo sobre os hábitos de sono de um grupo de 5.000 moradores da cidade japonesa de Gifu. Conclusão: o risco de morte para quem dormia menos de sete horas por dia era duas vezes maior que o daqueles cujo descanso variava de sete a dez horas. Se você acha tudo isso um tanto remoto, saiba que dormir mal acarreta outro efeito rápido e desagradável: a obesidade. A antiga suspeita de que gordura e insônia andam de mãos dadas foi confirmada recentemente por um estudo da Universidade de Chicago. Depois de dormir por apenas quatro horas durante seis noites consecutivas, universitários jovens, magros e saudáveis, que participaram como voluntários da pesquisa, apresentaram metabolismo igual ao de idosos. Devido à falta de sono, a capacidade de processar o açúcar no sangue tinha sido reduzida em 30% e a alta taxa de glicose fez aumentar a produção do hormônio insulina. Em excesso, a insulina faz com que o organismo retenha mais gordura e aumente o tamanho das células adiposas. O nível de cortisol, o hormônio do stress, também subiu drasticamente. "Tivemos resultados mais compatíveis com homens de 60 anos de idade do que com jovens saudáveis de 20 anos", diz a médica americana Eve Van Cauter, que coordenou o trabalho.


André Valentim/Strana
SONHO DE CONSUMO
A economista Maria Sílvia Bastos Marques, de 46 anos, diz que seu maior desafio é conseguir uma boa noite de sono. "Esse é meu sonho de consumo", diz ela, que já foi presidente da Companhia Siderúrgica Nacional. Maria Sílvia dorme seis horas, em média, e acorda pelo menos cinco vezes por noite. Quando está estressada, passa noites inteiras em claro. "Consigo ficar até duas noites sem dormir e funcionar normalmente no dia seguinte", afirma. "Mais do que isso, preciso pedir ajuda a meu médico, que me receita medicamentos." Ela não gosta de tomar remédios. "Com eles, durmo muito pesado e ainda assim não me sinto descansada no dia seguinte." Maria Sílvia diz que está dormindo melhor agora que trabalha como consultora. "Hoje, sem o desgaste do dia-a-dia de uma grande empresa, estou mais relaxada."

A insônia é classificada de acordo com sua duração. É considerada leve se dura apenas alguns dias, média se permanece algumas semanas e crônica se persiste por mais de um mês. A leve geralmente é causada por problemas do cotidiano, como briga com o namorado ou a namorada, desemprego, excesso de trabalho. Pode se transformar em uma insônia de média intensidade e durar por algumas semanas, mas apenas a crônica necessita de tratamento. Estima-se que 51 milhões de brasileiros acima dos 18 anos tenham dificuldade para dormir. Pelo menos 1,5 milhão só dorme com medicação. A situação é mais grave nas metrópoles, onde se acredita que mais da metade da população durma menos do que deveria. São pessoas que levam para a cama as preocupações do dia seguinte e se sentem obrigadas a dormir. Policiais, médicos e outros profissionais que trabalham em turnos são mais propensos a ter problemas de sono. No momento em que deveriam dormir, estão na ativa. O sono durante o dia é de pior qualidade devido à luminosidade, ao barulho e à temperatura mais elevada. Muitas vezes, uma boa noite de sono pode ser conseguida com soluções relativamente simples. Travesseiros ou um colchão mais confortáveis, por exemplo. Cortinas para escurecer o quarto e isolar o barulho externo resolvem em muitos casos. A instalação de ar-condicionado é uma boa providência em lugares muito quentes, pois se dorme melhor com a temperatura entre 17 e 20 graus.

Como passo inicial de um tratamento contra a insônia, é comum que o paciente passe uma noite numa clínica especializada e se submeta à polissonografia, exame que monitora o sono com aparelhos. O principal objetivo é saber se a má qualidade do descanso noturno é ou não conseqüência de apnéia, a interrupção involuntária da respiração durante o sono. Para esse caso, há tratamentos específicos, incluindo cirurgias. Para a maioria, existem outros métodos que permitem aliviar a tensão e controlar a ansiedade. Um deles, bastante usado, é o biofeedback, que ensina como relaxar os músculos por meio de um aparelho ligado ao corpo. Quando o paciente tensiona os músculos, a máquina faz um ruído. Ao relaxar, o ruído diminui. O objetivo é fazer com que o insone tenha consciência do próprio stress e perceba como é possível relaxar. Alguns pacientes se submetem a sessões de terapia com psicólogos que ajudam homens e mulheres a lidar melhor com as preocupações do dia-a-dia. "Um dos grandes vilões do sono é a ansiedade na hora de dormir", diz a psicóloga Vânia Sartori, pesquisadora do Instituto do Sono da Universidade Federal de São Paulo. "O insone fica tão preocupado com o que precisa resolver no dia seguinte que não consegue pegar no sono."

Para aqueles que não conseguem uma boa noite de sono apenas com as mudanças de hábito, terapias e relaxamento, também há boas notícias. Novos medicamentos, mais eficazes e com menos efeitos colaterais, têm permitido aos insones dormir melhor. Todos foram criados com base nas últimas pesquisas sobre a química cerebral. Um grupo estimula a liberação de uma substância chamada GABA, espécie de calmante que relaxa o sistema muscular e diminui a consciência. São o Stilnox, do laboratório francês Synthelabo, e o Lioram, do americano Schering-Plough. Ambos possuem o mesmo princípio ativo, o zolpidem. Agem mais rápido que os medicamentos antigos e são eliminados com facilidade pelo organismo. O Sonata, do laboratório Wyeth-Whitehall, chegou ao Brasil há pouco mais de dois anos e tem ação breve, de duas a três horas. "É ideal para os insones que acordam no meio da madrugada e não conseguem mais dormir", diz a médica Lia Rita Bittencourt, do Instituto do Sono da Universidade Federal de São Paulo.

Em junho deste ano, três novos remédios para dormir foram apresentados em um congresso da Associação dos Profissionais de Sono em Chicago, nos Estados Unidos. Um deles, conhecido pela sigla TAK-375, induz o sono por meio de hormônios liberados no cérebro. Outro, chamado Estorra, foi testado por 300 voluntários e melhorou a qualidade de sono em todos eles, além de deixá-los mais alertas durante o dia. O terceiro, batizado de Indiplon, apresentou menos efeitos colaterais que os medicamentos já existentes no mercado. Até então, os únicos remédios para combater as noites maldormidas eram tranqüilizantes fortes, como Dormonid e Lexotan, que causam sonolência, pois só induzem as fases mais leves do sono. Como demoram para ser eliminados do organismo, provocam efeitos colaterais, como cansaço e dor de cabeça.

O Brasil é o país que mais estuda os distúrbios do sono na América Latina e, ao lado dos Estados Unidos e da Alemanha, está entre os que mais se preocupam com o tema. No início da década de 90, quando o assunto começou a ganhar importância por aqui, havia cinqüenta clínicas especializadas em todo o país. Hoje, são 150, grande parte em São Paulo. A maior delas, o Instituto do Sono da Universidade Federal de São Paulo, atende cinqüenta pessoas por dia, com fila de espera. São homens e mulheres que demoram mais de uma hora para pegar no sono e, quando conseguem, dormem leve, acordando várias vezes. Não é difícil encontrar no corredor do instituto insones que adormecem duas a três horas por noite há mais de cinco anos e passam duas noites em claro quase todas as semanas. Pelo menos 10% dos pacientes são crianças com sonambulismo, bruxismo, o distúrbio que faz ranger os dentes durante o sono, e também insônia. A capacidade de dormir diminui com a idade, principalmente para quem sofre de certas doenças, como hipertensão. No passado, os despertares rápidos durante a noite começavam por volta dos 45 anos. Hoje, com a internet e os videogames conspirando para manter todo mundo elétrico até altas horas, há crianças e adolescentes em busca de tratamento nos consultórios especializados. Quase 90% das pessoas que procuram as clínicas conseguem sair com alguma solução para tentar resolver o problema. A principal característica de uma noite bem-dormida é a sensação de bem-estar ao acordar. É isso que todo mundo busca a cada noite ao colocar a cabeça no travesseiro.

 
Os ruídos da noite


Lá pelos 50 anos, metade dos homens e quatro em cada dez mulheres roncam. É muita gente. O problema atinge quase 60 milhões de brasileiros. O ronco é um sintoma de envelhecimento, de aumento de peso e de flacidez muscular. Durante o dia, os músculos da garganta são mantidos firmes e o ar percorre um caminho aberto. Quando se dorme, os músculos relaxam, o ar passa com dificuldade e os tecidos da garganta vibram. O estreitamento pode ser causado também por excesso de tecido nas amígdalas, queixo e maxilar pequenos, um palato ou úvula de formato ou tamanho exagerado. Em geral, o ruído causa maior incômodo ao cônjuge que ao roncador. Exceto quando é sinal de um distúrbio mais sério, a apnéia do sono.

A apnéia é uma interrupção involuntária da respiração durante o sono. Pode ocorrer com a freqüência de uma por minuto e só termina quando o cérebro percebe a queda na oxigenação e força um quase despertar rápido, para que a pessoa inale oxigênio. Segundos ou minutos depois, o processo se repete. Os batimentos cardíacos vão às alturas. O apnéico acorda cansado, mesmo quando pensa ter dormido a noite inteira. Quinze milhões de brasileiros padecem desse mal. Nos casos leves, um regime para emagrecer ameniza o problema. Nos mais graves, precisa-se dormir com uma máscara de oxigênio.

 


 



 
 
 
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