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Edição 1 761 - 24 de julho de 2002
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TELEVISÃO

Centenário William Wyler (segunda a sábado, às 22h, no Telecine Classic) – Um dos grandes cineastas da história de Hollywood, Wyler foi o responsável por clássicos como Os Melhores Anos de Nossas Vidas e Ben-Hur. O diferencial deste ciclo é que ele traz títulos menos óbvios do diretor – a exceção é o sucesso O Morro dos Ventos Uivantes (quinta). Alguns deles nem mesmo estão disponíveis em vídeo, como é o caso do excelente O Conselheiro (segunda), drama de tribunal dos anos 30 que virou referência no gênero. Filmado no mesmo período, A Boa Fada (terça) é uma delicada comédia romântica estrelada por Margaret Sullavan, então mulher do cineasta. O festival inclui ainda uma atuação antológica de Bette Davis: o drama Pérfida (sexta), cuja cena mais famosa é aquela em que a cruel protagonista assiste impassível à morte do marido.

 

DISCO

Veni, Vidi, Vicious, The Hives (Trama) – Para quem costuma associar a Suécia às baladas açucaradas do Abba, esse quinteto será uma surpresa e tanto. Apesar do terninho à la anos 60 e da pose de meninos bem-comportados, os integrantes do Hives fazem um som ruidoso da melhor cepa. Eles são herdeiros diretos da tradição punk e do rock de garagem – as influências nítidas são bandas como os Stooges e os Ramones. Isso fica evidente nas faixas Hate To Say I Told You So e Main Offender, que são as melhores do disco. Do começo ao fim, a fórmula dos Hives é a mesma: petardos com não mais que três minutos de duração, movidos por guitarras potentes e pelo vocal rasgado do cantor Howlin' Pelle Almqvist. É energia pura – e infalível numa boa festa roqueira.

Veja também
Clips das músicas
Main Offender
56k | 100k | 200k
Die, All Right!
56k | 100k | 200k

 

LIVROS

Esquetes de Nova Orleans, de William Faulkner (tradução de Leonardo Fróes; José Olympio; 240 páginas; 27 reais) – Esse volume é uma espécie de retrato do artista quando jovem. O americano Faulkner, principal autor sulista, ao lado de Mark Twain, a figura no panteão da literatura de seu país, o escreveu quando tinha 27 anos e se iniciava na ficção. O livro contém dezesseis textos publicados num jornal de Nova Orleans em 1925, e anuncia de forma admirável as fixações temáticas e estilísticas do Faulkner da maturidade – dos dramas intensos à prosa repleta de imagens simbólicas.Pena que o tradutor tenha tomado a decisão, muito questionável, de adotar termos extemporâneos, como "pô", "xongas", "meu chapa" e "qualé". Leia trecho do livro.

Quando Éramos Adultos, de Anne Tyler (tradução de Ana Puccini Lara; Arx; 356 páginas; 38 reais) – Poucos autores americanos em atividade conseguem tratar dos dilemas da classe média de seu país com a agudeza de Anne Tyler. A escritora fez disso a razão de ser de sua obra – que inclui, dentre quinze títulos, o best-seller O Turista Acidental, transformado em sucesso no cinema. Quando Éramos Adultos não foge à regra. No centro do romance está Rebecca, mulher de meia-idade que descobre, quando já é avó, que se tornou uma pessoa que nunca quis ser. Na juventude, ela se casou com um homem divorciado e pai de três filhos. Depois que o marido morreu, Rebecca ficou na posição de matriarca da família – um clã um tanto desajustado. Com humor e sarcasmo, a escritora mostra o esforço tardio da protagonista para recuperar o tempo perdido. Leia trechos do livro.

 

DVDs

O Porteiro da Noite (The Night Porter, Itália/Estados Unidos, 1974. New Line) – Um daqueles clássicos do escândalo, o filme da italiana Liliana Cavani trata do romance sinistro entre um carrasco nazista e a jovem judia que ele torturou num campo de concentração. Doze anos após a II Guerra, seus caminhos voltam a se cruzar – ela como a mulher de um maestro americano e ele como o porteiro do hotel em que o casal se hospeda em Viena. O choque do reencontro aumenta quando se percebe que os protagonistas ainda guardam uma irresistível atração. Embora tenha ficado algo datado, o filme se destaca pelas excelentes atuações de Dirk Bogarde e Charlotte Rampling e por ser um desses títulos obrigatórios da cultura cinematográfica. O disco conserva intacta a beleza do original e traz, nos poucos extras, biografias de Liliana e dos atores centrais.

Zoolander (Estados Unidos, 2001. Paramount) – Essa comédia dirigida por Ben Stiller, o astro de Entrando numa Fria, passou quase despercebida nos cinemas, mas merecia destino melhor. Stiller interpreta o top model Derek Zoolander, que subitamente vê seu principado ameaçado pelo rival Hansel (o ótimo Owen Wilson). Com o ego ferido – e o QI baixíssimo –, Zoolander passa por uma lavagem cerebral e vira marionete de um estilista maligno, que planeja assassinar um premiê asiático. O humor do filme não é de apelo universal, mas, desde que se entre no seu espírito de nonsense e deboche total, ele é irresistível – por exemplo, na cena antológica em que os dois concorrentes se desafiam na passarela, tendo David Bowie como árbitro. Entre os extras, não perca a série de chamadas publicitárias do filme, em que o protagonista dá exemplos de sua ignorância absurda.

 

LITERATURA BRASILEIRA

A Cabeça;
Luiz Vilela;
Cosac & Naify;
132 páginas;
18 reais

Eis aqui mais um texto que discute o papel do diálogo na ficção de Luiz Vilela. A idéia deve causar bocejos nesse escritor mineiro de 60 anos. O assunto é abordado há muito tempo – talvez desde sua estréia, com o livro Temor de Terra (1967). Mas não há como fugir dele, sobretudo ao se levar em conta que os dez contos deste novo lançamento, A Cabeça, são construídos quase que exclusivamente por meio de conversações.

A arte do diálogo não é simples. Ela requer um ouvido treinado para registrar o ritmo natural da fala. Uma palavra errada e a frase cai no ridículo. De outro lado, há o risco da banalidade. O cotidiano é povoado de clichês, que se transformam em palavra morta na página impressa. É preciso inteligência para impedir que isso aconteça. Num texto composto inteiramente de diálogos, finalmente, a informação vem comprimida ao máximo. Tudo emana daquilo que os personagens dizem ou calam. Não à toa, o americano Ernest Hemingway considerava o diálogo "o artifício supremo".

A forma que a conversa assume na maior parte dos contos de A Cabeça é a negociação. São embates verbais em que os personagens tentam não só convencer, mas também submeter ou cooptar uns aos outros. Essas negociações podem se dar no campo do sexo, como em Calor, no qual o tio busca "favores" da sobrinha adolescente, ou no inusitado Suzy, em que uma criança toma a dianteira no jogo erótico com um adulto. Outros textos remetem à violência, à desfaçatez e ao absurdo das relações sociais. Luxo, por exemplo, é um debate entre o arquiteto e o construtor, em torno da metragem do banheiro de empregada. Esses contos proporcionam uma surpresa ao leitor: relembram o poder que frases perfeitamente triviais têm para seduzir, coagir, enganar. O diálogo rende bastante na mão de Luiz Vilela.

Carlos Graieb

 

   
 



Fontes: São Paulo: Cultura, Laselva, Saraiva, Livraria da Vila, Nobel, Siciliano, Fnac; Rio: Saraiva, Laselva, Sodiler, Siciliano; Porto Alegre: Saraiva, Livraria Ed. Porto Alegre, Siciliano; Brasília: Sodiler, Siciliano, Saraiva, Leitura; Recife: Sodiler, Saraiva, Siciliano; Natal: Sodiler; Florianópolis: Siciliano; Goiânia: Siciliano; Fortaleza: Siciliano, Laselva; Salvador: Siciliano; Curitiba: Siciliano, Saraiva; Belo Horizonte: Siciliano, Leitura; Maceió: Sodiler.
   
 
   
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