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Edição 1 761 - 24 de julho de 2002
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Luiz Felipe de Alencastro

A grande burla

"Gente que trabalhou a vida inteira
está adiando a hora de
se aposentar
para
cobrir prejuízos patrimoniais
causados, nos últimos tempos, pela
picaretagem
corporativa"

Ilustração Ale Setti


Há fatos importantes a ser notados no debate sobre a crise de confiança que atinge os balanços de grandes empresas americanas. De saída, desenha-se a sagacidade da imprensa dos Estados Unidos. Embora haja problemas no setor (analisados na The New York Review of Books, de 18 de julho), os jornais e a mídia em geral, liderada pelo New York Times e pelo Washington Post, informam o público, afirmam a cidadania. Deu gosto ver como Harvey Pitt, presidente da SEC (a comissão reguladora das operações das bolsas de valores dos EUA), foi prensado pelo apresentador do programa Meet the Press, no canal aberto da NBC, num domingo de manhã. Pitt, cuja demissão está sendo pedida por membros do Congresso, defendeu-se como pôde das acusações de leniência diante das irregularidades contábeis de grandes empresas. No fim do programa da NBC, o cidadão brasileiro lotado nos EUA, lembrando-se do besteirol com que nossa televisão mimoseia os telespectadores aos domingos, não podia deixar de pensar, meditabundo: quando teremos no Brasil um programa desse nível num horário de grande audiência?

Em segundo lugar, delineia-se novamente o peso decisivo do Congresso. O recuo eleitoral do Partido Democrata e a preeminência adquirida pelo presidente Bush depois dos atentados de 11 de setembro pareciam condenar o Congresso a certa subserviência perante as iniciativas da Casa Branca. Não é o que está acontecendo. Rejeitando as análises do presidente Bush, que, em diversas intervenções públicas, se limitou a passar pitos sem propor medidas concretas, o Senado aprovou, por unanimidade, um projeto que arrocha a repressão à picaretagem corporativa perpetrada pelas auditorias e pelos executivos falsificadores dos balanços das empresas.

Acusado de ter-se beneficiado de manipulações contábeis quando dirigia firmas no Texas, Bush diagnosticou a crise atual como uma simples "ressaca" causada por uma década de crescimento econômico acelerado. Mas o doutor Alan Greenspan, presidente do banco central dos EUA, detectou um sintoma mais sério: a "infecção gananciosa" de que foi acometida a comunidade empresarial. A doença será grave? Os otimistas apontam os mecanismos auto-regeneradores: figurões empresariais foram demitidos e podem ser processados, as empresas comprometidas foram punidas com a queda de suas ações, e a SEC estará mais atenta ao problema.

Na realidade, a desvalorização das bolsas mina um componente essencial do "capitalismo popular" inaugurado nos anos 80 por Margaret Thatcher e retomado por Ronald Reagan. Lutando contra os sindicatos ingleses, Thatcher tinha um objetivo claro: fazer com que os assalariados acionistas de empresas ultrapassassem o número dos que se sindicalizavam. Nos EUA, o "capitalismo popular" foi impulsionado pelas facilidades de acesso dos assalariados ao mercado acionário e, notadamente, pela multiplicação dos planos de aposentadoria garantidos por pacotes de ações. Com a queda das bolsas – o mercado acionário dos EUA registra uma desvalorização de 37% desde o começo de 2000 – há muitos prejudicados. Gente que trabalhou a vida inteira está adiando a hora de se aposentar, e quem se aposentou voltou a trabalhar, para cobrir prejuízos patrimoniais causados, nos últimos tempos, pela picaretagem corporativa. Fazendo autocrítica a posições em favor da desregulação que assumiram no passado, o Congresso e Greenspan apóiam agora maior controle governamental sobre o mercado acionário. Apareceu até uma palavra para indicar a nova tendência: a "re-regulação" da economia. Há poucos dias, um juiz federal de Kansas City, julgando dois empresários picaretas, declarou: "Nada irá abalar mais rapidamente o sistema capitalista do que a maquiagem dos livros de contabilidade e a fraude". Pode haver exagero na sentença do juiz, mas toda uma interpretação capitalista do progresso social passou a ser questionada nessas últimas semanas.

 

Luiz Felipe de Alencastro é professor titular da
Universidade de Paris – Sorbonne (abomey@uol.com.br)

 

 
 
   
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