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Luiz
Felipe de Alencastro
A
grande burla
"Gente
que trabalhou a vida inteira
está adiando a hora de se
aposentar
para cobrir
prejuízos patrimoniais
causados,
nos últimos
tempos, pela
picaretagem corporativa"
Ilustração Ale Setti
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Há fatos importantes a ser notados no debate sobre a crise de confiança
que atinge os balanços de grandes empresas americanas. De saída,
desenha-se a sagacidade da imprensa dos Estados Unidos. Embora haja problemas
no setor (analisados na The New York Review of Books, de 18 de
julho), os jornais e a mídia em geral, liderada pelo New York
Times e pelo Washington Post, informam o público,
afirmam a cidadania. Deu gosto ver como Harvey Pitt, presidente da SEC
(a comissão reguladora das operações das bolsas de
valores dos EUA), foi prensado pelo apresentador do programa Meet the
Press, no canal aberto da NBC, num domingo de manhã. Pitt,
cuja demissão está sendo pedida por membros do Congresso,
defendeu-se como pôde das acusações de leniência
diante das irregularidades contábeis de grandes empresas. No fim
do programa da NBC, o cidadão brasileiro lotado nos EUA, lembrando-se
do besteirol com que nossa televisão mimoseia os telespectadores
aos domingos, não podia deixar de pensar, meditabundo: quando teremos
no Brasil um programa desse nível num horário de grande
audiência?
Em segundo lugar, delineia-se novamente o peso decisivo do Congresso.
O recuo eleitoral do Partido Democrata e a preeminência adquirida
pelo presidente Bush depois dos atentados de 11 de setembro pareciam condenar
o Congresso a certa subserviência perante as iniciativas da Casa
Branca. Não é o que está acontecendo. Rejeitando
as análises do presidente Bush, que, em diversas intervenções
públicas, se limitou a passar pitos sem propor medidas concretas,
o Senado aprovou, por unanimidade, um projeto que arrocha a repressão
à picaretagem corporativa perpetrada pelas auditorias e pelos executivos
falsificadores dos balanços das empresas.
Acusado de ter-se beneficiado de manipulações contábeis
quando dirigia firmas no Texas, Bush diagnosticou a crise atual como uma
simples "ressaca" causada por uma década de crescimento econômico
acelerado. Mas o doutor Alan Greenspan, presidente do banco central dos
EUA, detectou um sintoma mais sério: a "infecção
gananciosa" de que foi acometida a comunidade empresarial. A doença
será grave? Os otimistas apontam os mecanismos auto-regeneradores:
figurões empresariais foram demitidos e podem ser processados,
as empresas comprometidas foram punidas com a queda de suas ações,
e a SEC estará mais atenta ao problema.
Na realidade, a desvalorização das bolsas mina um componente
essencial do "capitalismo popular" inaugurado nos anos 80 por Margaret
Thatcher e retomado por Ronald Reagan. Lutando contra os sindicatos ingleses,
Thatcher tinha um objetivo claro: fazer com que os assalariados acionistas
de empresas ultrapassassem o número dos que se sindicalizavam.
Nos EUA, o "capitalismo popular" foi impulsionado pelas facilidades de
acesso dos assalariados ao mercado acionário e, notadamente, pela
multiplicação dos planos de aposentadoria garantidos por
pacotes de ações. Com a queda das bolsas o mercado
acionário dos EUA registra uma desvalorização de
37% desde o começo de 2000 há muitos prejudicados.
Gente que trabalhou a vida inteira está adiando a hora de se aposentar,
e quem se aposentou voltou a trabalhar, para cobrir prejuízos patrimoniais
causados, nos últimos tempos, pela picaretagem corporativa. Fazendo
autocrítica a posições em favor da desregulação
que assumiram no passado, o Congresso e Greenspan apóiam agora
maior controle governamental sobre o mercado acionário. Apareceu
até uma palavra para indicar a nova tendência: a "re-regulação"
da economia. Há poucos dias, um juiz federal de Kansas City, julgando
dois empresários picaretas, declarou: "Nada irá abalar mais
rapidamente o sistema capitalista do que a maquiagem dos livros de contabilidade
e a fraude". Pode haver exagero na sentença do juiz, mas toda uma
interpretação capitalista do progresso social passou a ser
questionada nessas últimas semanas.
Luiz
Felipe de Alencastro é professor titular da
Universidade de Paris Sorbonne (abomey@uol.com.br)
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