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Edição 1 761 - 24 de julho de 2002
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Roberto Pompeu de Toledo

Rita, Patrícia e outras (inclusive "La Gorda")

A presença das mulheres na atual
campanha significaria real assalto
ao bastião machista da política?

"Pode-se, por acaso, conceber o anjo do lar transformado num desses energúmenos de partido? Pode-se conceber esse ser delicado e sensível [exposto] à controvérsia, à injúria, à calúnia?" (Revista Feminina, manifestando-se contra a campanha pelo voto das mulheres, nos anos 1920.)  

A presente campanha presidencial iniciou-se sob o signo da mulher. Roseana Sarney foi a primeira a entrar em cena – e com que estardalhaço! Logo saiu, mas a porta por ela aberta mostrou-se tão promissora, tão sintonizada com as demandas do momento que, em vez de fechar-se, se escancarou. Roseana – e esse mérito ninguém lhe tira – foi como o primeiro violinista, que, ao afinar o instrumento, dá o tom para os demais.

Rita Camata veio em seguida. José Serra firmava, com ela, um duplo consórcio – com o PMDB e com o elemento feminino. Ah, é assim? Se era assim, Ciro Gomes possuía uma arma bem à mão. Veio então Patrícia Pillar. Anthony Garotinho, de sua parte, pode contar sempre com a mulher, Rosinha, para o caso de ter de associar-se a uma figura feminina participante, dessas que não se limitam às empreitadas do lar. Enfim, Lula... Bem, Lula juntou-se ao senador José Alencar, ao qual, apesar das muitas qualidades que lhe atribuem, faltam o encanto e o peculiar ponto de vista feminino. Não faz mal. Para mostrar que nem ele está infenso à voga, Lula, que não costumava ser disso, na semana passada galgou com a mulher, Marisa, o palanque em que se apresentou em João Pessoa. "Esta é a minha cara-metade, que me atura há 28 anos", disse à platéia.

Não há mais dúvida: esta campanha não apenas se iniciou, mas também se desenvolve sob o signo da mulher. A questão é: significaria isso que ela fincou de vez sua estaca nesse território historicamente machista que é a política? A resposta é: não. E não apenas porque as mulheres citadas desempenham papéis de coadjuvantes com relação aos homens aos quais estão associadas. Mais importante é que, se a atual campanha responde a uma difusa demanda por mulheres, isso não significa que esteja prometendo a elas aquilo que a política tem de realmente substantivo, que é o poder.

Das mulheres em cena, as que mais têm contado na disputa são Rita Camata e Patrícia Pillar. A importância de Rita Camata para Serra evidencia-se no fato de ambos se virem apresentando juntos em quase todos os compromissos. Em regra, não é assim que se faz. O candidato titular costuma ir para um lado e o vice para outro, de modo a evitar redundâncias e ampliar o alcance de suas mensagens. Serra anda com Rita a tiracolo como se, com isso, seus estrategistas quisessem compensar alguma suposta sensaboria do candidato titular. A importância de Patrícia Pillar para Ciro Gomes veio à tona quando, impedido pela Justiça Eleitoral de apresentar-se nos programas de televisão de outros partidos que não o seu antes da formalização das coligações, ele a escalou em seu lugar. Poderia ter optado por algum marmanjo do comando de campanha. Preferiu a namorada.

A exposição de Rita Camata e Patrícia Pillar tem sido intensa. Dá até para desconfiar que as últimas oscilações nas pesquisas, primeiro dando vantagem a Serra, na corrida pelo cobiçado segundo lugar, e em seguida a Ciro, foram tão obra delas quanto deles. Tanto um movimento quanto o outro se deram em seguida à assídua presença primeiro de uma e depois da outra na televisão. A contribuição das mulheres ocorre, no entanto, num plano adjetivo. Não que não sejam preparadas. Rita Camata é boa deputada, sensível e bem informada. Patrícia Pillar é inteligente. Mas elas não estão na linha de frente da campanha por isso, ou só por isso. Estão também por outros motivos, entre os quais – ou sobretudo – o fato de serem bonitas.

Digamos que elas representam uma fase de transição. São duas mulheres com luz própria. Não se limitam ao papel decorativo da tradicional mulher de político. Mas também não se apresentam como reais sócias do poder, nem que seja o poder, na atual fase, de formular programas ou orientar decisões. O que nos leva à conclusão de que, em matéria de participação da mulher na política, devemos, ao contrário do que ocorreu no futebol, nos curvar diante da Argentina. Lá, um dos principais candidatos à Presidência é Elisa Carrió, apelidada "La Gorda". Veja-se bem: é à Presidência, ao real centro do poder. E o apelido deixa claro que não foi, de forma alguma, pelos atributos físicos que ela chegou aonde está.

P.S.: Se as linhas acima às vezes dão a impressão de que Rita Camata é namorada de Serra, ou de que Patrícia Pillar é vice de Ciro Gomes, não foi por lamentável confusão do redator. Com todo o respeito pelo senador Gerson Camata e por Mônica Serra, essa é a sensação que passa, quanto ao primeiro ponto, a permanente presença conjunta de Serra e Rita. E, com todo o respeito por Paulinho, a esta altura está claro, quanto ao segundo, que o verdadeiro vice de Ciro Gomes é Patrícia Pillar.

   
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