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Roberto
Pompeu de Toledo
Rita,
Patrícia e outras
(inclusive "La Gorda")
A
presença das
mulheres na
atual
campanha
significaria
real
assalto
ao
bastião machista
da
política?
"Pode-se,
por acaso, conceber o anjo do lar transformado num desses energúmenos
de partido? Pode-se conceber esse ser delicado e sensível [exposto]
à controvérsia, à injúria, à calúnia?"
(Revista Feminina, manifestando-se contra a campanha pelo voto das
mulheres, nos anos 1920.)
A presente campanha presidencial iniciou-se sob o signo da mulher. Roseana
Sarney foi a primeira a entrar em cena e com que estardalhaço!
Logo saiu, mas a porta por ela aberta mostrou-se tão promissora,
tão sintonizada com as demandas do momento que, em vez de fechar-se,
se escancarou. Roseana e esse mérito ninguém lhe
tira foi como o primeiro violinista, que, ao afinar o instrumento,
dá o tom para os demais.
Rita Camata veio em seguida. José Serra firmava, com ela, um duplo
consórcio com o PMDB e com o elemento feminino. Ah, é
assim? Se era assim, Ciro Gomes possuía uma arma bem à mão.
Veio então Patrícia Pillar. Anthony Garotinho, de sua parte,
pode contar sempre com a mulher, Rosinha, para o caso de ter de associar-se
a uma figura feminina participante, dessas que não se limitam às
empreitadas do lar. Enfim, Lula... Bem, Lula juntou-se ao senador José
Alencar, ao qual, apesar das muitas qualidades que lhe atribuem, faltam
o encanto e o peculiar ponto de vista feminino. Não faz mal. Para
mostrar que nem ele está infenso à voga, Lula, que não
costumava ser disso, na semana passada galgou com a mulher, Marisa, o
palanque em que se apresentou em João Pessoa. "Esta é a
minha cara-metade, que me atura há 28 anos", disse à platéia.
Não há mais dúvida: esta campanha não apenas
se iniciou, mas também se desenvolve sob o signo da mulher. A questão
é: significaria isso que ela fincou de vez sua estaca nesse território
historicamente machista que é a política? A resposta é:
não. E não apenas porque as mulheres citadas desempenham
papéis de coadjuvantes com relação aos homens aos
quais estão associadas. Mais importante é que, se a atual
campanha responde a uma difusa demanda por mulheres, isso não significa
que esteja prometendo a elas aquilo que a política tem de realmente
substantivo, que é o poder.
Das mulheres em cena, as que mais têm contado na disputa são
Rita Camata e Patrícia Pillar. A importância de Rita Camata
para Serra evidencia-se no fato de ambos se virem apresentando juntos
em quase todos os compromissos. Em regra, não é assim que
se faz. O candidato titular costuma ir para um lado e o vice para outro,
de modo a evitar redundâncias e ampliar o alcance de suas mensagens.
Serra anda com Rita a tiracolo como se, com isso, seus estrategistas quisessem
compensar alguma suposta sensaboria do candidato titular. A importância
de Patrícia Pillar para Ciro Gomes veio à tona quando, impedido
pela Justiça Eleitoral de apresentar-se nos programas de televisão
de outros partidos que não o seu antes da formalização
das coligações, ele a escalou em seu lugar. Poderia ter
optado por algum marmanjo do comando de campanha. Preferiu a namorada.
A exposição de Rita Camata e Patrícia Pillar tem
sido intensa. Dá até para desconfiar que as últimas
oscilações nas pesquisas, primeiro dando vantagem a Serra,
na corrida pelo cobiçado segundo lugar, e em seguida a Ciro, foram
tão obra delas quanto deles. Tanto um movimento quanto o outro
se deram em seguida à assídua presença primeiro de
uma e depois da outra na televisão. A contribuição
das mulheres ocorre, no entanto, num plano adjetivo. Não que não
sejam preparadas. Rita Camata é boa deputada, sensível e
bem informada. Patrícia Pillar é inteligente. Mas elas não
estão na linha de frente da campanha por isso, ou só por
isso. Estão também por outros motivos, entre os quais
ou sobretudo o fato de serem bonitas.
Digamos que elas representam uma fase de transição. São
duas mulheres com luz própria. Não se limitam ao papel decorativo
da tradicional mulher de político. Mas também não
se apresentam como reais sócias do poder, nem que seja o poder,
na atual fase, de formular programas ou orientar decisões. O que
nos leva à conclusão de que, em matéria de participação
da mulher na política, devemos, ao contrário do que ocorreu
no futebol, nos curvar diante da Argentina. Lá, um dos principais
candidatos à Presidência é Elisa Carrió, apelidada
"La Gorda". Veja-se bem: é à Presidência, ao real
centro do poder. E o apelido deixa claro que não foi, de forma
alguma, pelos atributos físicos que ela chegou aonde está.
P.S.:
Se as linhas acima às vezes dão a impressão de que
Rita Camata é namorada de Serra, ou de que Patrícia Pillar
é vice de Ciro Gomes, não foi por lamentável confusão
do redator. Com todo o respeito pelo senador Gerson Camata e por Mônica
Serra, essa é a sensação que passa, quanto ao primeiro
ponto, a permanente presença conjunta de Serra e Rita. E, com todo
o respeito por Paulinho, a esta altura está claro, quanto ao segundo,
que o verdadeiro vice de Ciro Gomes é Patrícia Pillar.
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