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Os cardiologistas
americanos acabam de divulgar sua nova cartilha de prevenção
Anna Paula Buchalla, Paula Beatriz Neiva e Karina Pastore
Na semana passada, a Associação Americana do Coração divulgou suas últimas diretrizes para a prevenção de doenças cardíacas e derrames. A cartilha traz uma série de novidades em relação às recomendações anteriores, publicadas em 1997. A principal delas: a ênfase na necessidade urgente de as pessoas adotarem um estilo de vida saudável. Já está provadíssimo que isso evita o surgimento dos males cardiovasculares na imensa maioria dos casos. Imensa, aqui, é bem mais do que força de expressão. Não fumar, ter uma alimentação equilibrada, praticar exercícios físicos e submeter-se a controles médicos periódicos: todas essas atitudes em conjunto reduzem em mais de 80% o risco de infartos e derrames. Os distúrbios
cardiovasculares são a principal causa de mortes no mundo, com
17 milhões de óbitos o equivalente a uma em cada
três mortes. No Brasil, somam 300 000 por ano. Mantido o cenário
atual, estima-se que em 2020 as mortes provocadas por eles cheguem a 25
milhões. Quando se ouve que esse crescimento está intimamente
associado ao aumento dos casos de obesidade, hipertensão e stress,
a primeira frase que vem à cabeça é que é
muito difícil manter um estilo de vida saudável no mundo
moderno. Para justificarem a falta de cuidado com elas próprias,
as pessoas costumam dizer que o corre-corre do dia-a-dia as impede de
fazer ginástica, observar uma boa dieta, abandonar o cigarro ou
ir ao médico com regularidade. Essa é, no entanto, uma meia
verdade. Se cada um examinar o fundo de sua consciência, é
bem possível que chegue à conclusão de que os hábitos
nocivos incorporados ao cotidiano são mesmo fruto de uma opção,
e não de uma impossibilidade. Essa escolha é movida pela
simples preguiça de entrar numa rotina de exercícios físicos
e pelo prazer inenarrável de regalar-se com comidas engordativas
e bons tragos ou tragadas. "É preciso que as pessoas se convençam
de que só cabe a elas preservar o bom estado de seu coração
e de que é possível, sim, adotar outro estilo", observa
o cardiologista gaúcho Aloyzio Achutti.
A fim de tentar reverter o quadro preocupante, a Associação Americana do Coração endureceu suas prescrições. Para começar, a idade para o início da prevenção passou dos 40 para os 20 anos. Com isso, os médicos esperam salvar milhares de vidas. O motivo da mudança é que o número de vítimas jovens é cada vez maior. Para se ter uma idéia da dimensão do problema, tome-se o Brasil como exemplo. Nos anos 60, 65% das mortes por distúrbios cardiovasculares ocorriam entre pessoas com mais de 65 anos. Hoje, cerca de metade das vítimas fatais tem menos de 55 anos. Quanto menor é a idade, mais fulminantes tendem a ser os infartos e derrames. A explicação é que, com o passar dos anos, o organismo desenvolve uma rede auxiliar de vasos sanguíneos. Eles entram em ação quando uma veia principal entope. Aos 40 ou 50 anos, ainda não houve tempo para a formação dessa trama de vasos secundários. De acordo com a cartilha americana, o ideal é que, aos 20 anos, todos já estejam cientes dos riscos que correm de desenvolver algum tipo de doença cardiovascular. Mulheres, inclusive, porque elas estão cada vez mais suscetíveis a sofrer do coração. É necessário conhecer o histórico familiar de males cardiovasculares e diabetes, medir com freqüência a pressão sanguínea e não perder de vista o índice de massa corporal, a circunferência abdominal e os níveis de colesterol e de açúcar no sangue. Dos 20 aos 39 anos, o ideal é fazer exames preventivos de cinco em cinco anos. A partir dos 40 anos, uma vez por ano. "Um dos maiores desafios dos profissionais de saúde é cortar na raiz a possibilidade do surgimento de um problema cardiovascular", diz Thomas Pearson, coordenador da equipe de médicos responsável pela elaboração das novas diretrizes. "E só conseguiremos atingir esse objetivo com essas medidas." Algumas
das recomendações que receberam a chancela da Associação
Americana do Coração já vinham sendo seguidas. Em
maio de 2001, por exemplo, foram estabelecidos outros limites ideais de
colesterol no sangue, logo encampados pela Sociedade Brasileira de Cardiologia.
Estipulou-se que as taxas do colesterol total não poderiam ultrapassar
200 miligramas por decilitro de sangue. Pelos padrões antigos,
o tolerável era 240. Em grandes quantidades no sangue, o colesterol
adere na parede das artérias e contribui para que elas se entupam.
Como manter o colesterol sob controle é uma dificuldade, os médicos
baixaram os patamares tidos como ótimos, na expectativa de que
as mudanças resultem em medidas mais agressivas contra um dos principais
fatores de risco das doenças cardíacas.
Os médicos americanos excluíram o consumo dos suplementos nutricionais da lista de cuidados a ser tomados. Na década de 90, alardeou-se que doses extras de vitaminas e minerais, sob a forma de uma dezena de pílulas tomadas diariamente, seriam eficazes no combate às doenças cardiovasculares. O maior estudo sobre a ação desses produtos, realizado pela Universidade de Oxford, na Inglaterra, com mais de 20.000 homens e mulheres entre 40 e 80 anos, derrubou a tese. Os pesquisadores constataram que a incidência de infartos e derrames era igual entre quem tomava os suplementos e aquelas pessoas que ingeriram placebos, cápsulas feitas de substâncias inócuas. Somado a outras pesquisas de resultados semelhantes, esse trabalho contribuiu para tirar as megadoses de vitaminas das prescrições. Em compensação, a associação americana incluiu um capítulo dedicado à alimentação. A dieta ideal, que supre todas as necessidades do corpo, precisa ter muitas frutas, legumes e verduras. Carnes magras são preferíveis, e o consumo de sal deve ser parcimonioso: no máximo, 6 gramas por dia. Metade do que os brasileiros despejam sobre seus pratos. Entre as recomendações que ganharam reforço está a da prática de ginástica. Há cinco anos, determinou-se que o ideal era meia hora de atividade física, três vezes por semana. Agora, o mínimo é meia hora por dia. O aumento da carga justifica-se. O sedentarismo está relacionado a 54% das mortes por distúrbios cardíacos e a 50% dos derrames fatais. Em comparação ao indivíduo fisicamente ativo, o sedentário tem 40% mais probabilidade de sofrer um infarto. Outro dado que chama a atenção refere-se ao cigarro: os médicos não só condenam o ato de fumar, como agora aconselham veementemente aos não-fumantes que se mantenham longe do fumacê produzido por quem está do lado. Isso porque foi provado que o fumante passivo tem o dobro de probabilidade de sofrer uma doença cardíaca em comparação a quem não convive com baforadas. Até pouco tempo atrás, uma dose diária de aspirina era recomendada apenas para quem já havia tido problemas cardiovasculares. Agora, ela vale para todo mundo. Os médicos convenceram-se de que a aspirina, ao combater a formação de coágulos no sangue, reduz em até 44% a probabilidade de ocorrência de um infarto ou de um derrame. Mas não é para ninguém sair por aí se empanturrando de comprimidos. "Em excesso, a aspirina pode causar danos sérios ao sistema gastrointestinal", adverte José Pedro da Silva, cirurgião cardíaco do Hospital Beneficência Portuguesa, de São Paulo. Tanto é assim que a Associação Americana do Coração recomenda o consumo de 75 a 160 miligramas por dia, o equivalente a menos da metade de uma pastilha. É o suficiente. Ao lado da hipertensão, obesidade, sedentarismo, colesterol alto, stress e tabagismo, o diabetes é um importante fator de risco de doenças cardiovasculares. O excesso de açúcar no sangue machuca a parede dos vasos, facilitando o depósito de gordura. A cartilha de 1997 não fazia nenhuma referência à doença. A atual traz explicações detalhadas de como o diabetes deve ser tratado para evitar o aparecimento dos males cardíacos. Sabe-se que o tratamento adequado dessa doença reduz em mais de um terço o risco de infartos e derrames. Pelas recomendações da associação americana, o nível de açúcar no organismo deve ser menor que 110 miligramas por decilitro de sangue. Se for maior, o primeiro passo é tentar diminuí-lo com dieta e exercícios. Praticamente todos os fatores que contribuem para o desenvolvimento das doenças cardiovasculares já foram identificados e podem ser neutralizados, desde que se siga o que os médicos preconizam. Como a cardiologia é o ramo da medicina que mais evoluiu nos últimos anos, as notícias são boas mesmo quando os remédios são necessários. Hoje, as drogas que previnem as doenças são infinitamente mais efetivas do que há uma década. Ainda que um distúrbio se manifeste, esses medicamentos podem interromper ou até reverter uma complicação. A grande revolução na área farmacológica são as estatinas, substâncias que atuam no fígado e reduzem a produção de colesterol. Em alguns casos, elas chegam a baixar o nível de colesterol total no sangue em até 45%. Estudos fartamente documentados comprovam que elas são capazes de prolongar a vida de quem sofre de um problema cardíaco e reduzir a incidência de mortes e internações. As pesquisas demonstraram que até os transplantados cardíacos se beneficiam do tratamento com estatinas. Atualmente, em todo o mundo, mais de 70 milhões de pessoas usam tais substâncias. "O próximo passo, que deve ocorrer em breve, é o lançamento de estatinas mais potentes, que podem ser consumidas em doses baixas e mais seguras", afirma o médico John Chapman, um dos maiores especialistas em aterosclerose do mundo, diretor do Instituto Nacional para a Saúde e Pesquisa Médica de Paris. Além das estatinas, hoje existem drogas que diminuem com bastante eficiência a pressão sanguínea. São os inibidores de enzimas de conversão. Muitos médicos usam a terapia combinada com estatinas. Em outra frente de atuação, os betabloqueadores controlam a ação da adrenalina, hormônio responsável por elevar os batimentos cardíacos às alturas e aumentar a pressão arterial. Indicadas para hipertensos e vítimas de distúrbios cardíacos, essas drogas se mostraram capazes de reduzir em até 30% os riscos de morte ou de internação. Está provado, ainda, que drogas vasodilatadoras, aquelas que relaxam os vasos sanguíneos e facilitam a circulação do sangue pelas artérias, como a aspirina e os betabloqueadores, podem ser tão eficientes quanto os procedimentos invasivos. Um estudo realizado pelo Hospital das Clínicas, de São Paulo, concluiu que a incidência de infarto é semelhante entre os pacientes tratados à base de medicamentos e os que foram submetidos às operações mais comuns, como o implante de pontes de safena e mamárias. Os avanços não se contam apenas na área dos remédios. Novos recursos tecnológicos vêm salvando vidas. Um deles é o ressincronizador. Trata-se de uma espécie de marcapasso destinado às vítimas da forma mais comum de insuficiência cardíaca. Até a invenção desse aparelho, no fim da década de 90, "o único tratamento disponível para boa parte desses pacientes eram os transplantes", afirma o cardiologista Silas Galvão, do Hospital Beneficência Portuguesa, de São Paulo. Quando o músculo do coração dá sinais de fraqueza, a engenhoca, implantada no peito do paciente, faz o órgão funcionar no ritmo certo. Outro aliado dos médicos é o cardioversor desfibrilador implantável, um chip que, colocado no coração, é capaz de identificar e interromper crises graves de arritmia uma das causas mais comuns de morte súbita. No terreno da cirurgia propriamente dita, a evolução também foi espetacular. Para se ter uma idéia, há trinta anos, 10% dos pacientes morriam na mesa de operação. Esse número caiu para menos de 1%. Uma das conquistas mais importantes ocorreu na angioplastia. Antes, ela consistia apenas em desentupir com cânulas as veias e artérias. O inconveniente era que esse procedimento, não raro, tinha de ser repetido mais de uma vez. Agora, os médicos contam com a possibilidade de implantar nos vasos do coração dispositivos que os mantêm desobstruídos. Eles recebem o nome de stents e têm o formato parecido com o de uma mola de caneta. Para evitar que sejam rejeitados pelo organismo, os stents são embebidos em drogas imunossupressoras. As técnicas se aperfeiçoaram de tal maneira que muitos dos casos que antes necessitavam de grandes cirurgias, daquelas que rasgavam o tórax de cima a baixo, já são resolvidos com procedimentos bem menos invasivos. Quase 10% do total das operações cardíacas, o que inclui pontes de safena e trocas de válvulas, pode ser feito com incisões de apenas 7 centímetros. Dez anos atrás, os menores cortes tinham 21 centímetros. Com todos esses avanços, o tempo de internação médio em unidades de terapia intensiva caiu pela metade, do fim dos anos 70 para cá. Mas tudo isso não quer dizer que operar o coração se tornou tão fácil quanto extrair uma amígdala. É melhor evitar ao máximo o risco de cair na faca. Mude, portanto, seu estilo de vida quanto antes. Parece difícil, mas só no começo. As recompensas aparecem imediatamente.
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