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Edição 1 761 - 24 de julho de 2002
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Este médico matou 215

Durante 23 anos ele injetou
overdoses de heroína em pacientes


AP
Filhas de vítimas de Shipman: idosas eram maiores alvos

O médico inglês Harold Shipman, condenado à prisão perpétua pela morte de quinze pacientes em 2000, é um assassino ainda pior do que se pensava. O relatório final da investigação de seus crimes, divulgado na semana passada, indica que ele matou 215 pessoas. A polícia suspeita, mas não encontrou provas conclusivas, que possa ter causado outras 45 mortes. As vítimas foram 171 mulheres e 44 homens, em sua maioria idosos e solitários. A mais velha foi uma senhora de 93 anos. A mais jovem, um homem de 41. Cinco dos mortos viviam na mesma rua. Nove no mesmo conjunto habitacional. Com base em fichas encontradas em seu consultório em Hyde, subúrbio de Manchester, no norte da Inglaterra, foi possível identificar um padrão em dezenas de casos. O método de execução era sempre uma overdose de heroína. Shipman aplicou a maioria das injeções letais à tarde, na própria casa dos pacientes. Depois, falsificava os prontuários, criando sintomas fictícios que explicassem as mortes, e sugeria a cremação dos corpos – tudo pensado para não deixar vestígios. O que impressiona, além da monstruosidade do comportamento homicida, é como tantas e freqüentes mortes passaram despercebidas durante 23 anos.

Como médico, Shipman, que hoje tem 56 anos, era inexpressivo. De acordo com o relatório policial, que tem 2.000 páginas, sua lúgubre carreira como assassino começou quando tinha 29 anos, em 1975. Ele só foi desmascarado em 1998 – e, ironicamente, primeiro por estelionato. A filha de uma de suas pacientes estranhou o fato de a mãe ter modificado o testamento pouco antes de morrer, aos 81 anos, deixando o equivalente a 550.000 dólares para o médico. O corpo foi exumado e descobriu-se que a causa da morte tinha sido uma dose cavalar de heroína. Shipman ainda inventou que a vítima havia sido viciada em drogas, mas as provas foram se tornando avassaladoras à medida que mais corpos eram exumados. Só em 1996, num paciente terminal, o Doutor Morte usou heroína suficiente para matar 360 pessoas. No total, 888 mortes foram investigadas. Janet Smith, a juíza encarregada do caso, concluiu que Shipman era "viciado em matar".

Com tantas mortes, Shipman supera com folga seu compatriota Jack, o Estripador, tornando-se o maior assassino em série da Inglaterra e o segundo do mundo no século XX. O recorde ainda pertence a Pedro Armando Lopez, o Monstro dos Andes, com 300 mulheres mortas na Colômbia, no Peru e no Equador. Não adianta perguntar a Shipman o motivo da matança. Ele se nega a falar no assunto. Exceto no caso do testamento falsificado, não há indícios de que tenha lucrado com as mortes. Em um ponto, todos os especialistas estão de acordo: o médico é um narcisista descontrolado, profundamente arrogante, com uma auto-estima tão grande quanto sua insanidade. Uma explicação possível é que sentia prazer em desfrutar o poder de vida e morte. A mulher e os quatro filhos de Shipman, com idade entre 18 e 33 anos, recusam-se a acreditar nas acusações. Quando ela o visita na prisão, causam espanto o bom humor e as risadas do casal.

   
 
   
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