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Os novos dinossauros

Uma enxurrada de descobertas e o uso
de tecnologia moderna estão mudando
tudo o que se pensava sobre os répteis
gigantes extintos há 65 milhões de anos

 
AP

PREDADOR CEARENSE
Alexander Kellner e o Santanaraptor: parente do
T. rex que
viveu no interior do Ceará



Veja também
Os dinossauros brasileiros
As novidades da pré-história
Da internet
Especial sobre os dinossauros

O tiranossauro rex é reconhecido pela maioria das pessoas como o vilão do filme Parque dos Dinossauros. O mais completo esqueleto da espécie, com 90% dos ossos em bom estado de preservação, foi descoberto em 1990, nos Estados Unidos. Com 12,8 metros de comprimento e 4 de altura, foi remontado num museu de Chicago e apelidado de Sue. O nome feminino é uma homenagem à paleontóloga Sue Hendrickson, que escavou o fóssil num deserto do Norte americano, pois não se tem idéia de qual teria sido seu sexo. Em contrapartida, é espantoso o que se pode descobrir ao examinar uma ossada de 67 milhões de anos. Passados por uma tomografia computadorizada, os ossos mostraram que os nervos olfativos eram enormes, mais largos até que a espinha dorsal. Daí, concluiu-se que o sentido mais aguçado dos tiranossauros deve ter sido o olfato. Também se soube que os dinossauros terópodes – denominação científica dos carnívoros bípedes – tinham fúrcula, aquele osso da sorte das aves.

A profusão de conhecimentos novos sobre dinossauros não se limita ao tiranossauro rex. Nos últimos cinco anos, aumentou em 30% o número de espécies conhecidas. São agora 400 identificadas com base em esqueletos completos e outras 400 a partir de fragmentos. Há uma enormidade ainda por descobrir. Os cientistas estimam que existiram 10 000 espécies de répteis que dominaram a Terra durante 160 milhões de anos e foram extintos 65 milhões de anos atrás. Aprendeu-se tanto nos últimos anos que a paleontologia, o ramo da ciência que estuda os fósseis, vive uma fase revolucionária de revisão de conceitos tradicionais. As novidades não dizem respeito apenas à fisiologia, mas também ao comportamento, ao meio ambiente e à evolução dos animais pré-históricos. A revisão de concepções inclui dar aos animais, nas representações artísticas, uma aparência bem diferente daquela imaginada durante décadas. O tiranossauro rex, por exemplo, era representado ereto, arrastando a cauda no solo. Estudos recentes demonstraram que usava o peso do rabo para equilibrar o corpanzil, e sua postura natural era inclinada para a frente. Uma das razões para tantas novidades no universo da paleontologia é simples: fósseis começaram a ser procurados por todo o planeta. Parece pueril, mas até os anos 80 sabia-se bastante sobre os dinossauros da América do Norte, um pouco sobre os da Europa e quase nada sobre aqueles que viveram em outros continentes.

Museu de História Natural de Londres
Dinossauros com penas, descoberto na China


Um universo fascinante abriu-se com as pesquisas na África, no Extremo Oriente e na América do Sul. "Dessas regiões vem a maior parte das novidades", disse à repórter Natasha Madov, de VEJA, o paleontólogo americano Paul Sereno, responsável pela identificação de cinco espécies novas de dinossauro em catorze anos de carreira na Universidade de Chicago. "A África, por exemplo, tem dinossauros únicos, completamente diferentes dos que já conhecíamos." O animal mais impressionante entre os descobertos por Sereno é o Suchomimus, carnívoro de 11 metros de comprimento e 100 milhões de anos de idade, encontrado no Níger, na África Ocidental, em 1997. Ele é assustador, com mandíbulas de crocodilo e garras de 30 centímetros nas patas dianteiras – mas talvez não fosse tão feroz assim. Pelo formato do focinho, Sereno concluiu que provavelmente era um pescador, e não um caçador. As garras terríveis teriam servido para pegar peixes. O tiranossauro rex, que já foi festejado como o mais poderoso carnívoro de todos os tempos, ficou pequeno diante de uma turma recém-chegada de predadores. Encontrado em escavações no Marrocos, há sete anos, o carcarodontossauro é 30 milhões de anos mais antigo (viveu 100 milhões de anos atrás) e quase 2 metros maior que o dinossauro americano. Só a cabeça do africano tem 1,60 metro, 40 centímetros maior que a do tiranossauro rex. Achado no quintal de um mecânico na Patagônia argentina, outro caçador, o giganotossauro, que também viveu há 100 milhões de anos, atingia 14 metros de comprimento.

A Patagônia é um cemitério de animais gigantescos, alguns dos maiores que já existiram. Descoberto em 1993, o argentinossauro era um quadrúpede de 100 toneladas de peso e 40 metros de comprimento. Foi considerado o maior dos maiores até serem encontrados, dois anos atrás, os ossos do sauroposeidon, nos Estados Unidos. Com 30 metros de comprimento, tinha 18 metros de altura, o equivalente a um prédio de seis andares. Um dado importante nessa enxurrada de ossos velhos é a possibilidade de estabelecer a dinâmica da evolução desses répteis e do modo como dominaram a superfície do planeta. Desde que os primeiros "lagartos terríveis" (tradução do nome latino dinosauria, cunhado pelo anatomista inglês Richard Owen, em 1842) passaram a ser sistematicamente catalogados, tenta-se desvendar um mundo perdido a partir de fragmentos fossilizados. No começo, imaginava-se que eles eram animais parecidos com grandes lagartos, de sangue frio, habitantes de regiões pantanosas. Só nos anos 60, com a descoberta de novas espécies, começou-se a questionar o conceito do sangue frio e dos grandes animais lentos e preguiçosos. A teoria mais aceita é a de que os primeiros dinossauros surgiram há 228 milhões de anos. Naquela época existia apenas um grande continente, chamado Pangéia. É bem possível que tudo tenha começado na porção de terra que deu origem à atual América do Sul. "Os animais que encontramos e a datação dos fósseis nos levam a crer que temos na região que vai da Patagônia ao sul do Brasil uma espécie de berço dos dinossauros", diz o argentino Rodolfo Coria, descobridor do giganotossauro e do argentinossauro.

Um estudo produzido na Universidade Columbia, em Nova York, divulgado há pouco mais de um mês, demonstrou que, quando os répteis ainda eram do tamanho de cães, mais de 200 milhões de anos atrás, um meteorito caiu sobre a Terra. O choque devastou boa parte das espécies que aqui viviam e abriu caminho para que os dinossauros se tornassem os novos reis do planeta. Sem predadores à altura, evoluíram rapidamente até a queda do meteoro seguinte, há 65 milhões de anos. Um dos primeiros dinossauros, o eoraptor, encontrado na Argentina, em 1991, tinha o tamanho de uma galinha. Quando o Pangéia se dividiu em dois, Laurásia (atual América do Norte, Europa e Ásia) e Gondwana (hoje África, Antártica, América do Sul, Península Arábica, Índia e Oceania), os animais passaram a evoluir de maneira distinta. O que conhecemos como dinossauros clássicos são os da Laurásia. Quando os dinossauros desapareceram, os continentes já estavam mais ou menos na configuração atual. "Só agora, com as novas descobertas no Hemisfério Sul, estamos começando a perceber como eram os que viviam em Gondwana", diz Paul Sereno.

Os pesquisadores também estão mais atentos para detalhes nos sítios onde encontram os fósseis. Recolhem todos os tipos de vestígio, para associar os répteis a outros animais e ao meio ambiente. Um exemplo do que se consegue com a nova metodologia é a reabilitação do oviraptor (ladrão de ovos, em latim). O nome desse dinossauro carnívoro, que se acredita ser um antepassado dos pássaros, veio de um fóssil descoberto na Mongólia, em 1924. Como ele estava sobre um ninho com cascas de ovos, por setenta anos sua reputação foi de devorador de crias alheias. Recentemente foi encontrado um ovo da espécie e constatou-se que a casca é idêntica à que havia no ninho supostamente saqueado. "O oviraptor estava em cima do próprio ninho e chocava seus ovos quando foi morto, na mesma posição em que os pássaros de hoje o fazem", explica Mark Norrel, do Museu Americano de História Natural. Outras fontes de informação são os programas de computador que simulam a anatomia dos animais e as máquinas de tomografia. Anos atrás, a velocidade da corrida do tiranossauro foi estimada em 70 quilômetros por hora. A partir dessa idéia, Steven Spielberg fez um tiranossauro rex perseguir um jipe em Parque dos Dinossauros. Há cinco meses, pesquisadores americanos da Universidade da Califórnia, em Berkeley, depois de analisarem a anatomia do animal com o auxílio de computador, concluíram que tal desempenho seria impossível. O tiranossauro corria a no máximo 16 quilômetros por hora, o que tornaria possível escapar dele até mesmo de bicicleta. "Pela primeira vez, conseguimos provar cientificamente a relação entre a anatomia e a agilidade desses bichos", diz o biólogo John Hutchinson, que liderou o estudo. Para chegar a 70 quilômetros por hora, o dinossauro teria de ter 86% de seu peso em musculatura nas pernas, o que faria dele um animal completamente diferente daquele que de fato existiu.

O apatossauro (antigamente conhecido por brontossauro), quadrúpede enorme com pescoço e rabo compridos, fartamente representado em livros e filmes, também foi recauchutado. Três anos atrás, a análise das vértebras dos fósseis desses animais mostrou que o pescoço não se erguia para pastar nas árvores mais altas, como sempre se pensou. O apatossauro, com um pescoço de mais de 12 metros de comprimento, não poderia levantá-lo além de 3 ou 4 metros acima do solo, sob o risco de fraturar a coluna. O pescoço era movimentado basicamente na horizontal, da esquerda para a direita, e para baixo. "O resultado foi uma surpresa. Nunca imaginamos que havia alguma dificuldade para o apatossauro levantar a cabeça", explica Michael Parrish, autor do estudo, feito numa universidade americana.

Há seis anos foi descoberta a prova de que dinossauros e pássaros tiveram um ancestral comum. Trata-se do sinosauropterix, cujo fóssil foi encontrado no nordeste da China. Era um bípede carnívoro coberto por filamentos ocos muito semelhantes a penas. Dois anos atrás, paleontólogos acharam na mesma região da China um fóssil de outro dinossauro, do grupo dos dromeossauros, completamente coberto de penas primitivas, da cabeça à ponta das patas. O fóssil, de 124 milhões de anos, está espetacularmente bem conservado. Como o velociraptor, o mais perverso personagem de Parque dos Dinossauros, faz parte da mesma família, é possível que também ele fosse coberto de penas. Assim, se Spielberg refizesse seu filme de acordo com as novas descobertas, teria de cobrir seus terríveis predadores com uma plumagem fina e espessa. "O fóssil desse dromeossauro modifica radicalmente nossa visão desses animais", diz Mark Norell, do Museu Americano de História Natural. "Ele mostra que bípedes carnívoros mais modernos podem ter sido muito mais parecidos com pássaros estranhos que com lagartos gigantes."

O mais denso enigma é o súbito desaparecimento dos dinossauros, há 65 milhões de anos. A teoria mais aceita é a de que a extinção tenha sido causada pela queda de um meteorito ou de um cometa de 10 quilômetros de diâmetro no Golfo do México. Nuvens de sedimentos, que bloquearam a luz solar durante meses, talvez anos, uma frenética atividade vulcânica e sucessivos terremotos devastaram os ambientes onde os grandes répteis viviam. Ainda não se entendeu completamente como outras espécies conseguiram sobreviver a essa hecatombe, mas supõem-se que os dinossauros desapareceram por necessitar de quantidades colossais de comida. Um estudo recente calculou que morreram todos os animais com peso superior a 28 quilos. Um dos sobreviventes foi o Purgatorius, um mamífero do tamanho de um camundongo que vivia em árvores, tinha hábitos noturnos e comia frutas, insetos e animais menores que ele. Ancestral dos primatas, o Purgatorius herdou a Terra.

 

OS DINOSSAUROS BRASILEIROS

Na região que vai da Patagônia argentina ao sul do Brasil são encontrados os fósseis mais antigos, o que faz supor que esses animais se tenham originado nessa área, 228 milhões de anos atrás, quando havia apenas um continente, a Pangéia. Dois carnívoros bípedes descobertos no Rio Grande do Sul estão entre os mais antigos conhecidos: o Staurikosaurus pricei e o Guaibasaurus candelariensis, ambos de 220 milhões de anos. Também foi encontrado na região um exemplar do Saturnalia tupiniquim, herbívoro da mesma época. O animal era relativamente pequeno, com meio metro de altura e 2 metros de comprimento, mas foi o ancestral dos gigantescos saurópodes. No Nordeste há fartura de fósseis mais recentes. Duas espécies de espinosaurídeos, parentes do Suchomimus de Paul Sereno, foram descobertas na Chapada do Araripe, no Ceará. São o Irritator challengeri e o Angaturama limai, que viveram 100 milhões de anos atrás. O mais recente fóssil nordestino é o Santanaraptor placidus, pequeno carnívoro de 1 metro de altura e 2,5 metros de comprimento descoberto pelo pesquisador Alexander Kellner, do Museu Nacional, em 1999. Viveu há 110 milhões de anos e é a espécie brasileira mais próxima da família que deu origem ao tiranossauro rex.

 

As novidades da pré-história

A paleontologia moderna mudou a visão clássica sobre o mundo e a aparência dos dinossauros: descobriram-se dezenas de novas espécies e se aprendeu muito sobre o comportamento e a aparência desses animais

EORAPTOR (228 milhões de anos)
NOVO O pequeno carnívoro de 1 metro de comprimento foi um dos primeiros dinossauros. Foi encontrado na Argentina e ajuda a entender como esses animais surgiram e evoluíram

SHUNOSSAURO (165 milhões de anos)
NOVO
Descoberto em 1983, na China, esse grande saurópode (dinossauro de grande porte e quadrúpede) demonstra, com sua cauda com espinhos, que nem todos os herbívoros eram dóceis, como se pensava

ALOSSAURO (150 milhões de anos)
REVISADO
Novos fósseis deste carnívoro considerado pesadão e lento no passado mostram que, antes de atingir a idade adulta, era um animal ágil e capaz de fugir com rapidez de predadores maiores

APATOSSAURO (150 milhões de anos)
REVISADO
Trata-se do antigo brontossauro, com nome e cara novos. Apesar do pescoço de 12 metros, só erguia a cabeça até 3 metros acima do solo. Também não vivia apenas em pântanos, como se acreditava

BARYONYX (125 milhões de anos)
NOVO
Bípede e com 12 metros de comprimento, tinha garras de 30 centímetros. É um parente europeu do espinossauro, réptil descoberto no Marrocos e tido como o maior carnívoro que viveu na Terra, com 21 metros

ARGENTINOSSAURO E GIGANOTOSSAURO (110 milhões de anos)
NOVO
Descobertos na Patagônia, Argentina. O argentinossauro é um dos maiores animais que já viveram, com 36 metros de comprimento. O giganotossauro é um equivalente sul-americano do T. rex

OVIRAPTOR (75 milhões de anos)
NOVO
Pequeno, ágil e parecido com um pássaro, este dinossauro foi batizado com o nome de "ladrão de ovos" (oviraptor) equivocadamente. O fóssil encontrado perto de ninhos na verdade chocava os ovos, não os roubava

THERIZINOSSAURO (75 milhões de anos)
NOVO – Réptil barrigudo, tinha garras que chegavam a 60 centímetros de comprimento e tufos de penas. Parecia uma preguiça gigante e era vegetariano. As garras eram provavelmente usadas para descascar árvores

EDMONTOSSAURO (65 milhões de anos)
REVISADO
Fósseis mostram que este herbívoro tinha a pele grossa e lisa. Acreditava-se que fosse bípede. Na verdade era quadrúpede e se deslocava em manadas

TIRANOSSAURO REX E TRICERATOPO
(65 milhões de anos)
REVISADO
O triceratopo, um herbívoro, era mais delgado do que se imaginava. O T. rex não arrastava a cauda, mas a usava para equilibrar o corpo. Desse modo, nunca ficava totalmente ereto

A EXTINÇÃO (65 milhões de anos)
REVISADO
O mural mostra explosões vulcânicas, mas a extinção dos dinossauros decorreu do choque de um meteoro com a Terra. O resultado foi uma nuvem de poeira que escondeu o Sol por anos

 

OS RÉPTEIS QUE VOAVAM
Os pterossauros não eram verdadeiros dinossauros. Pertenciam a uma categoria distinta de réptil, com ossos ocos, como os das aves atuais. Algumas espécies tinham asas de 12 metros de envergadura e migravam entre a Europa e a América do Sul. Sabe-se pouco sobre eles, já que são raros os fósseis completos. Alguns animais exibiam cristas com mais de 1 metro, como o Tapejara imperator, descoberto no Brasil

PESCADOR DE MARISCOS
Como os pássaros, os pterossauros tinham bicos especializados. O do Dsungaripterus servia para procurar alimento nas rochas e quebrar conchas

PINÇAS AFIADAS
O Tupuxuara, achado no Ceará, tinha o bico em forma de pinça. Usava-o para pescar e engolia os peixes inteiros

COMO A GAIVOTA
O Thalassodromeus, cuja descoberta no Brasil foi anunciada na semana passada, era um pescador



   
 
   
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