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A
casa do espião
Museu em Washington revive os tempos
românticos da espionagem, atividade que
caiu em desuso com o fim da Guerra Fria

Chris Delboni, de Washington
AFP
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entrada do museu em Washington: os visitantes escolhem um disfarce
e são espionados |

Veja também |
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A
espionagem foi parar no museu. Tão fora de moda quanto as batalhas
ideológicas da Guerra Fria, os espiões ganharam na semana
passada, em Washington, um museu inteiro dedicado a sua atuação.
Numa estranha mas feliz coincidência, o Museu Internacional de Espionagem
fica no mesmo quarteirão do FBI, a polícia federal dos Estados
Unidos, e da antiga sede clandestina do Partido Comunista. Com o desmantelamento
da União Soviética, a espionagem entrou em declínio
no mundo. Os países relaxaram seus serviços de bisbilhotagem
oficial a ponto de os EUA terem sido pegos de surpresa pelo ataque terrorista
de proporções aterradoras em setembro do ano passado. A
operação de ataque às torres gêmeas em Nova
York exigiu um planejamento tão minucioso e extenso que não
teria passado despercebido nos tempos áureos da espionagem. O museu
proporciona um passeio delicioso pelo passado aventureiro e romântico
dos espiões. O projeto custou 40 milhões de dólares
e demorou sete anos para ser montado. O lugar reúne mais de 1.000
peças usadas por espiões em séculos de história
da atividade. "A espionagem é tão antiga quanto a história
documentada. Talvez seja até mais antiga, pois a Bíblia
diz que Moisés mandou espionar Canaã, a terra prometida
dos judeus", observa Peter Earnest, diretor executivo do museu.
"Numa
democracia, é importante que as pessoas tenham compreensão
realista do mundo da inteligência para que apreciem seu papel na
sociedade e o impacto nos grandes acontecimentos mundiais", diz Milton
Maltz, fundador do museu, no qual investiu 25 milhões do próprio
bolso. O retorno financeiro não lhe está tirando o sono.
"Se tiver lucro, ótimo. Mas essa não é minha missão.
Não sou a Enron", completa. Maltz trabalhou para a Agência
de Segurança Nacional dos Estados Unidos. Quando saiu, lançou-se
na iniciativa privada e ganhou uma fortuna como presidente do Malrite
Communications Group, gigante do setor de comunicações.
Ele não sabia o que faria quando se aposentasse, com a conta bancária
transbordando de dinheiro. "Não queria passar o tempo passeando
com o cachorro na praia e, como sou péssimo jogador de golfe, alimentei
o sonho de fazer o museu", explica. Maltz admite que os grandes espiões
e seus feitos podem não estar devidamente representados no museu.
A razão é simples e encontra-se na base do sucesso da profissão.
"Se os espiões são bons, você nunca saberá
quem eles são ou o que fizeram", diz Maltz.
Essa é a regra. O capitão Joseph Rochefort talvez tenha
sido o mais importante funcionário da inteligência americana
de todos os tempos. Trabalhando a bordo de um couraçado no Pacífico
durante a II Guerra Mundial, Rochefort decifrou o código secreto
usado pela armada japonesa. Num tempo em que não existiam satélites
espiões nem radares confiáveis, saber os planos do inimigo
era vital. Graças a seu trabalho, os americanos puderam derrotar
os japoneses na famosa batalha naval de Midway, que decidiu a sorte da
guerra a favor dos aliados no Pacífico. Rochefort amargou um anonimato
de quatro décadas. Só em 1985 seus méritos foram
publicamente reconhecidos.
A primeira lição para quem entra no museu é um lema
da espionagem: "Não confie em ninguém", diz num filme introdutório
Joanna Mendez, que pertence ao conselho de diretoria do museu e foi chefe
do departamento de disfarces da CIA. A ala dedicada às mulheres
espiãs tem o mérito de não sobrevalorizar o trabalho
de coleta de informações feito por elas. Não derruba
os mitos, mas não os alimenta. Mata Hari foi apenas uma amante
de militares de alta patente na I Guerra Mundial. Tudo que a atriz e cantora
alemã Marlene Dietrich fez foi emprestar sua voz a canções
de contrapropaganda transmitidas pelo rádio para o território
alemão. A sensação de visitar o museu se parece com
a proporcionada por um jogo de videogame. "Por favor, entre na sala de
instruções", diz uma voz computadorizada. "Escolha um disfarce."
Ao entrar na sala, há uma série de identidades para o visitante
escolher. Uma delas dá aos brasileiros uma idéia da capacidade
imaginativa do mundo da espionagem. A pessoa pode optar pela identidade
de um certo Antonio Silva. Homem. 58 anos. Carpinteiro, nascido em Piraju,
Brasil, que viaja com destino a Lisboa, Portugal.
Os objetos usados pelos espiões são a principal atração
do museu. A maior parte da coleção exibida pertence ao acervo
do historiador H. Keith Melton, também membro do conselho do museu.
Visivelmente orgulhoso de suas parafernálias, Melton disse que
entretenimento faz parte do mito da espionagem. "Às vezes, para
informar, precisamos primeiro entreter", comenta ele. Para alguns críticos,
o lugar mais diverte que informa. Eles apontam o pecado de misturar num
mesmo museu exposições dedicadas a personalidades e fatos
reais com espiões fictícios, como James Bond, o agente 007.
O carro de Bond é a atração de uma de suas alas.
Os críticos têm razão. As pessoas vão ao cinema
ver os dinossauros criados por Steven Spielberg, mas, quando se dirigem
a um museu, esperam que estejam em exibição peças
reais. Por mais que o carro de James Bond seja intrigante, quando o visitante
é apresentado a uma peça genuína, a sensação
é mais forte. Um exemplo é o objeto mais antigo do museu,
uma carta escrita pelo general americano George Washington em 1777 em
que autoriza a formação de uma rede de espionagem em Nova
York.
As surpresas maiores ficam por conta das soluções de espionagem
utilizadas pelos soviéticos nos tempos da Guerra Fria. Para montar
essa seção, os organizadores do museu contrataram Oleg Kalugin,
um ex-agente soviético que foi o mais jovem general da história
da KGB, a famosa e temida agência de espionagem dos comunistas russos.
Como a espionagem é uma atividade em que o fracasso é bem
mais comum que os acertos, o museu dedicou boa parte de sua exposição
aos erros. Um deles reproduz em detalhes o fracassado "Túnel de
Berlim", a empreitada com que americanos e alemães ocidentais esperavam
grampear com mais facilidade o governo da Alemanha Oriental, então
sob jugo soviético. Efetivamente construído em 1955, o túnel
foi um fracasso. Um agente duplo da inteligência britânica
chamado George Blake entregou o segredo aos comunistas alemães,
que isolaram a área ao redor do túnel de modo que dos prédios
vizinhos só saíram informações inúteis.
Para preservar Blake, os orientais nunca denunciaram a invasão
subterrânea do território.
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Espião
tem cada uma...
O museu reúne cerca de 1 000 peças que contam histórias
de sucessos
e fracassos da espionagem mundial
Fotos AFP
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Cédulas
falsas criadas pelos alemães em 1942 com o objetivo de produzir
inflação na Inglaterra |
| O
sapato com transmissor no salto foi equipamento-padrão de agentes
da CIA |
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| O
relógio-máquina fotográfica dos EUA: mal disfarçado |
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Máquina
de criar códigos dos nazistas: seu segredo foi quebrado pelos
aliados |
Courtesy of the International Spy Museum
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O
truque do transmissor embutido no falso tronco: com ele os EUA
espionaram os russos |
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