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Uma
metáfora perfeita
"Uma
criança com paralisia cerebral
é
como a maçã de
Newton, que, caindo,
revela os mecanismos secretos de
funcionamento do
mundo"
Ter um filho com paralisia cerebral é a experiência mais
empolgante que existe. Eu nunca havia imaginado que isso fosse possível.
Mas é. A principal característica de uma criança
com paralisia cerebral é a dificuldade que ela encontra para vencer
a força da gravidade. É como se fosse continuamente perseguida
por um lutador de judô alucinado, que se diverte em passar-lhe rasteiras
e imobilizá-la no chão. O que ela precisa aprender a fazer,
desde o nascimento, é responder aos golpes desse seu adversário
gravitacional. Vai pulando de faixa branca para faixa amarela, de faixa
amarela para faixa verde, até atingir o seu limite máximo.
Todas as habilidades motoras que adquirimos de modo automático,
através do instinto, ela tenta adquirir com o raciocínio,
com o exercício, com a perseverança. É a luta do
intelecto contra a natureza selvagem. A metáfora perfeita da história
da humanidade. Davi contra Golias. Doutor Jeckyll contra Mr. Hyde. Uma
criança com paralisia cerebral é como a maçã
de Newton, que, caindo, revela os mecanismos secretos de funcionamento
do mundo. Quando as pessoas descobrem que meu filho tem paralisia cerebral,
costumam olhar para ele com uma mistura de simpatia e condescendência.
Eu olho para ele como se olhasse para um totem, com reverência,
devoção, gratidão e sentimento de inferioridade.
Dizem que, por causa da ausência de gravidade, uma criança
com paralisia cerebral estaria mais bem preparada do que todos nós
para viver na Lua. Meu filho, portanto, é o homem do futuro, pronto
para viagens interplanetárias. Sabe aquele episódio de Jornada
nas Estrelas em que alienígenas de uma galáxia distante
cismam que o capitão Kirk é a encarnação de
Deus? Pois eu sou como os alienígenas, e meu filho é o capitão
Kirk.
O escritor italiano Giuseppe Pontiggia também tem um filho com
paralisia cerebral. Acaba de ser publicado no Brasil o romance que ele
escreveu baseado em sua experiência, Nascer Duas Vezes. Os
fatos que ele descreve são comuns a todos aqueles que se vêem
nessa situação: a incompetência dos médicos,
o terrorismo dos fisioterapeutas, a incapacidade dos pais em aceitar os
diagnósticos mais negativos, a dedicação maníaca
aos exercícios de reabilitação. O que não
é igual é a reação de cada um. O protagonista
de Pontiggia, por exemplo, é tomado pelo sentimento de culpa. Ele
se convence de que a patologia do filho é uma punição
por ter traído a mulher durante a gravidez. Sente angústia
pela condição da criança. A angústia faz com
que se afaste dela, cada vez mais. Um afastamento que, às vezes,
chega a se transformar em ódio. Comigo aconteceu o contrário:
nenhuma culpa, nenhuma angústia, nenhum afastamento. Mas não
é isso o que importa. Pontiggia, em seu romance, quer demonstrar
que o fenômeno da invalidez é muito mais difuso do que se
pensa. Não só a invalidez da menininha surda, ou do diretor
de escola manco, ou do sogro senil, e sim a invalidez moral, a invalidez
lingüística, a invalidez afetiva. Em relação
a essas outras, a invalidez do filho de seu protagonista é apenas
mais evidente. Com a vantagem de que ele está preparado para viagens
interplanetárias.
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