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Edição 1 761 - 24 de julho de 2002
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Sérgio Abranches

O risco é geral

"A economia dos EUA é melhor e mais
sólida do que seu mercado financeiro
vê. A do Brasil também. Mas não há
muito o que fazer, porque risco se
mede pelo pior cenário"


Ilustração Ale Setti


O governo abandonou a res
ponsabilidade fiscal, o déficit em conta corrente está em nível recorde, a credibilidade das instituições do mercado e das empresas está profundamente abalada, há fuga de capitais. As autoridades econômicas garantem que os fundamentos da economia são sólidos, mas, com a elevação do risco, a moeda está se desvalorizando fortemente. No Brasil? Não, como os leitores certamente perceberam, cito um comentário de Wall Street sobre os Estados Unidos.

O secretário do Tesouro dos EUA, Paul O'Neill, teve de dizer a repórteres e estudantes que o governo não havia abandonado a política de defesa do dólar, diante da apreensão com a subida do euro. Alan Greenspan, o todo-poderoso presidente do Fed, o banco central americano, assegurou em seu depoimento à Comissão de Finanças da Câmara dos Deputados que os fundamentos da economia americana são sólidos e podem sustentar um ciclo de crescimento saudável. Isso apesar da "ambição contagiosa" que levou empresários, auditores e analistas de mercado a maquiar balanços, na mais generalizada fraude empresarial dos tempos recentes. O colapso de estrelas de Wall Street quebrou a confiança na bolsa e nas empresas dos Estados Unidos e desmascarou vários gurus da nova economia e suas inovações gerenciais. Essa "ambição contagiosa", descoberta por Greenspan, parece ter sido o vírus que levou à "exuberância irracional", como ele caracterizou o espetacular crescimento das bolsas de Nova York nos últimos anos. Crescimento alimentado por valores de ações baseados em sonhos – como disse o economista Jacob Frenkel – e que agora viraram o pesadelo que assombra a classe média e os fundos de investimentos.

Greenspan não pode, porém, deixar de reconhecer – e alertar –, ao falar da taxa de câmbio desfavorável, que a responsabilidade fiscal dos últimos anos foi abandonada e precisa ser restaurada para garantir crescimento econômico sustentado de longo prazo. Para isso, o governo teria de gerar superávits primários. O risco EUA subiu com o ressurgimento dos "déficits gêmeos" e a crise de governança corporativa, e enfraqueceu o dólar diante do euro. O presidente Bush é o pai desses déficits, porque reduziu impostos e aumentou os gastos, militares principalmente. Abandonou a responsabilidade fiscal.

Enquanto isso, no Brasil, o presidente Fernando Henrique premiou 45 prefeitos, de dez partidos, por sua responsabilidade fiscal. Ficamos sabendo que irresponsabilidade fiscal não é vício que acomete apenas "emergentes" e que governos conservadores podem adotar políticas fiscais irresponsáveis. Não é um vírus esquerdista.

Agora sabemos também que o imperativo da responsabilidade fiscal, vindo do mercado financeiro global, vale para todos, ainda que em medida variável. Os chamados "fundamentos" são o padrão geral para medir o grau de risco e a saúde da economia de todos os países. Praticamente todo o excedente financeiro mundial passa hoje pelos mercados de capitais, que se tornaram o centro do padrão de financiamento do capitalismo contemporâneo. A busca de maiores garantias, por parte dessa rede financeira global, transforma as políticas macroeconômicas que evitam déficits fiscais e em conta corrente em condição inegociável para a participação dos países nela. Claro, com presença desigual, em função dos papéis de cada um – como fornecedor e/ou receptor de capitais, o que tem a ver também com a capacidade doméstica de geração e captação de estoques de poupança – e da potência econômica instalada. Por isso o chamado "mercado" tem tolerâncias diferentes para relações como dívida/PIB ou para o nível de déficit/superávit fiscal e em conta corrente em distintas economias.

A economia dos EUA é melhor e mais sólida do que seu mercado financeiro vê. A do Brasil também. Ambas têm apresentado ganhos importantes de produtividade. Os alicerces das duas economias reais são mais sólidos e menos voláteis do que os circuitos financeiros avaliam. Mas não há muito o que fazer, porque risco se mede pelo pior cenário e se desconta muito pouco o que há de positivo para compensar o lado negativo. Tem gente que acha que a idéia de fazer o "dever de casa" – gerar superávits primários e cuidar do saldo em conta corrente – é "coisa de criança", imposta a países de terceira classe pelos de primeira. Mas, na verdade, vale para todos, e na vida é assim: dever de casa há sempre, em qualquer ramo e em qualquer idade.


Sérgio Abranches é cientista político
(
sergioabranches@sda.com.br)

 
 
   
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