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Sérgio
Abranches
O
risco é geral
"A
economia dos EUA é melhor e mais
sólida do que seu mercado financeiro
vê. A do Brasil também. Mas não há
muito o que fazer, porque risco se
mede pelo pior cenário"
Ilustração Ale Setti
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O governo abandonou a responsabilidade
fiscal, o déficit em conta corrente está em nível
recorde, a credibilidade das instituições do mercado e das
empresas está profundamente abalada, há fuga de capitais.
As autoridades econômicas garantem que os fundamentos da economia
são sólidos, mas, com a elevação do risco,
a moeda está se desvalorizando fortemente. No Brasil? Não,
como os leitores certamente perceberam, cito um comentário de Wall
Street sobre os Estados Unidos.
O secretário do Tesouro dos EUA, Paul O'Neill, teve de dizer a
repórteres e estudantes que o governo não havia abandonado
a política de defesa do dólar, diante da apreensão
com a subida do euro. Alan Greenspan, o todo-poderoso presidente do Fed,
o banco central americano, assegurou em seu depoimento à Comissão
de Finanças da Câmara dos Deputados que os fundamentos da
economia americana são sólidos e podem sustentar um ciclo
de crescimento saudável. Isso apesar da "ambição
contagiosa" que levou empresários, auditores e analistas de mercado
a maquiar balanços, na mais generalizada fraude empresarial dos
tempos recentes. O colapso de estrelas de Wall Street quebrou a confiança
na bolsa e nas empresas dos Estados Unidos e desmascarou vários
gurus da nova economia e suas inovações gerenciais. Essa
"ambição contagiosa", descoberta por Greenspan, parece ter
sido o vírus que levou à "exuberância irracional",
como ele caracterizou o espetacular crescimento das bolsas de Nova York
nos últimos anos. Crescimento alimentado por valores de ações
baseados em sonhos como disse o economista Jacob Frenkel
e que agora viraram o pesadelo que assombra a classe média e os
fundos de investimentos.
Greenspan não pode, porém, deixar de reconhecer e
alertar , ao falar da taxa de câmbio desfavorável,
que a responsabilidade fiscal dos últimos anos foi abandonada e
precisa ser restaurada para garantir crescimento econômico sustentado
de longo prazo. Para isso, o governo teria de gerar superávits
primários. O risco EUA subiu com o ressurgimento dos "déficits
gêmeos" e a crise de governança corporativa, e enfraqueceu
o dólar diante do euro. O presidente Bush é o pai desses
déficits, porque reduziu impostos e aumentou os gastos, militares
principalmente. Abandonou a responsabilidade fiscal.
Enquanto isso, no Brasil, o presidente Fernando Henrique premiou 45 prefeitos,
de dez partidos, por sua responsabilidade fiscal. Ficamos sabendo que
irresponsabilidade fiscal não é vício que acomete
apenas "emergentes" e que governos conservadores podem adotar políticas
fiscais irresponsáveis. Não é um vírus esquerdista.
Agora sabemos também que o imperativo da responsabilidade fiscal,
vindo do mercado financeiro global, vale para todos, ainda que em medida
variável. Os chamados "fundamentos" são o padrão
geral para medir o grau de risco e a saúde da economia de todos
os países. Praticamente todo o excedente financeiro mundial passa
hoje pelos mercados de capitais, que se tornaram o centro do padrão
de financiamento do capitalismo contemporâneo. A busca de maiores
garantias, por parte dessa rede financeira global, transforma as políticas
macroeconômicas que evitam déficits fiscais e em conta corrente
em condição inegociável para a participação
dos países nela. Claro, com presença desigual, em função
dos papéis de cada um como fornecedor e/ou receptor de capitais,
o que tem a ver também com a capacidade doméstica de geração
e captação de estoques de poupança e da potência
econômica instalada. Por isso o chamado "mercado" tem tolerâncias
diferentes para relações como dívida/PIB ou para
o nível de déficit/superávit fiscal e em conta corrente
em distintas economias.
A economia dos EUA é melhor e mais sólida do que seu mercado
financeiro vê. A do Brasil também. Ambas têm apresentado
ganhos importantes de produtividade. Os alicerces das duas economias reais
são mais sólidos e menos voláteis do que os circuitos
financeiros avaliam. Mas não há muito o que fazer, porque
risco se mede pelo pior cenário e se desconta muito pouco o que
há de positivo para compensar o lado negativo. Tem gente que acha
que a idéia de fazer o "dever de casa" gerar superávits
primários e cuidar do saldo em conta corrente é "coisa
de criança", imposta a países de terceira classe pelos de
primeira. Mas, na verdade, vale para todos, e na vida é assim:
dever de casa há sempre, em qualquer ramo e em qualquer idade.
Sérgio
Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)
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