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Nos hinos nacionais,
raiva e ameaças
Surpreende
que, depois que eles são tocados nos
estádios, não haja uma profusão de mortos e feridos
Um deles fala nos
"truques miseráveis" do inimigo. Outro alerta
os cidadãos contra os "ferozes soldados" que
vêm "degolar seus filhos e suas companheiras".
Um terceiro proclama: "Estejamos prontos para a
morte". Estamos citando diferentes hinos nacionais.
Eles são ouvidos por milhões de pessoas nestes dias de
Copa do Mundo. Ninguém, evidentemente, se dá conta das
letras, mesmo porque na maioria elas se apresentam em
línguas estrangeiras. No entanto, se tomadas a sério,
causariam pânico nos estádios. Elas contêm ameaças
terríveis, quando não insultos aos estrangeiros, exibem
uma ultra-sensibilidade a sentimentos como a honra,
supervalorizam valores como a glória, e convocam os
nacionais a uma espécie de estado de guerra permanente.
O hino que fala dos
"truques miseráveis" do inimigo é o God
Save the Queen, da Inglaterra "knavish
tricks", no original. O da França, a Marselhesa,
o mais célebre de todos os hinos, é o que alerta
contra os soldados que vão degolar
("égorger") crianças e mulheres.
O que convoca as
pessoas a estarem prontas para a morte é o da Itália:
"Siam pronti alla morte, l'Italia chiamò". O
do Brasil não é mais bonzinho. Embora se dê a vagares
bucólicos como cantar os campos que têm mais flores,
acena com o "braço forte" e a luta da qual
nenhum filho se esquivará. O do México, quem sabe o
mais belicoso, considera que, a cair sob jugo inimigo, é
preferível que as campinas do país "com sangue se
reguem" e que seus "templos, palácios e torres
se derrubem com hórrido estrondo".
Na cerimônia de
abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno realizados em
Albertville, na França, em 1992, quando uma menina de 11
anos cantou, a capela, a Marselhesa, algumas
pessoas se disseram chocadas, inclusive Danielle
Mitterrand, mulher do então presidente da República,
François Mitterrand. Em toda sua inocência, a menina
falara em "estandarte sangrento" e ordenara:
"Às armas, cidadãos/ Formem seus batalhões/
Marchemos, marchemos". Começou ali uma campanha,
promovida pela senhora Mitterrand e outros notáveis,
para a mudança da letra do hino. A campanha não deu e
provavelmente não vai dar em nada, mas alertou para a
dissincronia entre os hinos, elaborados quase sempre em
situações de guerra, em tempos em que tripudiar sobre o
inimigo e xingar o estrangeiro era virtude, e um presente
que se quer politicamente correto e consciente da
impropriedade da violência.
Na Inglaterra, a
Copa do Mundo serve de ocasião para movimento similar. O
jornal Sunday Times publicou, na edição do dia
14, uma reportagem em que, do compositor Lloyd-Weber à
estrela do rúgbi Will Carling, diversas pessoas se
manifestam pela mudança do God Save the Queen, ou
mesmo sua substituição, como hino nacional. "A
letra é sórdida e a melodia é horrível", afirmou
o compositor de música clássica Mark-Anthony Turnage. O
God Save the Queen, elaborado num tempo de luta
contra as pretensões dos Stuart escoceses à coroa
britânica, fala, de forma absurda para o hino de um
reino chamado "unido", em "esmagar os
escoceses". São palavras que estão para a
xenofobia assim como está para o racismo o "sangue
impuro" que a Marselhesa atribui aos
inimigos.
Consideradas as
letras dos hinos na totalidade, ressalta como
característica comum a falta de imaginação. Tomem-se
os hinos de cinco países latino-americanos que
participam da Copa do Mundo. Todos proclamam a liberdade,
que no hino chileno é a "herança do bravo" e
no argentino um "grito sagrado". A liberdade de
que se fala, evidentemente, é com relação ao antigo
poder colonial. Se fosse a dos cidadãos, os hinos teriam
virado piada, à passagem pela História dos respectivos
países dos generais Pinochet e Videla. Todos os cinco
hinos, igualmente, oferecem, a exemplo do da Itália, os
cidadãos em holocausto no altar da pátria. Ou seja:
convidam-nos a morrer. "Coroados de glória vivamos/
Ou juremos com glória morrer", diz o argentino. O
chileno: "Saibamos vencer ou morrer".
"República ou morte" é a disjuntiva que
oferece o hino paraguaio. O mexicano afirma que os
nacionais, em "sangrentos combates", costumam
"la muerte o la gloria buscar". No do Brasil,
aceita-se o desafio da morte em nosso peito e não se
teme quem nos adora a própria morte. A falta de
imaginação, nas letras, faz com que todas se pareçam.
Belicosos como são
os hinos, não é de estranhar a violência no futebol.
Aliás, é de estranhar que não haja mais violência
ainda. Imagine-se um jogo entre Itália e França.
Perfilados, uns se proclamam prontos a morrer, enquanto
outros convocam os cidadãos às armas. Que esperar que
venha em seguida? Ou um jogo do México, em que, para
começar, a equipe ameaça: "Guerra, guerra sem
trégua ao que intente/ Da pátria manchar os brasões!/
Guerra, guerra! Os pátrios pendões/ Em ondas de sangue
empapai". Se na seqüência não se registra uma
profusão de mortos e feridos é porque no futebol são
todos, jogadores, técnicos, dirigentes e torcedores,
muito delicados.

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