Ópera com salmão

Um festival de música erudita que alimenta
o espírito sem esquecer do estômago

Glyndebourne, Inglaterra: piquenique black-tie no intervalo das apresentações
Foto: Clive Barda  

Com a chegada do verão e sob o lema "Cultura é lazer", os europeus tentam conciliar as férias com o amor pelas artes, comparecendo em massa a inúmeros festivais de música, teatro, cinema e dança. No caso da música, a oferta é grande e a disputa pelos clientes, acirrada. Os organizadores dos festivais, na tentativa de popularizá-los, dão asas à imaginação. Os concertos ao ar livre, com grand finale hollywoodiano e queima de fogos, tornam-se festa, numa adaptação dos grandes concertos de rock.

Seguindo essa linha, mas sem perder a classe, o Festival de Glyndebourne, dedicado exclusivamente à ópera e realizado todos os anos entre maio e agosto, é uma das maravilhas britânicas. O teatro, recém-construído, tem acústica perfeita e pode dar-se ao luxo de exibir, como orquestra residente, a Filarmônica de Londres. Para conseguir uma assinatura do evento, houve quem tivesse de esperar trinta anos. Isso mesmo: trinta anos! Uma das peculiaridades do Festival de Glyndebourne, situado a duas horas de carro da capital inglesa, é o piquenique black-tie. Um piquenique de luxo, regado a vinho e champanhe, com direito a salmão e rosbife. O ritual de preparação para o banquete começa no estacionamento. Do porta-malas dos carros saem desde cadeiras de lona a toalhas de renda, passando por isopores e castiçais de prata. Sob céu ameaçador — afinal, se a Inglaterra dependesse de bom tempo para se desenvolver, certamente teria o mesmo avanço tecnológico da Somália —, as pessoas deixam as mesas preparadas antes de entrar no teatro. No menu da semana passada, o prato de resistência era a ópera Così Fan Tutte (Assim Fazem Todas), de Mozart.

Todas são infiéis — Se escrita hoje, Assim Fazem Todas certamente encontraria grande resistência por parte do movimento feminista. O libreto de Lorenzo da Ponte propõe uma espécie de experiência de laboratório com o comportamento humano, defendendo candidamente a tese de que todas as mulheres são infiéis. Ao fim do primeiro ato, com o espírito alimentado, a platéia dispôs de 85 minutos para pensar no corpo. A leve garoa e o vento frio não impediram que Glyndebourne mantivesse o seu encanto. Com os sapatos enlameados e a alma lavada, o público voltou para o último e glorioso ato. Uma experiência fascinante.

No resto da Europa, festivais tradicionais como Salzburgo, Edimburgo e Lucerna continuam firmes na sua rotina anual. Neste ano, o presidente da Romênia, Emil Constantinescu, conseguiu colocar seu país no mapa cultural do planeta. Graças a seu aval pessoal, o Festival George Enescu recebeu uma injeção de milhões de dólares. Vedete do verão europeu, irá acolher orquestras do calibre da Sinfônica de Chicago e da Filarmônica da BBC, além de personalidades como o regente Daniel Barenboim, o pianista Radu Lupu e a cantora Barbara Hendricks. No Brasil, o Festival de Inverno de Campos do Jordão é o único que tem expressão nacional. Mesmo assim, sobrevive em meio a lutas quixotescas. Com clima privilegiado e indiscutível potencial turístico, as cidades brasileiras involuem no seu próprio marasmo cultural. A exceção é São Paulo. Não é necessário ser diplomado em sociologia para saber que cultura é fundamental para o desenvolvimento de um povo civilizado.

Se a Romênia pode, por que nós não podemos?

Arnaldo Cohen, de Glyndebourne




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