Pelo avesso

James Ellroy explora o lado sórdido dos
Estados Unidos em Tablóide Americano

O escritor James Ellroy diz que é "obcecado" por crimes e sabe exatamente quando essa obsessão começou. Foi em 22 de junho de 1958, quando sua mãe apareceu morta. Um homem até hoje não identificado enforcou-a com meias de seda. Ellroy tinha 10 anos e não quis comparecer ao enterro. "Foi um dia estranho", contou ele em entrevista a VEJA. "Eu chorei de alívio. Odiava minha mãe quando ela morreu." No período seguinte, Ellroy envolveu-se com a marginalidade. Viciou-se em álcool e drogas, foi várias vezes parar na cadeia. Mas na década de 70 conseguiu fugir dessa trilha. Aprendeu a dominar o interesse mórbido pela violência e, finalmente, deu uma guinada: sua estréia na ficção data de 1979. De lá para cá, Ellroy tornou-se um dos principais escritores do gênero policial nos Estados Unidos. A recente adaptação cinematográfica de Los Angeles, Cidade Proibida lançou seu nome para o grande público, mas ele sempre foi um dos poucos autores a receber elogios fora dos guetos de aficionados. Seu último romance, Tablóide Americano (Editora Record; tradução de Alves Calado; 49 reais; 704 páginas), acaba de sair no Brasil.

"Tornei-me obcecado por crimes quando minha mãe foi assassinada. Foi um dia estranho. Eu chorei de alívio, pois a odiava quando ela morreu "

Submundo, USA — A obra representa uma novidade na carreira de Ellroy. Todos os seus livros anteriores são ambientados em Los Angeles, cidade onde nasceu e ainda vive. As décadas douradas de 40 e 50, com o glamour do cinema e do dinheiro novo, eram as que mais interessavam ao autor. "De repente, porém, senti que havia explorado esse cenário até a medula e não queria retornar a ele em ficção", conta Ellroy. Ele se voltou para a História americana como um todo e expandiu os limites temporais da narrativa. A ação de Tablóide Americano tem início em 1958 e termina em 1963, minutos antes do assassinato do presidente J.F. Kennedy, em Dallas.

O que não muda é o método de Ellroy. Ele diz que Tablóide Americano apresenta "o pesadelo privado da política pública". Em outras palavras, os grandes eventos e personagens históricos são fotografados em negativo, segundo o ponto de vista de figuras menores, como policiais e criminosos. O magnata da imprensa Howard Hughes, o todo-poderoso diretor do FBI J. Edgar Hoover e o sindicalista Jimmy Hoffa são algumas das personalidades reais que desfilam pela narrativa. Mas os verdadeiros "heróis" são Pete Bondurant, um antigo xerife, Kemper Boyd, um agente federal corrupto, e Ward Littell, um ex-seminarista transformado em agente do FBI, que logo vê seu idealismo corrompido. Segundo Ellroy, Tablóide Americano é a primeira parte de uma trilogia chamada Submundo, USA. O segundo volume começará "minutos depois" do final do primeiro e avançará até 1968. O terceiro irá até 1973. A Guerra do Vietnã e o escândalo de Watergate são alguns dos episódios da História americana que deverão ser "comentados". A tese subjacente ao projeto é de que não se pode falar em "queda" da América, porque ela jamais foi inocente. "Não vou chegar à década de 90, mas não há dúvida de que encontraria nela todos os elementos que me levam a escrever", diz Ellroy. "Em outras palavras, estou certo de que poderia contar a história secreta do século XX sob a perspectiva do crime."

Ellroy é um escritor de bons recursos estilísticos. Los Angeles, Cidade Proibida é um romance escrito em linguagem elíptica, cheio de sugestões e omissões. Tablóide Americano, por sua vez, é construído com frases curtas e muito mais ásperas. O escritor afirma que sua maior influência literária foi um policial anônimo de Los Angeles, que a certa altura da vida se transformou em autor de histórias de suspense. Quanto aos clássicos, porém, ele não é muito generoso. Dashiell Hammett, autor de O Falcão Maltês, foi uma influência no início da carreira e ainda é bem visto. Já Raymond Chandler é para Ellroy um autor superestimado. "Ele não tinha conhecimento real das pessoas", sentencia.

C.G.




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