Na vida real

Em A Flor Azul, o romantismo ganha tintas inesperadas

O alemão Friedrich von Hardenberg, que escrevia sob o pseudônimo de Novalis, foi o protótipo do herói romântico. Ou pelo menos é o que dizem os mitos em torno dele. Sua vida foi brevíssima: apenas 28 anos, de 1772 a 1801. Sua morte deveu-se, é claro, à tuberculose, doença por excelência dos poetas e desvairados. Sua maior experiência amorosa teve caráter quase místico: ao ver a jovem Sophie von Kühn de perfil contra uma janela, apaixonou-se. Pediu-a em noivado. Antes do casamento, porém, o destino levou a frágil musa (ninfeta, diríamos hoje, pois tinha apenas 14 anos). Inspirado pela tragédia, Novalis redigiu os misteriosos versos e fragmentos de Hinos à Noite e, mais tarde, outras obras igualmente etéreas. Seu estilo era incomum. Novalis escrevia como um gênio e como um anjo.

A julgar pelo nome de seu nono romance, A Flor Azul (Bertrand Brasil; tradução de Lia Wyler; 266 páginas; 29 reais), baseado na vida do alemão, a escritora inglesa Penelope Fitzgerald, de 81 anos, teria engolido com casca e tudo o "mito Novalis". O título foi tirado de uma novela inacabada do autor, Heinrich von Ofterdingen, que fala de um homem obcecado pela imagem da flor azul, símbolo de tudo que é inefável na vida humana. Mas as aparências enganam. Penelope não é apenas uma velhinha interessada em idílicas histórias de amor, assim como Novalis não era apenas um sonhador: ele dirigiu com sucesso minas de sal e, além disso, podia ser um pensador extremamente rigoroso. Deixou, por exemplo, um projeto de enciclopédia e estudou com afinco os problemas mais cabeludos dos sistemas filosóficos de Kant ou Fichte.

A Flor Azul surpreende. As primeiras páginas já apresentam uma cena inesperada: a lavagem anual de roupas numa casa da aristocracia alemã do século XVIII. Penelope diz a que veio: não pretende idealizar seus personagens nem seu cenário. O cotidiano é apresentado com todos os cheiros e ruídos, enquanto Novalis, seus familiares, amada e amigos são descritos em linguagem que oscila entre a simpatia e a ironia. O melhor exemplo é Sophie: em algumas passagens ela aparece como menininha comum, "criada à base de batatas". Em outras, é retratada enfrentando os terríveis problemas de sua doença. Vamos do humor ao amor, num ciclo completo.

Longe dos formatos convencionais, A Flor Azul tem 55 capítulos curtos ("fragmentos", como diriam os filósofos românticos) e estrutura solta, anedótica, quase experimental. Recebido com uma batelada de elogios, o livro poderia ser instrumento para outro mito: o de que senhoras inglesas, desde Jane Austen, fazem milagres quando resolvem escrever. Mas, como o Novalis evocado pelo livro, o talento literário de Penelope Fitzgerald é real.

Carlos Graieb




Copyright © 1998, Abril S.A.

Abril On-Line