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Sucesso e declínio
O caso da
Siciliano e o da Brasiliense
movimentam o mercado editorial do país
Numa semana movimentada, duas notícias mostraram como
o negócio do livro no Brasil vem-se modernizando e como o modelo
de administração familiar, que ainda vigora na maioria das editoras, está
cada vez mais ultrapassado. No primeiro caso, as empresas Siciliano (63
livrarias, quatro editoras e uma importadora) anunciaram a criação de
uma parceria com um grupo americano, a Darby Overseas Investments. É uma
associação inédita no mercado editorial brasileiro. Ela indica, sobretudo,
que o setor, hoje responsável pelo movimento de um bom dinheiro (veja quadro), começa a atrair a atenção do mundo globalizado.
No segundo caso, está o agravamento da crise da tradicional Editora Brasiliense.
Fundada em 1943, a empresa, que chegou a ocupar posto de liderança na
década de 80, está reduzida a ossos e enfrenta um processo dos herdeiros
de Monteiro Lobato, um dos fundadores da editora, juntamente com o historiador
Caio Prado Jr. Eles entraram com ação judicial para retirar da Brasiliense
o direito de publicar as obras do criador do Sítio do Pica-Pau Amarelo.
Não só por motivos históricos Lobato é importante para a Brasiliense.
Foi graças a uma grande venda de livros seus para o MEC, no começo de
1998, que a empresa respirou e pôde pagar algumas das muitas dívidas que
a ameaçam. Segundo Jorge Kornbluh, porta-voz dos herdeiros de Lobato,
há dois motivos para o pedido de rescisão: a falta de prestação de contas
pela editora e a quebra de uma cláusula contratual que obriga a Brasiliense
a ter sempre em estoque pelo menos 200 exemplares de cada livro do escritor.
"A editora não divulga a literatura de Lobato, que perde mercado
a cada ano", diz Kornbluh.
Segundo o acordo
fechado na segunda-feira, a Darby Overseas passa a ser
dona de 35% das ações da Siciliano. Os valores
envolvidos foram mantidos em segredo. Os americanos não
compraram ações "velhas": um novo lote delas
foi criado para a transação. Isso significa que houve
um aumento real no capital do grupo brasileiro. A
expectativa é que essas ações se valorizem bastante
nos próximos sete anos, ao final dos quais a Siciliano
deve abrir seu capital definitivamente para negociação
em bolsas de valores. Além disso, uma nova estrutura
administrativa foi criada com o negócio. Um conselho
formado por cinco executivos tomará as decisões na
Siciliano. Três assentos são ocupados por brasileiros
o presidente do grupo, Osvaldo Siciliano Jr., o
diretor Vicente Siciliano Jr. e um terceiro funcionário.
Os outros dois são ocupados por estrangeiros designados
pela Darby. A empresa é especializada em investir em
países emergentes. No Brasil, ela tem participação nos
setores de hotelaria e de embalagens. O anúncio da sua
entrada no mercado editorial causou surpresa. "O
interesse da Darby mostra não apenas que a Siciliano
está passando por ótima fase, mas também que a
indústria brasileira do livro, como um todo, dá
indícios de vitalidade", explica Osvaldo Siciliano
Jr. Com a injeção de capital estrangeiro, a Siciliano
pretende incrementar os seus negócios até 1999,
serão inauguradas seis grandes livrarias, no estilo
megastore.
Primeiros
Passos Enquanto a Siciliano se moderniza,
a Brasiliense naufraga em meio a brigas familiares. Por
cerca de trinta anos o filho de Caio Prado Jr., Caio
Graco, foi o presidente da editora. Na década de 70, ele
enfrentou uma primeira crise econômica e até pediu
concordata, mas reergueu-se e, em meados dos anos 80,
levou a editora ao seu auge. Sob sua direção, a
Brasiliense lançou clássicos estrangeiros, revelou
escritores brasileiros, tornou-se referência na
universidade e popularizou a cultura por meio de
coleções como a Primeiros Passos. Em 1992,
entretanto, um acidente matou Caio Graco, e uma disputa
pela sucessão teve início, resolvendo-se apenas no
final do ano passado. Depois de inúmeros debates legais,
os herdeiros de Graco entregaram à irmã deste, Yolanda
Cerquinho Prado, suas cotas na Brasiliense. "Fizemos
isso porque ficou provado que só restavam
dívidas", diz Suzana Prado, viúva de Graco.
Yolanda, ou Danda
Prado, como é conhecida, já vinha exercendo a
presidência da editora desde 1992 na condição de
inventariante e é alvo de diversas críticas. Para seus
parentes, bem como para diversos executivos do mercado
editorial, deveu-se à sua inexperiência administrativa
a deterioração das contas da Brasiliense. Num dos
últimos balanços publicados pela editora, em 1995, seus
prejuízos superavam os 400.000 reais. Estima-se no
mercado que os débitos fiscais e previdenciários da
empresa, somados às contas atrasadas com fornecedores e
autores, cheguem a 2 milhões de reais. As três
livrarias que a empresa possuía em São Paulo foram
fechadas. Alguns de seus melhores autores migraram para
outras editoras. Muitos põem em dúvida também a linha
de publicações adotada por Danda, que privilegia temas
feministas. Danda estava fora do país na semana passada,
mas em entrevista recente a VEJA disse que as dívidas
tributárias da Brasiliense foram renegociadas e que
direitos autorais atrasados começarão a ser pagos neste
ano. Ela redimensionou a empresa, mudando sua sede para o
bairro do Tatuapé, em São Paulo. Seu projeto é
reerguer a Brasiliense a partir dali, abrindo uma
livraria de bairro no mês que vem.


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