Sem vencedores

A Trégua não está à altura do livro do italiano Primo Levi, no qual se baseia

Turturro, no papel do
escritor: o horror antes
e depois de Auschwitz
Foto: Collection Christophe L.  

Graças à contundência de sua prosa, o escritor judeu italiano Primo Levi passou para a história como um dos grandes memorialistas do holocausto. Para transmitir o horror dos campos de concentração nazistas, Levi compôs uma narrativa tocante, marcada pela precisão e ironia. Sem precisar recorrer a um único adjetivo, Levi produziu um notável comentário sobre a guerra a partir de Auschwitz, o campo de concentração em território polonês. "Se existe Auschwitz, Deus não pode existir", escreveu. Traduzir tal obra literária para o cinema não é tarefa fácil. A Trégua (La Tregua, Itália, 1996), que estréia nesta sexta-feira em São Paulo, e já em cartaz no Rio de Janeiro, não está à altura da prosa de Levi. Dirigido pelo diretor italiano Francesco Rosi, um veterano comunista, o filme escorrega no sentimentalismo e numa mal-disfarçada elegia do Exército Vermelho russo. Por se tratar da vida de Levi, um cético que viria a se matar em 1987, o tom redentor presente na fita é no mínimo inverossímil. O melhor do filme é o ator americano John Turturro, que interpreta Levi de uma maneira sóbria, e por isso mesmo comovente.

Baseado no livro homônimo de Levi, A Trégua conta as peripécias por que passou o escritor depois da derrota final alemã, em 1945. O livro é a continuação da obra-prima do autor, É Isto um Homem?, que aborda justamente o ano em que ele permaneceu em Auschwitz. Depois de libertados, antes de poder voltar para casa, em Turim, Levi e seus companheiros de infortúnio foram obrigados a fazer uma verdadeira via-crúcis pela Rússia Branca, Ucrânia, Romênia, Hungria, Alemanha e Áustria. Foram quatro meses de calvário, amenizados no filme pelo heroísmo e pela bonomia bolcheviques. A Trégua cresce à medida que o comboio de Levi se distancia do território russo. Numa escala em Munique, em silêncio absoluto, ele faz um belo ajuste de contas com a Alemanha. Exibe, de peito aberto, a estrela-de-davi bordada no uniforme puído para alguns pobres operários alemães. Pena que seqüências como essa não dêem o tom geral do filme.

A. P.




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