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Para ser exato, há duas e não uma novidade. A primeira é que a maioria dos negros está em ascensão em matéria de renda e de escolaridade. Há hoje uma classe média negra integrada por 7,5 milhões de pessoas com renda média familiar de 2.600 reais por mês e uma arrecadação conjunta de 46 bilhões de reais anuais. O nível de escolaridade dos jovens negros brasileiros de maneira geral é muitíssimo mais elevado que o de seus pais e avós e as ambições de consumo dessa população são iguais às manifestadas pelos brancos. A segunda novidade refere-se às exceções, os indivíduos que fazem sucesso e enriquecem, como o cantor Alexandre Pires ou o jogador da seleção Roberto Carlos. Vitaminados pela potência extraordinária adquirida pela cultura de massa, eles podem se beneficiar do sucesso numa dimensão desconhecida por seus antecessores. Vem de longe a decantada facilidade dos negros em áreas como o futebol ou a música, particularmente o samba. Pelé, Garrincha, Didi, Barbosa, Fio Maravilha e Leônidas da Silva são alguns do primeiro time, o da bola. Pixinguinha, Ataulfo Alves e Cartola eram do segundo, o da música. Foram todos ídolos, mas a velha-guarda, com exceção de Pelé, levou uma vida humilde, não raro humilhante. Agora, não. Os negros que estão nas paradas de sucesso e nos gritos de gol são profissionais que lidam com perfeição com a indústria do entretenimento. Cercam-se de empresários e negociam contratos estelares. Entre direitos autorais e shows, Alexandre Pires embolsa todo mês 85.000 reais. Tem mais de 100 ternos no armário (Versace e Armani) e dois carros importados na garagem (um Porsche e uma Cherokee). Para comparar, Pixinguinha, mesmo depois de ter composto o hit Carinhoso, e Cartola, depois de As Rosas Não Falam, continuaram morando nas mesmas casas pobres de antes do sucesso. Cartola só foi gravar seu primeiro LP aos 66 anos de idade. Pixinguinha passou os últimos anos de sua vida bebendo água mineral e batendo papo com os amigos da velha-guarda. O crepúsculo dos velhos jogadores de futebol foi tão cruel quanto o dos sambistas. O ex-goleiro Barbosa, crucificado pela derrota da seleção na Copa de 50, sobrevive graças a uma aposentadoria mensal de 86 reais. O mágico Mané Garrincha morreu, entre outros sintomas, com gastrite alcoólica hemorrágica. Por fim, o atacante Fio Maravilha, que encantava a galera rubro-negra do Flamengo homenageado na letra de Jorge Ben Jor , teve de mostrar gingado para entregar pizzas e pintar paredes nos Estados Unidos, depois de encerrada a carreira. Os 7,5 milhões de negros e mestiços que já chegaram à classe média, sustentados por um padrão de escolaridade três vezes superior ao dos pais, ainda são minoria se confrontados com o total de 68 milhões de indivíduos com ascendentes africanos existentes no país. Mas nunca foram tantos e jamais estiveram tão à vontade para ostentar sua raça sem o encolhimento que caracterizou as gerações anteriores. Tome-se a Seleção Brasileira de Futebol, esta, que os locutores esportivos não cansam de proclamar a mais cara da Copa (leia-se: a que tem atletas mais bem remunerados). É a mais negra desde a de 1966, com sete titulares negros ou mestiços. Onipresentes em propagandas de tênis, artigos esportivos, refrigerantes, cervejas e bancos, os craques brasileiros embolsam, com a dinheirama paga por anunciantes, uma quantia avaliada em 10 milhões de reais ao ano, fora salários e luvas. Já seria impressionante, mas o simples fato de um rosto negro brasileiro adornar peças publicitárias que querem vender artigos caros para gente de todas as cores mostra o quanto o Brasil mudou. Em 1929, para provar as teorias racistas em voga nos meios europeus, que a fina flor brasileira engolia docilmente, o Congresso Eugenista nacional apresentou negros a uma platéia de brancos, muitos mulatos fingindo-se de arianos. O objetivo: demonstrar como eles eram feios e intelectualmente incapazes. Feios eles eram mesmo. Intelectualmente incapazes, provavelmente também. Não foi difícil a um militante anti-racista, Edgard Roquette-Pinto, mostrar a perversão do show. "Eles não são negros, apenas. São negros e doentes." Um dos negros expostos era sifilítico. O outro era tuberculoso. Todos eram subnutridos. Uma pesquisa da agência Grottera com negros de classe média mostra como esses tempos vão longe para uma parte significativa da população negra. Em primeiro lugar, esses negros investem fortemente em educação, o que, segundo os autores da pesquisa, "indica uma contínua projeção de qualificação desse público para um futuro próximo". Os dados são eloqüentes quando se compara o grau de instrução dos jovens entrevistados com o do chefe da família. Enquanto só 27% dos pais concluíram o colegial, ou começaram uma faculdade, quase 40% dos jovens já chegaram a esse nível de escolaridade. Treze por cento dos pais nem concluíram o primário, enquanto essa baixa escolarização só é repetida por 4% dos jovens. A explicação é fácil. A metade dos entrevistados prefere aplicar a sobra de salário mensal em livros e cursos. A grande mudança começou pela educação, com a universalização do acesso ao ensino básico, no final da década de 60. É uma militante negra do PT, Dulce Maria Pereira, suplente do senador Eduardo Suplicy, quem explica: "Foi o governo dos militares que criou a possibilidade de uma classe média negra no país, quando abriu as portas das escolas públicas para todos, e não só para a elite branca, como era no passado". O vocalista José de Paula Neto, 27 anos, o Netinho, do conjunto de pagode Negritude Júnior, é a tradução disso. Filho de empregada doméstica e de um operário gráfico, ambos semi-alfabetizados, começou a vender doces em estações de trem ainda criança, tornou-se office-boy, passou a escriturário. Chegou a gerente de banco. Nesse ponto, trocou o cargo burocrático pelo palco. A escalada foi proporcional aos anos de estudo o cantor completou o 2o grau numa escola pública. É até hoje um líder no conjunto habitacional da Cohab de Carapicuíba, município-dormitório vizinho a São Paulo e esconderijo de um dos piores indicadores sociais do país. Hoje, o vocalista embolsa 50.000 reais todo mês com os shows de pagode e a venda de CDs. Já acumula seis discos de ouro e quatro de platina. Netinho fala de consciência negra, mas seu discurso é muito diferente do que se ouve dos cantores americanos de rap. "Sou um exemplo para os meninos negros. Para eles, eu sou a prova de que é possível vencer com trabalho, longe das drogas e do crime", costuma dizer Netinho. Na música Gente da Gente, que o Negritude canta, não se enaltece a malandragem. O elogio é para a gente que trabalha: Esse samba é
pra gente da gente É um exemplo e tanto, quando se considera que grande parte das bandas de rock preferidas pela garotada branca adora fazer propaganda pela liberação da maconha, como o Planet Hemp, Barão Vermelho ou O Rappa. Também entra nessa apologia o rapper playboy Gabriel, o Pensador, que numa letra matusquela ordena: Acende, puxa,
prende e passa. Para quem não entendeu a "poesia", o verso é uma alusão ao ritual de fumar maconha. "Os negros brasileiros se cansaram de ser enfiados todos nos sacos da marginalidade ou do folclórico", lembra a psicóloga negra de São Paulo Edna Roland. A pesquisa da agência Grottera confirma isso. Afinal, o que querem os negros? Querem o que todo mundo quer 54% querem mais dinheiro; 44%, abrir seu próprio negócio; 43%, trocar ou comprar carro; 39%, viajar; 29%, comprar uma casa. A diferença é que, agora, os negros estão conseguindo reunir as condições para isso, orgulham-se de tais conquistas e de si mesmos. Descobrem laços entre pessoas que antes a própria língua separava. "Terra do preto doutor" Só a Bahia, Estado cantado em prosa e verso como o viveiro da "democracia racial" brasileira, registra em seu vernáculo pelo menos dez distinções entre descendentes de escravos. Negão costumava ser pejorativo, aplicado a pessoas por quem não se tinha consideração. Escurinho aplicava-se a pessoas humildes, mas "decentes", "que conheciam o seu lugar". Moreno era o descendente de africano com pele escura e cabelos lisos. Sarará era o descendente de africano de pele clara, cabelo duro e amarelado, com olhos claros. Sarará miolo designava o mesmo que sarará, mas quase albino. Gazo servia para louros, mas classificava os albinos. Negro formiga era o descendente de africano de pele marrom. Retinto, o de pele azulada. Cabo-verde, o indivíduo de pele escura, cabelos lisos, escuros e olhos claros. Mulato, a designação genérica, mas geralmente aplicada a mestiços evidentes, nariz chato e lábios carnudos.
Nos Estados Unidos, onde a presença de sangue negro até a quarta geração já servia para demarcar o campo racial, tais diferenças nunca fizeram sentido. Era-se negro, mesmo que a pele fosse branca, o cabelo liso e os olhos claros. Sofria-se a discriminação e ponto. A Bahia, "terra do preto doutor", como cantou Dorival Caymmi, nunca sofreu esses rigores, embora sempre tenha identificado no indivíduo branco a fonte de poder, e na cor negra da pele, o indicador do traço servil. Por esses dois aspectos operou-se a meticulosa classificação dos descendentes de negros. Mas hoje, quando as crianças negras já vão para a escola, quando Michael Jordan, o megaastro do basquete americano, com faturamento de 78,3 milhões de dólares em 1997, visita regularmente as casas brasileiras nas publicidades da indústria de artigos esportivos Nike, e o Pelourinho balança ao ritmo dos tambores do Olodum, morenos, sararás, gazos e escurinhos fazem questão de ser apenas uma coisa. "Estamos descobrindo que somos mesmo é negros", diz o jornalista e militante negro Fernando Conceição. É uma novidade. Desde o século XVIII, com os relatos dos naturalistas europeus, o Brasil é caracterizado como um país de intensa miscigenação. A partir da abolição da escravatura, com a entrada de imigrantes europeus, essa miscigenação foi compreendida como uma via para o embranquecimento do sangue negro. "O Brasil passou a ser visto como um país em transição, que um dia poderia vir a ser branco", escreve a antropóloga Luciana Mendonça, da Universidade de São Paulo. Durante um bom tempo, foi mesmo assim. Os vários censos demográficos desde a década de 40 acusam uma diminuição acentuada da participação da população negra, enquanto cresciam o contingente branco e o pardo. Hoje, o que parece estar acontecendo é o contrário. A foto da capa de VEJA, por exemplo, mostra pelo menos três personagens que poderiam tranqüilamente passar por "morenos", ou mesmo "brancos" a atriz Camila Pitanga, o cantor Chrigor Lisboa, do grupo de pagode Exaltasamba, e Dinei, jogador do Guarani de Campinas. Os três, no entanto, insistem em identificar-se como negros. Filho de pai branco e mãe negra, Chrigor, de 24 anos, perdeu a conta das vezes em que era pejorativamente chamado de "negrinho", nos tempos em que era pobre. Como metalúrgico na região industrial do ABC paulista, ganhava 150 reais por mês. Há quatro anos tudo mudou. Depois do sucesso 2 milhões de discos vendidos, uma casa, um apartamento, dois carros e, por baixo, 30.000 reais por mês , o negrinho Chrigor virou rapaz de pele branca. "Agora que estou numa boa, as pessoas vêm com essa de me confundir com branco", reclama o pagodeiro. "Eu sou negrão." Com o mesmo empenho em demarcar suas origens, a atriz global Camila Pitanga, de 21 anos, conta que é alvo de muita confusão nessa área. "Já me acostumei a ser parada nas ruas por pessoas perguntando por que insisto em dizer que sou negra sendo 'tão bonitinha'.", diz Camila. "É tão violento quanto o mais puro preconceito." Os Estados Unidos forneceram muito dessa inspiração. A atriz Zezé Motta bem sabe. Em 1969, aos 25 anos, com o Teatro de Arena, estreou uma temporada no Harlem, reduto dos negros pobres de Nova York. O movimento black power ainda não havia eclodido com toda a sua força, mas os negros americanos já procuravam substituir o sentimento de humilhação por um tipo de orgulho barulhento da raça. Zezé apareceu usando uma peruca no estilo chanel cabelos lisos, escorridos. "Os americanos perguntaram a Boal (Augusto Boal, diretor do grupo) por que eu usava um cabelo que não era de negro se eu era negra", lembra a atriz. Zezé arrancou a peruca. Mas seus cabelos de verdade continuavam a não ser os de uma negra. Estavam alisados. "Voltei para o hotel, lavei o cabelo e assumi meu lado negro", conta. "Foi um batismo." A experiência americana foi além. A revista Ebony, dirigida aos afro-americanos desde a sua fundação, ainda nos anos 40, deixou de lado os slogans anti-racistas para servir como um painel dos negros bem-sucedidos. A mensagem é a mesma passada por Netinho: "Trabalho e sucesso". Os grupos militantes olham tudo isso com desconfiança, por achar que a revista conforma os negros aos ideais de realização dos brancos. Mas a Ebony tem um bom argumento. Ao retratar a beleza e o sucesso dos negros numa sociedade que ainda cultiva tantos preconceitos, contribui para elevar o amor-próprio e a integridade de seu público. A revista Raça Brasil também retrata o sucesso dos negros. Vende 100.000 exemplares ao mês, mas o mais interessante não é o mimetismo em relação ao modelo americano. A grande notícia é que haja tantos casos brasileiros a retratar numa publicação mensal, editada num país em que, anos atrás, negro era invariavelmente sinônimo de pobre e, em geral, analfabeto. O último número da revista contém uma reportagem com o sugestivo título "Tenho um carro importado, sim. E daí?" Seguem-se os depoimentos de treze negros. As agências de publicidade já perceberam. Os ídolos afro-brasileiros influenciam os brancos na moda, na música, no esporte. Influenciam mais ainda os próprios negros. Para quantificar o grau de fidelidade dos negros de classe média a sua própria raça, a pesquisa da Grottera perguntou a todos os entrevistados quais seus três principais ídolos. Valia qualquer um. Roberto Carlos, Lula, Xuxa, Ayrton Senna, Gandhi. Foi surpreendente. A metade de todos os indivíduos que responderam citou exclusivamente ídolos negros, sendo os mais mencionados Pelé, com 13% das respostas, o presidente sul-africano Nelson Mandela, com 12%, e Benedita da Silva, com 9%. Sete em cada dez sentem-se induzidos a comprar um produto que tenha protagonistas negros em sua publicidade. Essa, talvez, seja a explicação para o fato de a Nike com Jordan e Ronaldinho como garotos-propaganda ser a primeira marca de tênis a ser lembrada pelos consumidores desse novo mercado, enquanto a Rainha é a recordista de lembrança dos consumidores brasileiros em geral. "Estávamos perdendo dinheiro, ao ignorar o potencial de consumo dessa nova classe média. Para vender qualquer tipo de artigo esportivo, por exemplo, a presença do negro é imprescindível", afirma Washington Olivetto, da agência W/Brasil, dona da conta da Grendene, que tem o jogador da seleção brasileira Roberto Carlos como protagonista nos comerciais de TV dos chinelos Rider. "A alegria característica da raça negra favorece muito a publicidade", diz Olivetto. "Cativa consumidores de todas as cores." Branco pintado de negro As novelas foram na mesma direção, com o aparecimento de personagens negros de classe média. Um levantamento inédito realizado pelo Centro Brasileiro de Informação e Documentação do Artista Negro, Cidan, aponta que as novelas brasileiras ainda não levam em consideração o porcentual da raça negra na sociedade, que pelo IBGE era de 44% em 1996, entre pretos e pardos. Nas novelas da Rede Globo, esse índice nunca ultrapassou a casa dos 25,8%, número alcançado com a novela Fera Ferida, iniciada em 1993, que teve a participação de oito atores negros, num elenco de 31 artistas. De 1993 até este ano, oito entre 28 novelas globais não incluíram um único artista da raça negra. A participação é oscilante na maior emissora do país: em 1993, foram dezessete atores; dez em 1994; catorze em 1995; nove em 1996; e dezesseis no ano passado. Neste ano, entre as três novelas da Globo que estão no ar, apenas Corpo Dourado conta com negros, incluindo a atriz Zezé Motta, no papel da empresária Liana, dona de uma pousada em Búzios. Em outras emissoras, aponta o levantamento do Cidan, o quadro não é muito diferente. A novela Xica da Silva, da Manchete, que teve início em 1996, contava com nove negros, entre os 54 atores do elenco. Mandacaru, também da Manchete, novela ambientada no Nordeste brasileiro, não tem nenhum artista da raça. A novela Chiquititas, do SBT, emprega quatro negros, entre os 32 atores. É pouco. Mas é um salto gigantesco em relação ao que acontecia há apenas trinta anos, quando o personagem principal da novela A Cabana do Pai Tomás, sobre a luta de um escravo americano pela liberdade, era vivido por um ator branco. Pintado de negro, o galã Sérgio Cardoso contracenava com a doce Ruth de Souza, esta sim uma legítima representante da raça. O Pai Tomás de Sérgio Cardoso era uma caricatura tão grotesca dos negros quanto o cantor americano Al Jolson, também pintado de preto, fingindo-se de cantor de jazz na estréia do cinema falado, em 1927. O espaço vai sendo ocupado aos poucos. Se antes os negros tinham participação em papéis servis, hoje em dia, além de figurar como personagens de classe média, possuem instrução e têm elevado padrão moral e de conduta. Dificilmente o traficante ou ladrão é representado por um negro. Durante as três semanas em que VEJA entrevistou craques do futebol e feras do basquete, empresários, atores, atrizes, cantores e um desembargador, o juiz Gilberto Fernandes, o primeiro negro do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, os entrevistados falaram de ressentimentos que guardaram como vítimas do preconceito racial. Mas o tom predominante em nenhum dos casos foi de lamúria. Suas declarações em geral giram em torno de temas como dignidade, luta e orgulho pelas vitórias alcançadas. É uma grande notícia, num país que parece gostar de purgar remorsos retóricos pelo passado escravocrata sem nada fazer para mudar o presente. Os negros estão operando, eles mesmos, a grande mudança. O Brasil fica melhor.
Com reportagem
de Manoel Fernandes, do Rio de Janeiro,
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