DA COR DO SUCESSO

Ídolos negros contam como estão ajudando
a romper a barreira do preconceito

Rodrigo Cardoso e Laura Capriglione

 


 


Por mais que os militantes dos movimentos negros torçam o nariz de desdém, um auspicioso vento de mudança sopra no mundo das barreiras raciais no Brasil. Vamos começar com um paradoxo. O bumbum mais festejado do país, o nosso bumbum tipo exportação, não pertence mais a uma mulata. A dona desse predicado é uma loura, Carla Perez, a moça do É o Tchan! Atrizes deslumbrantes como Camila Pitanga, Isabel Fillardis e Taís Araújo freqüentam as novelas dos horários nobres como moças de classe média — e não mais como serventes e copeiras, outro traço da televisão no passado. As estrelas negras da música são hoje os artistas mais bajulados pelas gravadoras. Afinal, eles são imbatíveis nas paradas de sucesso e no barulho da caixa registradora. O pagodeiro Alexandre Pires, do Só pra Contrariar, vende três vezes mais discos que o romântico das multidões, Roberto Carlos, e quinze vezes mais que o baiano Caetano Veloso. Muito bem: um artista negro se enche de dinheiro enquanto a multidão dos seus irmãos de cor continua sendo massacrada pela pobreza. Qual é a novidade?

Para ser exato, há duas e não uma novidade. A primeira é que a maioria dos negros está em ascensão em matéria de renda e de escolaridade. Há hoje uma classe média negra integrada por 7,5 milhões de pessoas com renda média familiar de 2.600 reais por mês e uma arrecadação conjunta de 46 bilhões de reais anuais. O nível de escolaridade dos jovens negros brasileiros de maneira geral é muitíssimo mais elevado que o de seus pais e avós e as ambições de consumo dessa população são iguais às manifestadas pelos brancos. A segunda novidade refere-se às exceções, os indivíduos que fazem sucesso e enriquecem, como o cantor Alexandre Pires ou o jogador da seleção Roberto Carlos. Vitaminados pela potência extraordinária adquirida pela cultura de massa, eles podem se beneficiar do sucesso numa dimensão desconhecida por seus antecessores.

Vem de longe a decantada facilidade dos negros em áreas como o futebol ou a música, particularmente o samba. Pelé, Garrincha, Didi, Barbosa, Fio Maravilha e Leônidas da Silva são alguns do primeiro time, o da bola. Pixinguinha, Ataulfo Alves e Cartola eram do segundo, o da música. Foram todos ídolos, mas a velha-guarda, com exceção de Pelé, levou uma vida humilde, não raro humilhante. Agora, não. Os negros que estão nas paradas de sucesso e nos gritos de gol são profissionais que lidam com perfeição com a indústria do entretenimento. Cercam-se de empresários e negociam contratos estelares. Entre direitos autorais e shows, Alexandre Pires embolsa todo mês 85.000 reais. Tem mais de 100 ternos no armário (Versace e Armani) e dois carros importados na garagem (um Porsche e uma Cherokee). Para comparar, Pixinguinha, mesmo depois de ter composto o hit Carinhoso, e Cartola, depois de As Rosas Não Falam, continuaram morando nas mesmas casas pobres de antes do sucesso. Cartola só foi gravar seu primeiro LP aos 66 anos de idade. Pixinguinha passou os últimos anos de sua vida bebendo água mineral e batendo papo com os amigos da velha-guarda. O crepúsculo dos velhos jogadores de futebol foi tão cruel quanto o dos sambistas. O ex-goleiro Barbosa, crucificado pela derrota da seleção na Copa de 50, sobrevive graças a uma aposentadoria mensal de 86 reais. O mágico Mané Garrincha morreu, entre outros sintomas, com gastrite alcoólica hemorrágica. Por fim, o atacante Fio Maravilha, que encantava a galera rubro-negra do Flamengo — homenageado na letra de Jorge Ben Jor —, teve de mostrar gingado para entregar pizzas e pintar paredes nos Estados Unidos, depois de encerrada a carreira.

Os 7,5 milhões de negros e mestiços que já chegaram à classe média, sustentados por um padrão de escolaridade três vezes superior ao dos pais, ainda são minoria se confrontados com o total de 68 milhões de indivíduos com ascendentes africanos existentes no país. Mas nunca foram tantos e jamais estiveram tão à vontade para ostentar sua raça sem o encolhimento que caracterizou as gerações anteriores. Tome-se a Seleção Brasileira de Futebol, esta, que os locutores esportivos não cansam de proclamar a mais cara da Copa (leia-se: a que tem atletas mais bem remunerados). É a mais negra desde a de 1966, com sete titulares negros ou mestiços. Onipresentes em propagandas de tênis, artigos esportivos, refrigerantes, cervejas e bancos, os craques brasileiros embolsam, com a dinheirama paga por anunciantes, uma quantia avaliada em 10 milhões de reais ao ano, fora salários e luvas. Já seria impressionante, mas o simples fato de um rosto negro brasileiro adornar peças publicitárias que querem vender artigos caros para gente de todas as cores mostra o quanto o Brasil mudou. Em 1929, para provar as teorias racistas em voga nos meios europeus, que a fina flor brasileira engolia docilmente, o Congresso Eugenista nacional apresentou negros a uma platéia de brancos, muitos mulatos fingindo-se de arianos. O objetivo: demonstrar como eles eram feios e intelectualmente incapazes. Feios eles eram mesmo. Intelectualmente incapazes, provavelmente também. Não foi difícil a um militante anti-racista, Edgard Roquette-Pinto, mostrar a perversão do show. "Eles não são negros, apenas. São negros e doentes." Um dos negros expostos era sifilítico. O outro era tuberculoso. Todos eram subnutridos.

Uma pesquisa da agência Grottera com negros de classe média mostra como esses tempos vão longe para uma parte significativa da população negra. Em primeiro lugar, esses negros investem fortemente em educação, o que, segundo os autores da pesquisa, "indica uma contínua projeção de qualificação desse público para um futuro próximo". Os dados são eloqüentes quando se compara o grau de instrução dos jovens entrevistados com o do chefe da família. Enquanto só 27% dos pais concluíram o colegial, ou começaram uma faculdade, quase 40% dos jovens já chegaram a esse nível de escolaridade. Treze por cento dos pais nem concluíram o primário, enquanto essa baixa escolarização só é repetida por 4% dos jovens. A explicação é fácil. A metade dos entrevistados prefere aplicar a sobra de salário mensal em livros e cursos.

A grande mudança começou pela educação, com a universalização do acesso ao ensino básico, no final da década de 60. É uma militante negra do PT, Dulce Maria Pereira, suplente do senador Eduardo Suplicy, quem explica: "Foi o governo dos militares que criou a possibilidade de uma classe média negra no país, quando abriu as portas das escolas públicas para todos, e não só para a elite branca, como era no passado". O vocalista José de Paula Neto, 27 anos, o Netinho, do conjunto de pagode Negritude Júnior, é a tradução disso. Filho de empregada doméstica e de um operário gráfico, ambos semi-alfabetizados, começou a vender doces em estações de trem ainda criança, tornou-se office-boy, passou a escriturário. Chegou a gerente de banco. Nesse ponto, trocou o cargo burocrático pelo palco. A escalada foi proporcional aos anos de estudo — o cantor completou o 2o grau numa escola pública. É até hoje um líder no conjunto habitacional da Cohab de Carapicuíba, município-dormitório vizinho a São Paulo e esconderijo de um dos piores indicadores sociais do país. Hoje, o vocalista embolsa 50.000 reais todo mês com os shows de pagode e a venda de CDs. Já acumula seis discos de ouro e quatro de platina. Netinho fala de consciência negra, mas seu discurso é muito diferente do que se ouve dos cantores americanos de rap. "Sou um exemplo para os meninos negros. Para eles, eu sou a prova de que é possível vencer com trabalho, longe das drogas e do crime", costuma dizer Netinho. Na música Gente da Gente, que o Negritude canta, não se enaltece a malandragem. O elogio é para a gente que trabalha:

Esse samba é pra gente da gente
Que vive a pegar no batente
Com sol, com chuva ou doente
Esse povo merece uma
medalha
Gente que tem de trabalhar
Porque nunca foge da
batalha
Essa gente da gente não dá
falha
Porque não tem fama de canalha.

É um exemplo e tanto, quando se considera que grande parte das bandas de rock preferidas pela garotada branca adora fazer propaganda pela liberação da maconha, como o Planet Hemp, Barão Vermelho ou O Rappa. Também entra nessa apologia o rapper playboy Gabriel, o Pensador, que numa letra matusquela ordena:

Acende, puxa, prende e passa.
Índio quer cachimbo,
índio quer fazer fumaça.

Para quem não entendeu a "poesia", o verso é uma alusão ao ritual de fumar maconha.

"Os negros brasileiros se cansaram de ser enfiados todos nos sacos da marginalidade ou do folclórico", lembra a psicóloga negra de São Paulo Edna Roland. A pesquisa da agência Grottera confirma isso. Afinal, o que querem os negros? Querem o que todo mundo quer — 54% querem mais dinheiro; 44%, abrir seu próprio negócio; 43%, trocar ou comprar carro; 39%, viajar; 29%, comprar uma casa. A diferença é que, agora, os negros estão conseguindo reunir as condições para isso, orgulham-se de tais conquistas e de si mesmos. Descobrem laços entre pessoas que antes a própria língua separava.

"Terra do preto doutor" — Só a Bahia, Estado cantado em prosa e verso como o viveiro da "democracia racial" brasileira, registra em seu vernáculo pelo menos dez distinções entre descendentes de escravos. Negão costumava ser pejorativo, aplicado a pessoas por quem não se tinha consideração. Escurinho aplicava-se a pessoas humildes, mas "decentes", "que conheciam o seu lugar". Moreno era o descendente de africano com pele escura e cabelos lisos. Sarará era o descendente de africano de pele clara, cabelo duro e amarelado, com olhos claros. Sarará miolo designava o mesmo que sarará, mas quase albino. Gazo servia para louros, mas classificava os albinos. Negro formiga era o descendente de africano de pele marrom. Retinto, o de pele azulada. Cabo-verde, o indivíduo de pele escura, cabelos lisos, escuros e olhos claros. Mulato, a designação genérica, mas geralmente aplicada a mestiços evidentes, nariz chato e lábios carnudos.

Nos Estados Unidos, onde a presença de sangue negro até a quarta geração já servia para demarcar o campo racial, tais diferenças nunca fizeram sentido. Era-se negro, mesmo que a pele fosse branca, o cabelo liso e os olhos claros. Sofria-se a discriminação e ponto. A Bahia, "terra do preto doutor", como cantou Dorival Caymmi, nunca sofreu esses rigores, embora sempre tenha identificado no indivíduo branco a fonte de poder, e na cor negra da pele, o indicador do traço servil. Por esses dois aspectos operou-se a meticulosa classificação dos descendentes de negros. Mas hoje, quando as crianças negras já vão para a escola, quando Michael Jordan, o megaastro do basquete americano, com faturamento de 78,3 milhões de dólares em 1997, visita regularmente as casas brasileiras nas publicidades da indústria de artigos esportivos Nike, e o Pelourinho balança ao ritmo dos tambores do Olodum, morenos, sararás, gazos e escurinhos fazem questão de ser apenas uma coisa. "Estamos descobrindo que somos mesmo é negros", diz o jornalista e militante negro Fernando Conceição.

É uma novidade. Desde o século XVIII, com os relatos dos naturalistas europeus, o Brasil é caracterizado como um país de intensa miscigenação. A partir da abolição da escravatura, com a entrada de imigrantes europeus, essa miscigenação foi compreendida como uma via para o embranquecimento do sangue negro. "O Brasil passou a ser visto como um país em transição, que um dia poderia vir a ser branco", escreve a antropóloga Luciana Mendonça, da Universidade de São Paulo. Durante um bom tempo, foi mesmo assim. Os vários censos demográficos desde a década de 40 acusam uma diminuição acentuada da participação da população negra, enquanto cresciam o contingente branco e o pardo. Hoje, o que parece estar acontecendo é o contrário. A foto da capa de VEJA, por exemplo, mostra pelo menos três personagens que poderiam tranqüilamente passar por "morenos", ou mesmo "brancos" — a atriz Camila Pitanga, o cantor Chrigor Lisboa, do grupo de pagode Exaltasamba, e Dinei, jogador do Guarani de Campinas. Os três, no entanto, insistem em identificar-se como negros.

Filho de pai branco e mãe negra, Chrigor, de 24 anos, perdeu a conta das vezes em que era pejorativamente chamado de "negrinho", nos tempos em que era pobre. Como metalúrgico na região industrial do ABC paulista, ganhava 150 reais por mês. Há quatro anos tudo mudou. Depois do sucesso — 2 milhões de discos vendidos, uma casa, um apartamento, dois carros e, por baixo, 30.000 reais por mês —, o negrinho Chrigor virou rapaz de pele branca. "Agora que estou numa boa, as pessoas vêm com essa de me confundir com branco", reclama o pagodeiro. "Eu sou negrão." Com o mesmo empenho em demarcar suas origens, a atriz global Camila Pitanga, de 21 anos, conta que é alvo de muita confusão nessa área. "Já me acostumei a ser parada nas ruas por pessoas perguntando por que insisto em dizer que sou negra sendo 'tão bonitinha'.", diz Camila. "É tão violento quanto o mais puro preconceito."

Os Estados Unidos forneceram muito dessa inspiração. A atriz Zezé Motta bem sabe. Em 1969, aos 25 anos, com o Teatro de Arena, estreou uma temporada no Harlem, reduto dos negros pobres de Nova York. O movimento black power ainda não havia eclodido com toda a sua força, mas os negros americanos já procuravam substituir o sentimento de humilhação por um tipo de orgulho barulhento da raça. Zezé apareceu usando uma peruca no estilo chanel — cabelos lisos, escorridos. "Os americanos perguntaram a Boal (Augusto Boal, diretor do grupo) por que eu usava um cabelo que não era de negro se eu era negra", lembra a atriz. Zezé arrancou a peruca. Mas seus cabelos de verdade continuavam a não ser os de uma negra. Estavam alisados. "Voltei para o hotel, lavei o cabelo e assumi meu lado negro", conta. "Foi um batismo." A experiência americana foi além. A revista Ebony, dirigida aos afro-americanos desde a sua fundação, ainda nos anos 40, deixou de lado os slogans anti-racistas para servir como um painel dos negros bem-sucedidos. A mensagem é a mesma passada por Netinho: "Trabalho e sucesso". Os grupos militantes olham tudo isso com desconfiança, por achar que a revista conforma os negros aos ideais de realização dos brancos. Mas a Ebony tem um bom argumento. Ao retratar a beleza e o sucesso dos negros numa sociedade que ainda cultiva tantos preconceitos, contribui para elevar o amor-próprio e a integridade de seu público. A revista Raça Brasil também retrata o sucesso dos negros. Vende 100.000 exemplares ao mês, mas o mais interessante não é o mimetismo em relação ao modelo americano. A grande notícia é que haja tantos casos brasileiros a retratar numa publicação mensal, editada num país em que, anos atrás, negro era invariavelmente sinônimo de pobre e, em geral, analfabeto. O último número da revista contém uma reportagem com o sugestivo título "Tenho um carro importado, sim. E daí?" Seguem-se os depoimentos de treze negros.

As agências de publicidade já perceberam. Os ídolos afro-brasileiros influenciam os brancos na moda, na música, no esporte. Influenciam mais ainda os próprios negros. Para quantificar o grau de fidelidade dos negros de classe média a sua própria raça, a pesquisa da Grottera perguntou a todos os entrevistados quais seus três principais ídolos. Valia qualquer um. Roberto Carlos, Lula, Xuxa, Ayrton Senna, Gandhi. Foi surpreendente. A metade de todos os indivíduos que responderam citou exclusivamente ídolos negros, sendo os mais mencionados Pelé, com 13% das respostas, o presidente sul-africano Nelson Mandela, com 12%, e Benedita da Silva, com 9%. Sete em cada dez sentem-se induzidos a comprar um produto que tenha protagonistas negros em sua publicidade. Essa, talvez, seja a explicação para o fato de a Nike — com Jordan e Ronaldinho como garotos-propaganda — ser a primeira marca de tênis a ser lembrada pelos consumidores desse novo mercado, enquanto a Rainha é a recordista de lembrança dos consumidores brasileiros em geral. "Estávamos perdendo dinheiro, ao ignorar o potencial de consumo dessa nova classe média. Para vender qualquer tipo de artigo esportivo, por exemplo, a presença do negro é imprescindível", afirma Washington Olivetto, da agência W/Brasil, dona da conta da Grendene, que tem o jogador da seleção brasileira Roberto Carlos como protagonista nos comerciais de TV dos chinelos Rider. "A alegria característica da raça negra favorece muito a publicidade", diz Olivetto. "Cativa consumidores de todas as cores."

Branco pintado de negro — As novelas foram na mesma direção, com o aparecimento de personagens negros de classe média. Um levantamento inédito realizado pelo Centro Brasileiro de Informação e Documentação do Artista Negro, Cidan, aponta que as novelas brasileiras ainda não levam em consideração o porcentual da raça negra na sociedade, que pelo IBGE era de 44% em 1996, entre pretos e pardos. Nas novelas da Rede Globo, esse índice nunca ultrapassou a casa dos 25,8%, número alcançado com a novela Fera Ferida, iniciada em 1993, que teve a participação de oito atores negros, num elenco de 31 artistas. De 1993 até este ano, oito entre 28 novelas globais não incluíram um único artista da raça negra. A participação é oscilante na maior emissora do país: em 1993, foram dezessete atores; dez em 1994; catorze em 1995; nove em 1996; e dezesseis no ano passado. Neste ano, entre as três novelas da Globo que estão no ar, apenas Corpo Dourado conta com negros, incluindo a atriz Zezé Motta, no papel da empresária Liana, dona de uma pousada em Búzios. Em outras emissoras, aponta o levantamento do Cidan, o quadro não é muito diferente. A novela Xica da Silva, da Manchete, que teve início em 1996, contava com nove negros, entre os 54 atores do elenco. Mandacaru, também da Manchete, novela ambientada no Nordeste brasileiro, não tem nenhum artista da raça. A novela Chiquititas, do SBT, emprega quatro negros, entre os 32 atores.

É pouco. Mas é um salto gigantesco em relação ao que acontecia há apenas trinta anos, quando o personagem principal da novela A Cabana do Pai Tomás, sobre a luta de um escravo americano pela liberdade, era vivido por um ator branco. Pintado de negro, o galã Sérgio Cardoso contracenava com a doce Ruth de Souza, esta sim uma legítima representante da raça. O Pai Tomás de Sérgio Cardoso era uma caricatura tão grotesca dos negros quanto o cantor americano Al Jolson, também pintado de preto, fingindo-se de cantor de jazz na estréia do cinema falado, em 1927. O espaço vai sendo ocupado aos poucos. Se antes os negros tinham participação em papéis servis, hoje em dia, além de figurar como personagens de classe média, possuem instrução e têm elevado padrão moral e de conduta. Dificilmente o traficante ou ladrão é representado por um negro.

Durante as três semanas em que VEJA entrevistou craques do futebol e feras do basquete, empresários, atores, atrizes, cantores e um desembargador, o juiz Gilberto Fernandes, o primeiro negro do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, os entrevistados falaram de ressentimentos que guardaram como vítimas do preconceito racial. Mas o tom predominante em nenhum dos casos foi de lamúria. Suas declarações em geral giram em torno de temas como dignidade, luta e orgulho pelas vitórias alcançadas. É uma grande notícia, num país que parece gostar de purgar remorsos retóricos pelo passado escravocrata sem nada fazer para mudar o presente. Os negros estão operando, eles mesmos, a grande mudança. O Brasil fica melhor.

Perguntam por
que insisto em
dizer que sou
negra, sendo
"tão bonitinha"
Foto: Oscar Cabral  

Pode ser estranho, mas às vezes fico constrangida por não ter histórias marcantes de racismo na minha vida. Por mais que eu insista em reafirmar as minhas raízes negras, as pessoas sempre acham o contrário. É algo bastante incômodo e tão terrível quanto o mais puro preconceito. A partir do momento em que me tornei conhecida do grande público, essa situação ficou ainda mais evidente. Já me acostumei a ser parada nas ruas por pessoas que estranham o fato de a minha pele ser clara, meus traços finos e meu cabelo liso. Perguntam por que insisto em dizer que sou negra, sendo "tão bonitinha". É um absurdo. É tão violento como se eu fosse barrada num restaurante ou num hotel por causa da minha cor. Sou muito parecida com minha mãe, a ex-modelo Vera Lúcia Manhães, que é da minha cor. O meu pai, Antônio Pitanga, é que é negro. Já fiquei muito triste com esse tipo de atitude, mas hoje encaro com mais naturalidade. Não liguei, por exemplo, para os comentários que escutei depois de ter sido capa da revista Raça Brasil. Alguns fãs escreveram e me disseram que não entendiam o fato de eu ter sido entrevistada por uma publicação dirigida para os negros. Repito: eu sou negra.

Camila Pitanga, 21 anos, atriz


Mais de 100
ternos Dolce &
Gabbana, Versace
e Armani enchem
o meu armário
  Foto: Egberto Nogueira

A música veio de família. Mamãe era cantora e papai, baterista. Eles levavam uma vida muito incerta. Então, opuseram-se à minha carreira. Mas o Só pra Contrariar contrariou todas as expectativas. Um ano depois de formado, já vendíamos meio milhão de cópias do nosso CD. Foi aí que comecei a sentir o racismo. Vários amigos achavam anormal ver um negro num carrão importado e com uma casa luxuosa. Uma vez, eu estava com meu carro em Uberlândia e um motorista branco encostou ao meu lado e lascou: "E aí, negão, pegou para lavar?" Numa outra vez, ao estacionar meu Porsche na porta de um restaurante caro de São Paulo, tive de ouvir do dono: "O senhor é jogador de futebol?" Não tem jeito: negro rico no Brasil ou é jogador ou é pagodeiro. Já trabalhei como funcionário de lavanderia. Hoje pago para lavar e passar os mais de 100 ternos Dolce & Gabbana, Versace e Armani que enchem o meu armário. As pessoas pensam que, só porque sou negrão, tenho de andar com calças de capoeira. Nunca concordei com isso. Contratei uma personal stylist e montei uma academia de ginástica na minha cobertura, em São Paulo. Mesmo assim, continuo me achando, no máximo, um neguinho ajeitado.

Alexandre Pires, 22 anos, vocalista do Só pra Contrariar


Se saio na rua
cinco vezes, em
pelo menos uma
sou insultado

Moro num prédio de classe média. Aos 9 anos, eu era o único negro. Três amigos meus viviam chamando meus pais e eu de "café" e "King Kong". Eu me sentia humilhado. O síndico dizia que lugar de negro era na senzala. Aos 11 anos, deixei de freqüentar o playground. Ficava em casa. Nunca mais brinquei no prédio. Mas não tem jeito. Se saio na rua cinco vezes, em pelo menos uma sou insultado. No ano passado, ao voltar do colégio a pé, o motorista de uma Kombi jogou o carro em cima de mim e gritou: "Vai para casa, macaco". Na escola, certa vez um colega disse que gostava tanto dos negros que se pudesse comprava todos eles. Mesmo sem querer, as pessoas são preconceituosas. Em 1996, fui a um restaurante japonês. Era o único negro. Todos me olhavam. Um dos meus amigos tentou me consolar: "Não liga. É só você ficar quietinho aí no canto". Na época em que me isolei dos garotos do prédio, todos os fins de semana meus pais arrumavam programas fora de casa para mim. Num deles, fomos à Hípica e decidi aprender a montar. Comecei a competir. Em seis anos, ganhei dezoito medalhas e dois troféus. O hipismo me ajudou a superar o problema do preconceito.

Augusto Modesto, 16 anos, estudante em São Paulo


Adoro os negros,
mas eles não olham
na minha cara. Têm
vergonha da própria cor.
  Fotos: Egberto Nogueira

Sou filha de uma dona de casa e de um operador de ferragens e, quando pequena, morava num sobrado de quatro quartos com meus pais e mais sete irmãos. Sempre sobrevivi graças ao basquete. Comecei a carreira aos 14 anos, por insistência de meu irmão Roni. No início, precisava diariamente da autorização de um diretor do clube para entrar no ginásio e treinar. Os seguranças sempre desconfiavam de mim. Achavam absurdo uma negra treinar entre as brancas. Com 21 anos, eu já morava sozinha, e foi graças a essa independência que pude ficar quase dois anos jogando nos Estados Unidos. Para mim, era uma alegria quando ligava a televisão e via que quase todos os repórteres eram negros. Hoje, já tendo acumulado os títulos de campeã paulista, brasileira, sul-americana, panamericana, mundial e a medalha de prata na última Olimpíada, em Atlanta, sustento meus pais e moro sozinha em um apartamento de quatro quartos. Apesar disso, não consigo atrair a atenção dos homens negros. Tive vários namorados brancos. Adoro os negros, mas eles não olham na minha cara. Não sei o que acontece. Acho que os negros ainda discriminam muito sua própria raça. Têm vergonha da própria cor.

Marta de Souza Sobral, 34 anos, jogadora
da Seleção Brasileira de Basquete


Eles eram tão
racistas que
me proibiam de
encostar nos
copos em que
bebiam àgua

A Fui escrava e não sabia. Tive uma infância muito pobre. Sou filha de mãe solteira. Eu, meu irmão e minha mãe morávamos numa casa que pertencia a uma família de fazendeiros, nos arredores de Salvador. Aos 7 anos, eu trabalhava na casa dessas pessoas sem ganhar nada em troca. Durante doze horas, limpava o chão, lavava os pratos, varria o quintal... Eles eram tão racistas que me proibiam de encostar nos copos em que bebiam água. Eu não podia esquentar minha comida nas panelas deles. Crescida, comecei a trabalhar como empregada doméstica. Nos finais das tardes de domingo ia para a rua vender meus quitutes. Em 1990, abri meu primeiro restaurante, no quintal do barraco da favela onde morava. Hoje já tenho três restaurantes. Conquistei o sucesso. Senti todo o peso do racismo em minhas filhas. A caçula, Daniela, de 7 anos, já sofreu muito. Na escola, certa vez ela ouviu de uma amiguinha que se recusava a brincar com ela que negro não era gente. Daniela ficou deprimida. Disse que queria ser branca. Chorando, afirmava: "Mãe, eu quero ter o cabelo bonito, liso, fácil de pentear". Ela achava que os negros eram assassinos. Foi difícil convencê-la do contrário.

Aldaci dos Santos, 37 anos, a Dadá,
dona do restaurante O Tempero
da Dadá,
em Salvador e São Paulo


Meus amigos
diziam: "Também,
teu pai é preto
e lixeiro"

Desde os 12 anos, coloquei na minha cabeça que eu poderia me dar bem no futebol. Era um sonho, eu sabia. Então, por segurança, estudava para ser torneiro mecânico. Enquanto eu vendia pastéis em feiras livres, meus dois irmãos capinavam o jardim dos vizinhos. Mamãe oferecia tapetes nas ruas e papai era gari da prefeitura. A vida era difícil. Refrigerante e frango, só aos domingos. Na escola, como eu não tinha dinheiro para comprar doces na hora da merenda, meus amigos diziam: "Também, teu pai é preto e lixeiro". Até hoje me lembro de um garoto branco, o Marcos. Ele era muito rico para os nossos padrões, mas era o único que não se incomodava com a minha cor. Era meu melhor amigo. Trocávamos as roupas e ele deixava eu usar as dele, muito mais caras e bonitas do que as minhas. Eu nunca ia às festas boas do meu bairro. Tinha medo da discriminação. Sei que os grã-finos me olhavam de maneira diferente, então procurava o povão em bailes funk. Tudo isso era triste para mim, mas a pior decepção foi quando me apaixonei pela filha de um marinheiro. Ele não admitia vê-la ao lado de um negro com cabelo black power. E esse racista arruinou tudo.

Marcelo Pereira Surcin, o Marcelinho
Carioca, 26 anos, jogador do Corinthians


Freqüento bons
restaurantes e
me acostumei aos
olhares de espanto
Fotos: Oscar Cabral  

Minha indicação para o mais alto cargo do Poder Judiciário carioca é uma homenagem aos meus ancestrais. Minha avó ganhou a liberdade graças à Lei do Ventre Livre. Não gosto muito de falar sobre racismo. Prefiro trabalhar e conquistar meus espaços. Não posso negar que já passei por situações desagradáveis, mesmo depois de me tornar juiz, há 24 anos. No início da carreira, dividia o gabinete com um colega branco. Os advogados entravam na sala e sempre se dirigiam direto para a mesa do colega, apesar de a minha ser a primeira. Só me cumprimentavam depois de informados do meu cargo. Não guardo mágoas. Prefiro ouvir um bom jazz, dançar com Maria José, minha mulher há 33 anos, e brincar com minha nova paixão, Lucas, meu neto. Graças a Deus, o meu padrão de vida é superior ao dos meus pais. Eles eram gráficos da Imprensa Nacional. Educaram e ensinaram boas lições aos filhos. Freqüento bons restaurantes e me acostumei aos olhares de espanto. Minha filha, que é casada com um empresário argentino, já foi confundida com a babá do próprio filho. Apenas uma vez chegou a minhas mãos um processo de racismo. Não quis julgá-lo. Não teria isenção suficiente.

Gilberto Fernandes, 65 anos, primeiro
desembargador negro
do Rio de Janeiro


Graças a Xica da
Silva
, ganhei forças
para lutar pelos
negros do Brasil

Posso dividir minha vida entre antes e depois do filme Xica da Silva. Em 1970, cancelei um casamento porque a família do meu noivo entrou em pânico quando soube que ele se casaria com uma negra. A mãe do rapaz tinha crises e chegou a se internar num hospital. Eles não eram ricos, sabiam que eu não estava ali para aplicar um golpe. Mas me aceitariam apenas em uma condição: a de concubina, jamais a de esposa. Pulei fora. Depois do filme do Cacá Diegues, em 1976, passei a dividir com a Sonia Braga o título de símbolo sexual da década. Minha vida sexual deu um salto. Namorei alguns rapazes lindos, mas eles misturavam as coisas. Tinham a expectativa: "Vou me deitar com a Xica". Para eles, estavam indo para a cama com a melhor mulher do mundo. Era muito pesado. Eu me preocupava em não decepcioná-los. Fazia de tudo para corresponder ao papel da negra sensual. Resultado: esquecia de ter prazer. Precisei de um analista para superar essa fase e deixar de me considerar um objeto sexual. Mas, graças ao sucesso de Xica da Silva, ganhei mais forças para lutar em defesa dos negros no Brasil. Junto com outros atores, passei a discutir o nosso papel na sociedade.

Maria José Mota, a Zezé Motta, 54 anos atriz


Com o tempo
as pessoas
descobrem que
você é igual a elas
Foto: Antonio Milena  

No ano passado, eu passeava num shopping de Curitiba com a minha mãe quando gostei de uma blusa. Entrei na loja. Vi o preço. Era caríssima. Mesmo assim quis experimentar. Mas ninguém me atendia. As vendedoras me olhavam de cima para baixo. Olhavam e faziam que não me viam. Fiquei nervosa e fui embora. Disse a minha mãe o que tinha acontecido. Decidi, então, voltar. Entrei e contei até dez. Todos continuavam a me ignorar. Aí explodi: "Será que tenho de abrir minha bolsa e mostrar o cartão de crédito?" Virei as costas e saí. A gerente então correu atrás de mim. Tentou me explicar que não podia adivinhar que eu tinha dinheiro para comprar a blusa. Não quis ouvi-la, não. Poxa, só porque sou negra não posso ter dinheiro? O preconceito existe, sim. Acho que a partir do momento em que o negro passar a ocupar espaços antes freqüentados principalmente por brancos a discriminação tende a diminuir. Com o tempo as pessoas descobrem que você é igual a elas e a relação fica normal. Nunca escolhi minhas amizades ou meus namorados pela cor. Procuro me aproximar de quem eu gosto e de quem tem idéias parecidas com as minhas. Meu namorado, por exemplo, é branco.

Cinthya Rachel, 18 anos, a Biba do Castelo Rá-Tim-Bum


Me condenam
porque não sou
de sentar em porta
de boteco, de bar,
rodeado de cerveja
  Fotos: Egberto Nogueira

Nossa raça ficou muito tempo no escuro, mas agora somos uma sensação. A revolução começou pela estética. O negro, hoje, se acha bonito, se veste melhor. Sou um modelo para os meninos que, como eu, foram criados na pobreza das periferias. Zelando pela minha imagem, me cuidando, sei que posso melhorar a auto-estima dessa garotada e servir de exemplo para eles. Não bebo, não fumo, não curto drogas. Percussionistas e cantores mais antigos me chamam de mauricinho. Me condenam porque não sou de sentar em porta de boteco para tocar, rodeado de cerveja. Podem criticar, mas eu não sou disso, não. Precisamos crescer com consciência, seguir uma ideologia, promover ações solidárias. Nossos pais eram aplaudidos quando deixavam a escola para trabalhar. Nossos avós pensavam: "Que bom, meu filho não é vagabundo". Resultado: ficaram burros. Não tinham cultura para se relacionar com o branco, que por sua vez não sabia como tratar o negro. A minha geração também começou a trabalhar cedo, mas não largou os estudos. Meus pais sempre disseram que eu devia ser melhor que eles. Que eu tinha de trabalhar e estudar ao mesmo tempo. Por isso, a luta contra o preconceito é mais eficiente.

José de Paula Neto, o Netinho, 27 anos,
vocalista do Negritude Junior

Com reportagem de Manoel Fernandes, do Rio de Janeiro,
Sandra Brasil, de Brasília, Cintia Campos, de Salvador,
Eduardo Nunomura e Glenda Mezarobba, de São Paulo




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