Drama anunciado

Vítima de câncer, o cantor Leandro é internado
depois de sofrer uma parada cardiorrespiratória

Celso Masson

Fotos: Claudio Rossi
O irmão Leonardo (abaixo) e os fãs que fazem
orações na porta do hospital: carinho dos
admiradores emociona a família do cantor

Foi um choque brutal. Poucos dias depois de ter acenado da sacada de seu apartamento, envolto em uma bandeira verde-amarela para festejar a vitória da seleção brasileira na estréia da Copa, o cantor Leandro tinha a vida por um fio. Internado na UTI do Hospital São Luiz, em São Paulo, em decorrência de uma parada cardiorrespiratória, ele era mantido sedado e respirava por aparelhos. Apresentava um quadro grave, de infecção generalizada. A dramática notícia, divulgada na noite de segunda-feira 15, aumentou o sofrimento dos amigos, familiares e incontáveis fãs que acompanham a luta do ídolo contra o câncer. Leandro acabava de sentir o primeiro golpe drástico desde que descobriu ser portador do raríssimo tumor de Askin. Poderia ter morrido ali mesmo, em seu apartamento, enquanto assistia ao jogo entre Alemanha e Estados Unidos. Chegou com vida ao hospital graças à presteza com que os médicos o socorreram — e à feliz coincidência de estarem ali, na hora certa, preparados para o pior. Depois de uma semana difícil no hospital, Leandro, na sexta-feira, tinha a infecção sob controle, mas continuava sedado e em estado grave na UTI.

Foto: Chico Audi/Divulgação
Leandro: a quimioterapia
continua, apesar da
infecção generalizada
e da baixa imunidade

Eram cerca de 6 horas da tarde do dia 15 quando os médicos Maria Lydia de Andréa e Claudio Petrilli, oncologistas que tratam da doença do cantor desde o início, apareceram para uma visita de rotina. Eles acompanhavam aquilo que parecia ser uma satisfatória recuperação do primeiro ciclo de quimioterapia contra o avanço do câncer. Como o tumor está situado entre o mediastino — região central do tórax — e o pulmão direito, a quimioterapia é o único tratamento possível, pelo menos no estágio atual do caso, já que a localização e o tamanho do tumor dificultam a abordagem cirúrgica. Extremamente agressivo, o tumor de Askin é combatido por drogas ministradas em altas dosagens — caso contrário, elas não têm efeito. Esse tipo de tratamento exige que o paciente receba transfusões de sangue, plaquetas, analgésicos e antibióticos, que visam deixar o organismo menos debilitado diante da ação das drogas pesadas. Mesmo passando por tudo isso, Leandro dizia-se muito bem quando os médicos chegaram ao seu apartamento.

Essa situação mudaria radicalmente em questão de minutos. O cantor sentiu um mal-estar, seguido de convulsão. Logo depois, houve a parada cardiorrespiratória. "Felizmente, tínhamos toda a estrutura montada para o atendimento daquele quadro", explicou a médica Maria Lydia. Foi ministrada uma dose de oxigênio para que Leandro voltasse a respirar, enquanto uma massagem no peito restabelecia os batimentos cardíacos. Ele foi entubado, passando a respirar com a ajuda de aparelhos. Transferido para o hospital, Leandro passou por um exame de ressonância magnética, feito para identificar uma eventual seqüela da parada cardiorrespiratória no cérebro. "Pudemos detectar que o cérebro não foi comprometido", anunciou o médico Ruy Marco Antonio, diretor superintendente do São Luiz. Depois da primeira boa notícia, veio outra, desta vez ruim. O tumor havia crescido além do previsto, e muito provavelmente foi a causa principal da parada cardiorrespiratória.

Fé e oração — Uma das conseqüências normais da quimioterapia é o paciente ficar com a imunidade comprometida. As drogas usadas nesse tipo de tratamento atacam a medula óssea, responsável pela produção dos glóbulos brancos do sangue, que servem para proteger o organismo de infecções. A contagem de leucócitos, as principais células de defesa do organismo, era de apenas 400 por milímetro cúbico de sangue quando Leandro foi internado. O normal é 8.000, nível que foi alcançado dois dias após a internação. Mesmo assim, o organismo ainda não se havia livrado da infecção. Isso impedia que um novo ciclo quimioterápico fosse iniciado imediatamente. Na tarde de quinta-feira, por fim, os médicos anunciaram a decisão de retomar a quimioterapia. "O ideal era que tivéssemos um tempo maior para o controle da infecção, mas o tumor cresceu rapidamente", justificou a oncologista Maria Lydia. Exames de sangue e urina mostraram que o cantor poderia suportar uma nova carga de drogas, ainda mais fortes, para combater o câncer. Além da quimioterapia, os médicos usaram mais dois procedimentos. Para melhorar a circulação sanguínea, colocaram uma prótese dentro da veia cava superior, que estava comprimida. Além disso, obstruíram artérias que irrigam o tumor, para reduzir o seu ritmo de crescimento.

Durante toda a semana, correntes de oração eram formadas pelas dezenas de pessoas que faziam vigília na porta do Hospital São Luiz. Dentre as inúmeras manifestações de comoção popular, um grupo de trinta crianças levou às lágrimas os amigos mais próximos de Leandro ao entoar a música Como É Grande o Meu Amor por Você, de Roberto Carlos. Cartas e mensagens de encorajamento eram deixadas à porta do hospital por admiradores anônimos, tocados pela dramática situação do cantor. Amigos e familiares buscavam nesses gestos de afeto a força para enfrentar a dor. O irmão Leonardo, visivelmente combalido, tem-se desdobrado entre visitas ao hospital e viagens para shows. Não cancelou nenhum até agora. Cumprir a agenda que havia sido marcada para a dupla, mesmo cantando sozinho, é um compromisso que Leonardo assumiu a pedido de Leandro, logo que a doença foi detectada. Às vezes, manter a promessa é quase impossível. "No palco, ouço o Leandro cantar", confessou a amigos. Às vezes, a voz fica embargada e sai acompanhada de lágrimas. "O Leonardo sempre foi o mais extrovertido, mas agora acabaram as brincadeiras, acabou o sorriso", diz o goiano João Rodrigues, o "Cocar", um dos melhores amigos da dupla.

Na última quinta-feira, o cantor Daniel, que perdeu o parceiro João Paulo em um acidente de carro no ano passado, esteve no hospital para abraçar o amigo. "O Leonardo é muito coração, como eu. É lógico que ele está triste, mas o controle da infecção o deixou mais animado." O pai do cantor, Avelino Costa, não cansa de repetir que preferia estar no lugar do filho a vê-lo padecer dessa maneira. Dos sete irmãos de Leandro, Mariana, de 25 anos, noiva do empresário da dupla, é a que está mais próxima do cantor. Viajou para os Estados Unidos quando ele foi submetido à biópsia e é a representante da família no contato com os médicos. Antes de piorar, na segunda-feira passada, Leandro jamais deixara de acreditar em sua recuperação e não parou de fazer planos. "Antes de voltar ao hospital, ele estava imaginando como seria o show que pretende fazer em benefício de uma entidade que atende crianças com câncer", conta uma amiga. Talvez esse show nunca se realize.

Com reportagem de Glenda Mezarobba




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