Lindos de morrer

Entre agulhadas e creminhos, homens
procuram mais tratamentos estéticos

Vit em uma aplicação
de ácido: 500 reais
por mês em produtos
e tratamentos
Foto: Antonio Milena  

Imobilizado na cadeira, ele vê uma pistola de desenho ameaçador se aproximar. Na ponta, uma agulha. O instrumento vai chegando cada vez mais perto. Valente, ele agüenta firme. Não, não é uma cena em que o aspirante a Jean-Claude Van Damme suporta bravamente torturas pavorosas nas mãos da gangue do dragão negro. Mas muitos homens estão enfrentando um ritual parecido: as sessões de mesoterapia, um dos tratamentos que encabeçam a silenciosa corrida masculina aos recursos estéticos. Silenciosa, porém consistente. Calcula-se que os homens já sejam 25% dos clientes dos institutos de beleza e dos consultórios e clínicas de estética. São clientes discretos e pouco dados a grandes ousadias que, em lugar de apenas lavar o rosto com água e sabão — a fórmula de beleza básica do homem-que-é-homem de antigamente —, resolveram investir pesado nos cuidados com rosto, pele e peso.

Os tipos de tratamento variam pouco entre homens e mulheres. Massagem, limpeza e hidratação de pele e cabelo, tratamentos anti-rugas e redução de gorduras localizadas são os recursos mais utilizados por ambos os sexos, embora as atitudes divirjam em um ponto básico: homem detesta falar no assunto (veja quadro ao lado). Poucos se tratam às claras, como o empresário Elvio Danilo Vit, 44 anos, casado, três filhas, que há dois anos marca ponto em clínicas de estética e academias. Vaidoso confesso, dono de uma coleção de cremes e perfumes, Vit faz limpeza de pele a cada três meses, hidrata os cabelos a cada seis e, nos intervalos, encaixa drenagens linfáticas (um tipo de massagem) e injeções contra vincos e rugas. "Gasto ao menos 500 reais por mês com isso", calcula.

Alguns (poucos) radicalizam. Na clínica da esteticista paulista Edy Guimarães, uma sala reservada só para homens recebe até interessados em depilação, ritual de tortura da pesada, em que pêlos do corpo são arrancados a sangue frio. "Os homens tiram o excesso de pêlos das costas, do peito e entre as sobrancelhas", entrega Edy. De mais de 400 executivos ouvidos neste ano em pesquisa do Grupo Catho, 47% admitiram já ter superado um pavor ancestral para enfrentar a mesoterapia, sessão de pequenas e doloridas agulhadas muito popular no combate à celulite das madames, embora também seja usada — com reservas entre os profissionais — para queda de cabelo, estrias e rugas. O artista plástico Araguaí Garcia, 40 anos, garante que, em oito sessões de picadas, vencidas com galhardia, perdeu 8 centímetros na cintura. E ainda tripudia dos menos corajosos: "Doeu bem menos do que eu esperava". A mesoterapia exige a intervenção de um médico e, como introduz medicamentos, há sempre o risco de alergias e inflamações. "Para gordura localizada, o melhor mesmo é o óbvio: atividade física com reeducação alimentar", recomenda o dermatologista carioca Walter Guerra Peixe.

Pesquisa conjunta das indústrias de cosméticos revela que, entre 1994 e 1997, a porcentagem de homens que besuntam regularmente o rosto com algum creme ou loção subiu de 16% para 21%. Nos últimos três anos, na Avon, que até bem pouco tempo atrás só tocava a campainha de mulheres, quintuplicaram as ligações masculinas para o serviço de atendimento ao consumidor. Resultado: a empresa lançou um creme facial e uma loção suavizante para homens, e planeja mais. A pioneira Natura acaba de retirar do mercado um conjunto de creme e loção que vendia desde 1988 para lançar, em agosto, a linha Natura Homem, com doze produtos. De creme em creme, as mulheres que se preparem: a pia do banheiro vai ficar congestionada.

Dagmar Serpa




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