| |
As hordas atacam
Hooligans
provocam, agridem, vandalizam
e deixam os franceses em estado de alerta
Carlos
Maranhão, de Paris
Os torcedores são uma grande atração
desta Copa do Mundo. Há valquírias norueguesas,
etílicos mas inofensivos escoceses, franceses que
buzinam pelas ruas, africanos em trajes coloridíssimos,
japoneses desesperados atrás de ingresso, orgulhosos
brasileiros que estremecem as arquibancadas ao som de Aquarela
do Brasil e eles. Como se temia, os hooligans
também estão presentes. Escória da marginalidade
inglesa, eles cruzaram o Canal da Mancha, atravessaram a
França e desembarcaram na costa do Mediterrâneo para
agredir adversários, queimar bandeiras e praticar atos
de vandalismo. "O que há com os ingleses?",
perguntou na semana passada, em um artigo indignado para
o International Herald Tribune, o jornalista
esportivo Rob Hughes, um dos mais respeitados da Europa.
"Sou um deles, mas estou envergonhado",
continuou, antes de apresentar um pedido de desculpa.
"I'm sorry, France. I'm sorry."
Entre sábado e
segunda-feira, perto de 20.000 súditos de sua majestade
invadiram Marselha, a segunda maior cidade do país, onde
nesta terça-feira o Brasil enfrentará a Noruega. Eram
quase todos tão entusiasmados e normais como os
seguidores das outras 31 seleções que celebram juntos o
mais universal dos esportes. Todos menos uns 1.000
selvagens. Em sua maioria jovens, desocupados e
arruaceiros que encontram na violência seu único canal
de manifestação, durante 48 horas eles semearam o caos
por onde pisaram. O primeiro incidente ocorreu fora do
Estádio Vélodrome, duas horas antes do encontro entre
Inglaterra e Tunísia. Ingleses e tunisianos
estes, na maior parte, residentes na área de Marselha
travaram uma batalha com garrafas e latas de
cerveja. Três horas depois, a 1,5 quilômetro dali,
milhares de sem-bilhete aglomeravam-se diante de um
telão de TV. Quando o atacante Alan Shearer fez o
primeiro gol, os hooligans desandaram a xingar os
tunisianos. Entre outras barbaridades, berravam:
"Somos brancos e temos orgulho de ser!" Os
tunisianos revidaram com palavrões. Uma bandeira da
Tunísia foi queimada. Voaram novamente garrafas, latas e
agora pedras dos dois lados. Os tunisianos usaram
cadeiras de plástico como escudo e arma de
contra-ataque.
Brutalidade
Seguiu-se um quebra-quebra que atingiu dezesseis lojas e
restaurantes. Houve cinqüenta feridos, dos quais 35
tiveram de ser hospitalizados. Cem pessoas foram presas.
"Trata-se de uma minoria insensata", lamentou o
primeiro-ministro inglês, Tony Blair, talvez sem levar
em conta que é justamente ela como os traficantes
da Colômbia, os terroristas do ETA espanhol ou os
autores de chacina no Brasil a responsável pelas
desgraças de tantos países. "O que eles fizeram
foi cuidadosamente planejado", acusa o presidente do
comitê organizador da Copa do Mundo, o ex-jogador Michel
Platini, que em 1985 marcou o triste gol da vitória do
Juventus de Turim contra o Liverpool, em Bruxelas, na
decisão da Copa Européia de Clubes Campeões. Naquele
dia, um conflito provocado pelos ingleses resultou em uma
das maiores tragédias da história do futebol. Morreram
39 pessoas, mais de 400 ficaram feridas e o mundo,
chocado, tomou conhecimento da brutalidade dos hooligans (veja
quadro abaixo). Nos cinco anos seguintes, os clubes
britânicos ficaram excluídos das competições
realizadas no continente europeu. Muitos hooligans foram
identificados, presos e proibidos de freqüentar
estádios. Recentemente, a polícia inglesa forneceu às
autoridades francesas o nome de 1.200 deles. Destes,
cerca de 200 são considerados "muito
perigosos".
Operação de guerra Praga
de um caldo que mistura desemprego, subemprego,
delinqüência juvenil, alcoolismo, drogas e
frustrações desrecalcadas no futebol, o hooliganismo é
um fenômeno que existe em países como Holanda e, com
características diferentes, na Argentina e no Brasil.
Como os hooligans, os membros das torcidas paulistas
vários estão na França, sem provocar nenhum
incidente até aqui são exceção numa multidão
de esportistas cordatos. O problema é que sua presença
nos campos afasta os espectadores comuns, que se sentem
ameaçados.
No caso da Copa do
Mundo, as hordas deixaram em sobressalto as duas cidades
onde a Inglaterra jogará nesta semana: Toulouse, terra
do cassoulet (a feijoada francesa) e do Concorde, e a
pequena Lens, de 35.000 habitantes, numa região próxima
das Ilhas Britânicas. Para tentar neutralizá-las, o
ministro do Interior, Jean-Pierre Chevènement, armou uma
operação de guerra. Ao lado dos 1.600 policiais já
escalados (o dobro do contingente mobilizado na última
decisão em São Paulo), serão deslocados para lá dois
batalhões, com 180 homens, das CRS, as Companhias
Republicanas de Segurança, tropa de choque que se
celebrizou por ter reprimido as agitações estudantis de
maio de 1968.
Bares e
restaurantes estão fechando suas portas às 23 horas,
enquanto supermercados e lojas foram aconselhados a
retirar das prateleiras garrafas e latas de bebida. Mesmo
em Paris, uma das metrópoles mais boêmias do mundo,
locais que servem bebidas alcoólicas não poderão
funcionar após as 2 da madrugada. "Com essa gente,
é preciso tomar a iniciativa", declarou o prefeito
de Marselha, Jean-Claude Gaudin. "Depois que eles
entram em ação, é quase impossível detê-los."

|
|