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Brasil na cabeça
Com suas
vitórias, o Brasil projeta uma imagem
de sucesso que anima o Terceiro Mundo
Eurípedes
Alcântara, de Paris
Com um inconfundível sotaque carioca,
uma voz feminina, vinda dos alto-falantes da estação
ferroviária de Nantes, encheu o espaço na terça-feira
passada, momentos depois de a seleção brasileira
despachar o time do Marrocos por 3 a 0 no estádio da
cidade. Falava um autêntico português do Brasil. Pela
primeira vez desde o fim da ocupação alemã, há mais
de meio século, os horários dos trens na França eram
anunciados numa língua estrangeira. Mais do que um sinal
da boa organização da Copa ou da hospitalidade dos
franceses, o episódio foi símbolo de um momento mágico
pelo qual passa a imagem do Brasil no exterior. De Pequim
a Bangcoc, do Panamá à Palestina, de Bangladesh ao
Haiti, o Brasil é um sucesso. Nem o café e o samba, nem
a bossa nova ou mesmo Ayrton Senna foram tão
universalmente identificados com o Brasil. Talvez só
Pelé tenha feito tanto quanto o atual futebol brasileiro
para projetar o país. Claro, metade é glória da Nike,
com seus outdoors. Mas os pés de Ronaldo, Rivaldo,
Bebeto e Cafu estão construindo com a bola a imagem de
um país irreverente mas sóbrio, eficiente mas alegre e
competitivo, que surpreende até os próprios
brasileiros. Em lugar algum se observa isso com tanta
nitidez quanto nos países do Terceiro Mundo. Nesses
lugares, o Brasil se projeta como um exemplo de que
nações pobres podem ser mundialmente bem-sucedidas
ainda que no esporte.
"Embora o
Brasil possa até vir a tropeçar nas fases seguintes,
porque as Copas são traiçoeiras, o time já mostrou que
é o melhor e o mais querido dos torcedores", diz
Craig Brown, treinador da Escócia. Em dia de jogo do
Brasil, o país inteiro parece calçar chuteiras. Os
poucos que não recebem dispensa do trabalho colocam o
emprego em risco mas não perdem a chance de ver e torcer
pelo time de Zagallo. Terminada a partida, vão para as
ruas festejar em barulhentas carreatas. A cena, familiar
no Brasil, vem se repetindo pelo mundo afora. Em Beirute,
o cantor mais famoso do Líbano, Zyad Al-Rahbané, faz
seus shows vestido com uma camisa verde-amarela. A
seleção brasileira desperta paixões violentas. Naam
lil Brazil! Al-Mout lil Almaan (Viva o Brasil, morte
aos alemães), proclamava a grafitagem, nos muros
libaneses, até recentemente tomados por inscrições
anti-Israel. Mais ao sul, na Palestina ocupada, como
escreveu o jornal francês Libération, parece que
"Deus é brasileiro e Ronaldinho, seu profeta".
No Haiti é feriado
em dia de jogo do Brasil. No Panamá as escolas observam
ponto facultativo. "Minha mãe é professora e
dispensa os alunos quando o Brasil joga", diz
Antonio Bacelar, panamenho radicado no Canadá. "Ela
diz que não existe melhor lição do que a seleção
brasileira para mostrar aos garotos do que nós, latinos,
somos capazes." Na Índia, na Tailândia e na
Jamaica, os torcedores idolatram o futebol brasileiro com
um fervor que poderia ser descrito como patriótico não
fosse outra a pátria deles. Com a classificação para a
Copa garantida pelas mãos do treinador brasileiro Renê
Simões, a admiração pelo Brasil na Jamaica explodiu.
Se ocorrer a lógica e os jamaicanos caírem fora da Copa
na primeira fase, é certo que a população do país vai
adotar a seleção brasileira como seu time favorito.
Na semana passada,
em Bangladesh, houve uma grande manifestação nas ruas
motivada pelas panes de energia que impediram parte do
povo de assistir aos jogos pela televisão. Teve revolta
e quebradeira. Um torcedor colou uma foto de Ronaldinho
na tela do televisor e se plantou, pateticamente, ao lado
dela. Em Bangcoc, capital da Tailândia, uma pesquisa
mostrou que 40% das mulheres torcem pelo Brasil. "A
seleção brasileira é multirracial e qualquer país ou
grupo étnico pode identificar-se com os nossos
jogadores", observa Marcos Azambuja, embaixador do
Brasil na França. "Eles sugerem a todo menino pobre
do mundo que ele também pode um dia chegar lá."
A seleção
brasileira que está na França merece tantos elogios?
Sem dúvida, sim. O time tem talentos individuais
melhores e jogadas mais bonitas do que aquele que se
sagrou tetra na Copa de 94. Está jogando na França até
agora com a altivez de quem preserva uma tradição
estética, cultural e esportiva muito valiosa. Desperta
temor, admiração e respeito nos adversários.
No universo virtual
da Internet, o Brasil também esteve soberano nos grupos
de discussão especializados em futebol. Na sexta-feira
passada, uma mensagem destoava da desabrida louvação ao
time brasileiro. "Oh, como eu odeio o Brasil",
escreveu o britânico Bill Blackett, que emendou mais
tarde: "Eu não odeio o Brasil. Odeio as pessoas
que, sem nunca ter ido ao Brasil, sem conhecer os
brasileiros, sem falar uma única palavra de português,
ficam idolatrando descaradamente o Brasil e sua seleção
de futebol". Blackett desabafou depois de ler 400
mensagens enaltecendo Ronaldinho e seus companheiros.
"Calma, Bill", rebateu Chiman Yeung. "O
futebol tornou-se uma linguagem universal e os
brasileiros são seus mestres. Por isso é possível amar
o Brasil sem nunca ter visitado o país."
Com
reportagem de Sérgio Ruiz Luz

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