Salvação para tudo

Terapias caras e inspiradas em filosofias
orientais seduzem a classe média brasileira

Cristina Ramalho

Foto: Egberto Nogueira
Meditação com monja em São Paulo e pêndulo
usado na radiestesia (
abaixo): em busca de harmonia
contra o stress da vida nas grandes cidades

Depois dos livros de auto-ajuda e dos anjos da guarda, agora é a vez do Oriente. Puxados num molho científico ao gosto ocidental, rituais e doutrinas como feng shui, aromaterapia, radiestesia, meditação, ioga, que chineses e indianos vêm praticando há milhares de anos, nunca estiveram tão em moda entre os brasileiros. As chamadas terapias alternativas atraem um número cada vez maior de adeptos, custam caro e movimentam um variado mercado de produtos que prometem melhorar a vida das pessoas ao reduzir o stress e as angústias da rotina urbana. Nos bairros de classe média alta, salas bem decoradas exibem objetos como uma esfera de cristal ou sinos de vento dourados, penduricalhos que até algum tempo atrás só se viam em restaurantes chineses tradicionais. São instrumentos do feng shui, doutrina chinesa de 6000 anos. Ela prega a adoção de alguns cuidados estéticos e arquitetônicos na casa como forma de garantir uma vida melhor e mais tranqüila. Outra novidade cada vez mais em voga é a aromaterapia, que ensina as pessoas a perfumar o ambiente em benefício da saúde e do equilíbrio emocional.

Em busca de energias positivas, vale tudo: se a casa parece carregada e coisas estranhas vêm acontecendo, talvez o problema esteja no terreno em que ela foi construída. Nesse caso, a solução é a radiestesia. Com um pêndulo nas mãos e uma anunciada sensibilidade para o inexplicável, o radiestesista promete limpar a área. Dependendo do caso, pode aplicar uma geoacupuntura plantando estacas em pontos considerados estratégicos do terreno. "Elevo o padrão de energia do local só acertando, com estacas, os pontos críticos da planta", garante Marcos Alves de Almeida, 53 anos, um geólogo que trabalhou vinte anos no Instituto de Pesquisas Tecnológicas, IPT, de São Paulo, e hoje vive de tratar casas e indústrias com o uso da radiestesia. Sua atividade soma conhecimentos de física e química a um discurso que também caberia no roteiro do filme Os Caça-Fantasmas.

Paulo Lin faz feng
shui com um tipo de
bússola que mede a
energia do ambiente
Fotos: Claudio Rossi  

Meditação tibetana — O Oriente, pelo jeito, conquistou todo o mundo. A revista americana New York publicou, em maio, um artigo em que médicos de grandes hospitais se curvavam à meditação tibetana como auxiliar clínico. No Brasil, nos últimos dois anos, cresceu tanto a procura por ajuda desse gênero que há filas para consultas com terapeutas que têm preços entre 150 e 800 reais. Existem fábricas de objetos de feng shui como a Mensageiro dos Ventos, de Florianópolis, que vende 5.500 sinos de ventos por mês, além de centenas de esferas de cristais, flautas de bambu e até filtros de sonhos que prometem um sono sem influências negativas. "No início, quem comprava mais os produtos de feng shui eram os esotéricos locais, mas a moda pegou e hoje vendo para todo o país", conta a proprietária da empresa, Selma Santos, 41 anos. Produtos de aromaterapia também são procurados no Brasil inteiro. "Temos uma distribuidora para todo o Nordeste, mas vendemos ainda para Curitiba, Porto Alegre, Belo Horizonte, Brasília, Porto Velho", explica Rosa Maciel, 40 anos, dona da Jardins, fabricante de óleos aromaterapêuticos na Bahia. "A aromaterapia só tende a se desenvolver, ainda mais que está sendo utilizada por psicólogos e médicos", afirma Zheca Catão, que com a irmã e a atriz Carla Camurati montou em São Paulo uma franquia da loja inglesa de aromaterapia Neal's Yard, com filiais no Rio de Janeiro e em Minas Gerais. Vende 4.000 frascos por mês para uso doméstico ou pessoal.

Todas essas terapias alternativas foram trazidas do Oriente e adaptadas à vida ocidental pelos americanos. De lá, a moda se espalhou por outros países. Madonna colaborou com a onda, quando decidiu estudar cabala, fazer meditação e trocar a musculação pela power yoga. Lygia Lima, professora carioca que trouxe há um ano e meio a power yoga dos Estados Unidos, logo conquistou alunos como as atrizes Gloria Pires e Patrícia Travassos e vários empresários. "Eu fazia ginástica com um personal trainer, mas estava muito puxado para mim, e ele então me sugeriu a ioga. Faço power yoga todos os dias", explica o empresário carioca Olavo Monteiro de Carvalho, 56 anos, que substituiu o personal trainer por Lygia. Personagens de colunas sociais, como a paisagista paulistana Neiva Rizzoto, encantaram-se pelo feng shui, a mais badalada dessas novidades. "O feng shui traz harmonia", diz ela. A casa da paisagista foi tratada por Paulo Lin, 30 anos, um filho de chineses que, em um ano e meio, já reequilibrou as energias de quarenta casas nos bairros do Morumbi e dos Jardins. "O feng shui deve ser feito por quem tem conhecimentos de monge", defende Lin, seguidor da escola budista tântrica tibetana. "É uma filosofia séria, que exige profundidade, misericórdia e paixão. Não é mera colocação de objetos na casa."

Mantras e ikebanas — Quase sempre a idéia de apelar para terapias alternativas parte das mulheres. Elas garantem que os maridos aprovam, ainda que os preços não sejam baixos. "A aromaterapia faz maravilhas para quem está estressado", anuncia a aromaterapeuta Fátima Leão. Com o mesmo fim, a meditação aposta no poder da mente. Toda semana, grupos com vinte a trinta executivos e profissionais liberais reúnem-se para meditar no Instituto Brasileiro de Pesquisa Holística em Medicina, Ibraphema, em São Paulo, dirigido pelo médico chinês Jou Eel Jia, 45 anos. Diante de monjas, eles entoam mantras ou aprendem ikebanas e a cerimônia do chá. "Meditar faz aumentar a percepção para distinguir o que faz bem e o que prejudica", assegura o doutor Jou, que nos últimos dois anos atendeu cerca de 2.000 clientes.

 


 





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